Entrevista a Chadwick Boseman

Senhoras e senhores, eis o “Black Panther”!

14 | 02 | 2018   23.05H
Após encarnar ícones da cultura afro-americana como Jackie Robinson, James Brown ou Thurgood Marshall, agora chegou a vez de Chadwick Boseman encarnar o super-herói “Black Panther”, filme que estreia hoje.
Destak | destak@destak.pt

Se vamos falar da atualidade, sim, é verdade que o Black Panther reina supremo, é respeitadíssimo como modelo social e, dentro em breve, tem garantidos recordes inacreditáveis de bilheteira nos cinemas de todo o mundo. Mas, historicamente, só em 1966 é que a Marvel deu ordem de soltura e as grilhetas foram abertas para que a figura do Black Panther pudesse irromper no horizonte povoado de heróis brancos.

No relógio do tempo, Malcolm X havia sido assassinado um ano antes. O impacto da série foi fantástico. Pouco tempo depois da criação, por exemplo, punhos cerrados em luvas negras, vestidas por atletas negros, subiriam ao pódio durante os jogos olímpicos de Tóquio. O ‘black power’, em parte representado pelo muito gentil e poderoso Black Panther, tinha saltado airoso para o palco febril da cultura popular.

Agora chega ao cinema com ar de utopia, falando de uma África imune aos efeitos destruidores da colonização. O Destak foi falar com Chadwick Boseman, o ator talentoso que já transportara para o cinema as sagas aterrorizantes do jogador de basebol Jackie Robinson e do juiz Thurgood Marshall, deuses da diáspora afro-americana e da luta pelos direitos humanos. Bem-vindo, sua majestade de poderes mil.

Qual o verdadeiro significado deste filme, sobretudo levando em conta que, num filme americano, a personagem negra está geralmente ausente ou, pior, vai ser baleada logo nos primeiros minutos da história?

É importante que este filme seja feito neste momento. Desde logo, é prova de que uma aventura com herói negro pode ser financiada a este nível. Black Panther é o 18º filme que desvenda o Universo Cinematográfico Marvel. É importante que eles tenham viabilizado este tipo de história, é importante que tenham providenciado um orçamento substancial, que os melhores efeitos especiais tenham sido garantidos.

O cinema americano não tem, de facto, espelhado as viagens pessoais da população negra. E dá sempre pouca atenção ou validade às tradições africanas. Descobriu alguma coisa sobre a sua história e genealogia ao logo deste processo?

Como indivíduo afro-americano, é-me exigido um esforço extra para descobrir laços na genealogia que permitam compreender a minha cultura ancestral. Cabe-me a mim descobrir o elo étnico que ajude a compreender certas coisas. Não queria que, neste filme, o reino mítico de Wakanda fosse apenas uma ideia anónima e generalizante daquilo que pensamos ser África. Para mim, teria de ser algo mais concreto. Decidi fazer testes de ADN para aprofundar os meus conhecimentos. Já sabia que a minha origem vinha dos povos da Serra Leoa mas, desta vez, para ir ainda mais fundo na investigação daquilo que sou, pedi aos meus familiares que também fizessem o teste. Descobri que sou de origem Mende, da Serra Leoa, mas que tenho igualmente uma parte Yoruba, que abrange parte da Nigéria atual. Tenho ainda uma parte Jola, da Guiné-Bissau.

O ecrã contém várias figuras femininas poderosas, determinantes. Conhece muitos homens que se dizem feministas?

Vou pressupor que sim, conheço vários. Primeiro de tudo, acho que não faz sentido limitar o diálogo com as diferenças que vemos na anatomia. O nosso corpo não deve ser uma barreira ao que pensamos. Não há uma predeterminação física à nascença sobre quem pode ser feminista e quem não pode ser feminista, quem pode ter ideias feministas e quem não pode ter tais conceitos. Em segundo lugar, se há tantas mulheres que conseguem ser autênticas machistas e chauvinistas, então certamente que há por aí homens que podemos considerar como feministas convictos. É uma lógica que funciona para ambos os lados.

Gosto muito de ver no filme a diferença entre um africano e um afro-americano. Um deles, claro, não tem acesso à segurança mental das tradições acumuladas por causa do corte geográfico imposto pela escravatura. Que tipo de mensagem existe aqui?

É importante falar do conflito que existe na alma de um afro-americano sem acesso aos seus laços ancestrais. É preciso falar da diferença de um afro-americano sem acesso ao passado, por oposição a um africano, que tem isso garantido. Quando fizemos o filme, o John Kani, um dos outros atores de origem africana, disse-me que era capaz de dizer o nome do seu tetra-avô. É inacreditável, mas esse exercício simples não está ao meu alcance. Ele e eu temos, por isso, ideias totalmente diferentes daquilo que uma família pode ser. Ora bem, este tema é algo que a América nunca viu antes. Havia uma frase que cheguei a dizer para a câmara mas que, penso, acabou por ser retirada na sala de montagem. O que eu dizia, na pele de Black Panther, era basicamente isto: nós, em África, conhecemos 300 gerações dos nossos antepassados, conhecemos o nosso povo, mas vocês já não têm essa mesma ligação. Eu, Chadwick Boseman, também vivo este conflito.

A estreia americana está a registar uma venda antecipada de bilhetes como nunca se viu na história de Hollywood. Qual é, além do entretenimento, uma das mensagens mais importantes deste trabalho feito para o cinema de massas?

Acho que o filme vai desencadear muitas conversas. Há, para todos nós que nascemos da ancestralidade afro-americana, um grande sentido de perda. Vai ser preciso lidar com essa dor. Uma grande perda e uma grande dor são forças gigantes quando falamos de guerra e de paz, quando começamos a lidar com a herança da opressão. Se eu, como indivíduo, nunca fui conquistado, tenho possibilidade de lidar com a opressão de certa maneira. Mas se fui conquistado e oprimido e desligado da minha existência ancestral, nesse caso a situação é outra. Há uma certa quantidade de agonia e ansiedade que nunca foram, até agora, encaradas de frente.

Foto: DR
Senhoras e senhores, eis o “Black Panther”! | © DR
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