Saúde pública

Pesticidas em 54% dos produtos agrícolas

06 | 03 | 2018   23.08H
Relatório oficial relativo a 2016 encontrou resíduos de produtos fitofarmacêuticos em 201 de 370 amostras de frutos, hortícolas e cereais. Zero alerta para o risco da escassa amostragem e pede maior fiscalização.
Destak | destak@destak.pt

Maçã, couves-de-repolho, alho francês, alface, pêssego, morango, grãos de centeio, tomate e vinho (branco ou tinto) no Continente; pêra abacate, anona, banana, batata-doce, cebola, cenoura, maracujá, sidra e sumo de cana na Madeira; batata-doce, coentros, espinafre, hortelã, salsa, kiwi e manjericão nos Açores. Foram estes os produtos agrícolas selecionados em 2016 para serem controlados os Limites Máximos de Resíduos (LMR) de produtos fitofarmacêuticos, usados na preservação das culturas.

De acordo com o relatório da Direção-Geral de Veterinária e Alimentação (DGAV), que o Destak consultou, seis amostras tinham resíduos de pesticidas acima do definido por lei, embora só se possa falar de infração às regras em quatro delas (1,08% do total). Numa couve de folhas foi detetado um produto (clortalonil) que não está autorizado para esta cultura; quanto a uma alface, apesar do uso de formetanato ser possível, não foram cumpridas as práticas fitossanitárias; a mudança recente do LMR autorizado de clorpirifos justifica o incumprimento identificado numa maçã; e o boscalide não é permitido na produção biológica de alho francês.

Nestes quatro casos foi prestada assistência técnica ao produtor e feitas novas amostragens. A um produtor açoriano foram impostas sanções administrativas. Estes 1,08% representam uma redução da incidência face a anos anteriores: 2,1% em 2015; 3,8% em 2014; ou 4,5% em 2013.

Foram ainda detetados resíduos dentro das regras em 195 amostras (52,7%), o que dá um total de 201 produtos com resquícios de pesticidas (54,3% do total). Dito de outra forma, menos de metade (169 - 45,7%) dos frutos, hortícolas ou cereais testados estavam ‘limpos’.

Quanto à origem, 87,3% dos produtos investigados eram nacionais, 11,6% oriundos da UE, 0,8% de países terceiros e 0,3% de origem desconhecida. Banana (51 em 53 amostras - 96%), maçã (22 em 31 - 71%) e morangos (17 em 26 - 65%) foram os frutos com mais resíduos de pesticidas, enquanto manjericão (3 em 4 - 75%), alho (6 em 8 - 75%) e repolhos (20 em 27 - 74%) foram os vegetais mais problemáticos.

A DGVA refere que os LMR «não são apenas valores seguros para o consumidor», mas também o «valor mais baixo possível» nas práticas fitossanitárias autorizadas nas culturas. «Em consequência deste último critério, a eventual transgressão de um LMR, se bem que ilegal, e como tal punida por lei, não se traduz necessariamente em risco para o consumidor».

Esta posição é destacada pela Associação Nacional da Indústria para a Proteção das Plantas, que vê neste relatório a confirmação do «caminho firme que tem sido seguido pelo setor para assegurar uma produção eficiente e segura para todos os consumidores. Mas a Zero não está tão otimista.

Ao Destak, a associação ambientalista refere que «o ideal é que os pesticidas não estivessem presentes nestas culturas». «Supostamente, há muitos conhecimentos científicos nas normas da UE», admite Paulo Lucas, pelo que a probabilidade de riscos para a saúde «não é muita». Mas «eu não quero resíduos de pesticidas na minha alimentação. Em vez de 54%, eu queria que fossem só 20 ou 15%. Preocupa-nos esse valor».

Para melhorar este cenário, em vez do controlo ser feito junto do consumidor – as amostras são recolhidas nos pontos de venda – a Zero defende que o Ministério da Agricultura devia implementar «um controlo analítico junto da produção, com uma amostragem muito superior». O que leva a outro problema identificado pela associação.

«Por que carga de água só há 130 amostras no Continente, quando temos muito maior quantidade de produtos em circulação e muito mais consumo? Acreditamos que do ponto de vista estatístico e segundo normas europeias, Portugal esteja em cumprimento, mas do ponto de vista da amostragem, parece-nos que é preciso um maior esforço. Dá a ideia de alguma dificuldade em fazer este trabalho nesta área, quando o Estado tem de continuar a fiscalizar».

Refira-se aliás, que o número de amostras baixou 45% num ano: de 680 em 2015 para 370 em 2016.

Foto: DR
Pesticidas em 54% dos produtos agrícolas | © DR
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