Entrevista a Greta Gerwig

«Este é um filme sobre o lar»

07 | 03 | 2018   23.12H
Depois de emprestar o seu talento arrasador de atriz a vários filmes que deixaram marca, com “Lady Bird”, que marca a sua estreia na realização, Greta Gerwig diz ao mundo que é uma cineasta de mão cheia.
Destak | destak@destak.pt

Começando pelo princípio, a princesa borralheira nasceu em Sacramento, a capital política da Califórnia, cidade vista por muitos como uma concorrente distante na luta pela medalha de cidade mais ‘cool’ do estado. A Greta, que sempre nutriu aquelas aspirações jovens cheias de apetite por tudo que é considerado cosmopolita, nunca foi feliz com esse facto. Sentia-se marginalizada pela vida, pelo destino ou, provavelmente, por ambos.

Se calhar foi por isso que ela cresceu assim, como uma variante de Marylin Monroe do novo século, capaz de misturar humor muito específico e graciosidade nas personagens mais terrivelmente giras e desarmantes. A rapariga que vive na periferia da glória, perdida no mundo enorme, mas cheia de boa vontade, é ela. Não quer incomodar ninguém. Quer só ser feliz. E nunca se sabe bem onde é que ela, Greta Gerwig, acaba e onde é que as personagens dela começam.

Com Lady Bird, a longa-metragem que obteve nos Óscares tantos momentos grandiosos para obra tão confessional e de orçamento reduzido, a muito adorável Greta Gerwig, em versão de realizadora, conta, através da talentosa atriz irlandesa Saoirse Ronan, uma deliciosa saga familiar: a da estudante de colégio católico que nasceu para sonhos rebeldes. Santa seja.

Suponho que o texto do filme tenha algo de biográfico mas, ao mesmo tempo, dá ideia que pediu à atriz principal para não imitar nenhum dos seus maneirismos. Como fez?

Concordo. É uma boa maneira de enquadrar a questão. Deixe-me dizer, desde logo, que demorei muito tempo a escrever o guião deste filme. O meu método de trabalho, e todo o correspondente processo criativo, leva muito tempo até à concretização final. É sempre assim comigo. Escrevo guiões enormes que, depois, tenho de cortar. No caso deste Lady Bird, o que quis criar foi uma espécie de heroína fantástica, cheia de defeitos, problemas. Juntei alguns factos da minha vida. Gostei que a Saoirse – que vem de uma comunidade pequena na Irlanda e me disse logo que conhecia esta personagem até ao fundo dos ossos – se tenha apropriado da personagem. Leu sem que as palavras fossem piadas. Tinha humor, mas não havia aquele piscar de olho à audiência. A Saoirse tinha aquele brilho de vida, uma faísca que só existe quando estamos na presença da sinceridade. Nunca quis que a atriz me imitasse.

É difícil falar do passado quando ainda se é tão jovem?

Tanto ela, a personagem, como eu nascemos em Sacramento, tanto ela como eu frequentámos um colégio católico feminino. Mas havia outros aspetos em que ela era o oposto daquilo que eu fui. Eu, por exemplo, nunca pintei o cabelo de vermelho-garrido. Nunca pedi à família ou aos amigos que me tratassem por nome diferente daquele que me foi dado à nascença. E, sobretudo, ao contrário da menina Lady Bird, eu era o tipo de estudante que seguia com afinco e dedicação as regras da escola e do programa letivo. Nesse sentido, foi como se eu tivesse escrito este filme de maneira a aceder a algo que nunca me permiti. Quanto à questão de falar sobre o passado, achei que era importante lembrar aquele momento em que deixamos o ninho. Este é um filme sobre o lar. Queria falar da casa onde nascemos, da família. Sobretudo, queria falar da família como realidade que só compreendemos à medida que nos distanciamos dela. Só ficamos com o retrato completo quando nos afastamos. Só no retrovisor é que percebemos, por vezes, o valor da família. E de como precisamos dela.

Não é fácil falar do passado, seja da infância ou da juventude ou das loucuras feitas num sítio e noutro. Para contar tudo com imagens em movimento, quais foram as fontes de inspiração?

Os filmes sobre a fase a infância que mais me impressionaram vieram na cinematografia francesa e italiana: Os 400 Golpes [de François Truffaut] e o Amarcord [de Federico Fellini]. Gostei tanto do olhar para trás e daquele instante em que tentamos reconstruir o que devia ter ficado no passado. É o instante em que algumas coisas se transformam em fantasia e outras continuam a viver no mundo real. Para além deste aspeto, devo dizer que o filme que me obrigou a cair de amor pelo cinema foi o Beau Travail, da Claire Denis. Vi-o quando tinha 19 anos, já estava eu na universidade.

Recorde esse momento, no retrovisor, para nós. Como foi?

Ia visionar o filme num auditório qualquer. Fui, entrei, sentei-me sem saber o que esperar. Nunca tinha visto nada assim. Foi como se tivesse passado por uma explosão e o meu cabelo tivesse ficado todo eriçado para trás. Nunca me tinha sentido daquela maneira perante um filme. Foi aí que, claramente, percebi que estava na presença do cinema como obra de arte pessoal. Nem sequer sabia que tinha sido realizado por uma mulher. Vi os créditos finais e só pensei “Claire, mas que nome de homem tão estranho. Ou, então, é mulher…”. Não sei se foi naquele momento que pensei “Hm, um dia também quero realizar um filme”, mas foi certamente o momento em que depositei no meu cérebro a ideia de que foi ali, naquele lugar da minha vida, que primeiro tombei de amor pela 7ª Arte. Apaixonei-me pela arte da realização através de uma realizadora. Ainda amo todos os filmes dela, apesar de terem um estilo completamente diferente deste meu filme.

Ainda é esse tipo de cinema que prefere?

É essa uma das grandes vantagens e valores do cinema. Permite que exploremos dimensões e terrenos que estão muito para além daquilo que conhecemos ao perto. O cinema cria pontes de contacto e entendimento. Elimina diferenças. Senta as pessoas à volta de uma mesa comum. Eu, por exemplo, posso estar em casa a ver um filme sobre a experiência de um legionário francês no norte de África e, apesar de eu nunca ter estado naquele lugar e nunca poder ser aquela pessoa, é-me possível presenciar uma realidade de maneira visceral. Quero sentir que estou lá. Só assim é possível compreender aquelas personagens, aquelas pessoas ou, pelo menos, alguns aspetos que fazem delas o que são. É isso que adoro no cinema. Adoro as facetas específicas.

Foto: DR
«Este é um filme  sobre o lar» | © DR
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