Entrevista a John Boyega

«Não fazer nada é sempre boa ideia»

04 | 04 | 2018   23.01H
Desde que faz parte da família “Star Wars” que a vida de John Boyega nunca mais foi a mesma. Falámos com o jovem e talentoso ator inglês, a estrela do novo “Batalha do Pacífico: A Revolta”.
Destak | destak@destak.pt

John Boyega, o ator da mandíbula quadrada e ar grave sublinhando a profundidade com que encarna as situações dramáticas, nasceu em março de 1992 em Londres, capital britânica, filho de pais nigerianos que teriam adorado um filho que seguisse carreira de padre. Hoje, olhem só o banquete humano: tanto sucesso na arte internacional do cinema, ele ainda tão jovem e, contudo, tão maduro na sua seriedade e sentido de responsabilidade.

Não admira que esteja a caminho da estratosfera. Se não o viram sob a batuta precisa de Kathryn Bigelow no filme Detroit, a fazer de polícia negro com medo de contrariar o opressor assassino e branco, então talvez tenha saltado à vista quando apareceu no Star Wars VII - A Force Awakens.

Hoje surge-nos a salvar incautos quando as águas do Pacífico sobem para níveis catastróficos. Faculdades adicionais deste moço absolutamente maravilhoso: trabalhou no teatro logo aos 7 anos; recebeu mais tarde críticas magníficas quando apareceu nas vestes ciumentas de Otelo; e, num registo completamente diferente, sabe fazer sapateado – que é outra forma de cantar com passos encantatórios.

John, já todos percebemos que está atarefadíssimo a construir uma carreira de glória em Hollywood. Mas quando dá consigo envolvido numa situação surpreendente de excesso de tempo livre para aperfeiçoar a arte do ócio, como se aplica? O que faz, concretamente?

Desde logo diria que, sim, confirmo: o tempo é um elemento que me é muito precioso. Especialmente agora. Uma vez que tenho andado a trabalhar arduamente, o tempo livre que me resta é cada vez mais importante – exatamente porque só nessa altura me posso divertir. Se a vida fosse só trabalho sério sem haver espaço para desfrutar a existência, qual seria realmente o propósito disto tudo? Quando não estou muito ocupado gosto de usar os tempos livres para refletir no que se tem passado. Não fazer nada é sempre boa ideia. Perfeito. É isso mesmo que gosto de fazer. De resto, adoro as horas mortas em que, logo pela manhã, percebo que posso levantar-me da cama, ir à cozinha abrir o frigorífico para ver o que está lá dentro, e voltar para a cama. Não tem nada que saber. Adoro essa rotina.

Lembra-se de algum filme, livro, quadro de pintura ou peça de teatro que o tenha tocado de forma muito significante? Quando foi que sentiu isso ultimamente?

O filme Moonlight [de 2017]. Vi-o quando estava na Austrália a trabalhar e só me lembro de que achei tudo muito intenso. Porquê? Porque havia ali um grande talento na obra. Deixou-me mudo. Senti-me como um atleta que estivesse a observar outro atleta a fazer algo verdadeiramente novo e fresco. Em especial, gostei imenso de ver todos aqueles atores tão novos em exercícios de drama que os levaram, a eles e ao público, a grandes profundidades emocionais. Isso é algo que me agrada sempre muito.

Acho deliciosa a sua prestação artística no Star Wars. Aquele seu Finn é tão sólido e inescrutável. Será que as plateias poderão, num futuro próximo, ser convidadas a acompanhar o romance entre o seu Finn e a heroica Rey da atriz Daisy Ridley?

Bom, no novo episódio, como já se percebeu, a Rey e o Finn andam a trilhar caminhos distintos. A Rey anda pelas montanhas a fazer aquelas manobras com o sabre luminoso, e eu, claro, fui encontrar aventura em território desconhecido. Não sei que lhe diga. Se calhar a relação entre eles é complicada e uma daquelas coisas feitas à distância.

Consegue definir as vantagens profissionais que lhe foram postas aos pés logo que começou a trabalhar no Star Wars?

Pôs muitas coisas à minha disposição. Foi como se me tivesse sido garantida uma passagem. Foi um grande degrau que pude transpor e que me trouxe mais oportunidades. Isso, por sua vez, criou mais possibilidades de escolha e, com elas, maior liberdade criativa. É isso. Passei a ter acesso a mais liberdade na criação humana, algo que faz parte dos sonhos de qualquer ator. Outra coisa que mudou foi o horário de trabalho e o tempo livre. É como se os meus dias já não fossem meus. Não sou eu quem decide as horas laborais. Esse aspeto também teve um grande impacto na maneira como passei a gerir a vida.

O discurso político americano tem sido obrigado a lidar com questões ligadas à justiça, Black Lives Matter, brutalidade policial, os vícios da justiça, as desigualdades. Como é, no Reino Unido onde nasceu, a sua relação com a polícia?

As questões de brutalidade policial também existem em Inglaterra. A questão das relações raciais é um tema global e não apenas um assunto particularmente americano. Brasil, Índia, em quase todo o lado. Mas, como a América é enorme e dona de um protagonismo mundial único, há momentos em que dá ideia que as situações de discriminação, racismo e a brutalidade policial só têm lugar nos EUA. Neste debate global, os negros têm sido especificamente desfavorecidos. Ainda há pouco tempo houve um caso de agressão em que a polícia disse que o jovem negro, preso brutalmente, tinha morrido porque momentos antes havia ingerido uma substância qualquer. O inquérito viria a revelar posteriormente que o jovem negro não tinha ingerido nada. Ora bem, como este caso há outros. São inúmeros os jovens negros que, no Reino Unido, morrem durante a detenção policial. Agora, se vamos a falar da minha experiência pessoal, desculpem mas não vou deixar que ninguém me prenda. Mas é que nunca vai acontecer mesmo. Já percebi como é que eles operam. E sei que tenho de me manter a salvo.

Qual foi a pior experiência que teve com um polícia americano?

Passaram-me uma multa. Mais nada. Falo a sério quando digo que tenho sido tratado normalmente. Nunca tive problemas.

E com a polícia britânica?

Olhe, é o que é. Ainda me lembro de, quando era mais novo, ser perseguido pela polícia, que vinha a cavalo... e a galope. É uma relação diferente de outra que se possa ter. Mas ser perseguido por um cavalo a galope não foi algo que me tivesse deixado traumatizado. De facto, nunca tive qualquer tipo de relação menos cordial com a polícia.

Foto: DR
«Não fazer nada é sempre boa ideia» | © DR
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