Entrevista a Bruce Willis

«Aprendo com cada filme que faço»

19 | 04 | 2018   00.06H
Bruce Willis, ícone das últimas três décadas no firmamento de Hollywood, está de regresso com o novo “Death Wish: A Vingança”, filme que estreia amanhã nas salas e prova – pela enésima vez – que velhos são os trapos.
Destak | destak@destak.pt

Bruce Willis é um verdadeiro e genuíno ícone. Talvez mesmo sem se aperceber disso. Não é que a imagem não tivesse sido cultivada. Da bonacheirice de matiné (em camisola interior de alças “espanca-esposas”), ao tom cínico que lhe paira sempre nos lábios – mesmo que esteja a gerir o mais perigoso assalto a um arranha-céus em Los Angeles –, Bruce Willis parece entender as necessidades do cinema de massas mais do que muitos outros colegas intelectuais. Não vive na Hollywood de hoje ou na dos anos 80.

Vive apenas nesse horizonte indistinto que é a miragem do ser ‘cool’, dono de uma reputação dura como qualquer solitário do Oeste. Venerado pelos grandes – Shyamalan, Tarantino, Besson... – e capaz de cortar a tela com o seu laconismo desencantado, Walter Bruce Willis podia ter-se tornado uma coisa tão plástica e passageira como uma chiclete em sola de sapato. Mas ficou. Tornou-se ícone. Desde a série Modelo e Detetive, da televisão, que mostra como se faz.

E, talvez por causa desse entendimento profundo dos tempos e dos dilemas vividos pela personagem, acabou transformado em vulto inescapável. No novo Death Wish: A Vingança – um ‘remake’ do clássico dos anos 70 estrelado por Charles Bronson –, sob a batuta-espingarda do realizador Eli Roth, Bruce encorpa o conto assustador de um pai vingativo que se transforma em herói com duas faces contraditórias. Na cidade violenta, um perfil de grande gravidade volta para animar seriamente as plateias mais sombrias.

Deixe-me ver se consigo perceber a sua relação com a lei e a justiça. Alguma vez já roubou alguma coisa? Falo agora dos anos do crescimento, da infância e adolescência…

Bom, sabe...? Ainda estou a crescer (risos). Mas, apesar disso, não me lembro de alguma vez ter roubado uma coisa de grande valor.

Mesmo quando era miúdo?

Rebuçados. Ok, pronto, vou imaginar que sim, que já roubei uns chocolates aqui e ali. Mas não sei se isso conta para o que estamos aqui a discutir. Seja como for, é verdade que já roubei uns quantos doces a bebés. (risos) Não! Estou a brincar.

Que relação tem com a música? Ouve determinado tipo de composições para se mentalizar antes de fazer uma cena?

Depende do filme. Lembro-me de, de vez em quando, utilizar a música para me preparar quando chegava o momento de fazer um certo tipo de cenas. Cenas perturbantes. Cenas emocionais. No cinema, a música é sempre fundamental. Seria uma experiência completamente diferente ver um filme sem música.

E, longe do local de trabalho, entrega-se nos braços de que género musical?

Continuo a ser uma pessoa que gosta de música barulhenta. (risos) Ainda gosto muito de rock n’ rol. Gosto de música para dançar. É verdade. Adoro dançar.

Agora que já é um nadinha menos jovem e, ainda por cima, pai, que tipo de homem quer ser na presença das suas três filhas? Há homens que cultivam um lado mais sensível, outros que se julgam guardas-prisionais, etc. Mostra-se compreensivo?

Claro que quero que a minha presença e o relacionamento que mantenho com as pessoas sejam sempre pautados por laços de grande sensibilidade. Naturalmente, faço questão de continuar a ser sensível face àquilo que as minhas filhas são. Mas não sou assim só com elas. Mantenho muito cuidado e carinho no trato em geral, esteja a lidar com as minhas filhas ou com qualquer outra pessoa que viva no outro lado do planeta. No caso das minhas meninas a situação torna-se ainda mais urgente, em parte porque a primeira imagem masculina que uma bebé conhece é a imagem do pai. O modelo é o pai. Mas, a certo ponto da adolescência delas, um pai também tem de informar as filhas sobre algumas das coisas que poderão assomar à mente dos rapazes de 15 anos.

Nas suas histórias há sempre um momento de grande resolução pessoal, em que ele investe tudo, arrisca tudo. Lembra-se de, na vida real, ter havido um grande momento de viragem?

Ter filhos. Quando decidi ser pai. Foi essa a grande reviravolta que observei em toda a minha vida adulta. Sem dúvida, a decisão mais importante e consequente. Foi esse ponto da minha vida que me permitiu ser o que veio depois. Foi por causa dessa decisão que deixei de ser tão egoísta – com isso quero dizer: deixei de pensar só em mim, naquilo que eram as minhas carências e necessidades, vontades. As crianças têm uma grande vantagem: põe o mundo imediatamente no lugar. Dão perspetiva. Colocam o mundo no lugar, Hollywood, tudo. Para as crianças e na presença delas, tudo vem em segundo lugar. Do meu ponto de vista, filhas primeiro, o resto depois. Não tem nada que saber.

Ainda se lembra da faísca criativa que fez de si um ator? Qual foi o elemento mesmo decisivo?

É algo que remonta ao passado muito distante. Gaguejava muito quando era pequeno. Até que houve um momento em que percebi que, no palco, conseguia não gaguejar. Foi um instante de grande revelação. Continuei a tentar. De cada vez que subia ao palco parava de gaguejar. Saía do palco? Voltava a gaguejar. A arte dramática, o ator, é uma coisa muito estranha. Atuar é uma atividade artística baseada na expressividade. Se conseguisse pintar, era isso que faria. Se pudesse esculpir algo, seria escultor. Se conseguisse cantar, seria cantor. Se tivesse talento para escrever poesia, era isso que fazia. Representar é uma atividade que me permite exorcizar algo que exige dentro de mim. É por aqui que tiro essas coisas do corpo, à falta de outro meio para o fazer. Representar ainda é hoje, para mim, uma forma humana de representação artística. Aprendo muito com cada filme que faço. Represento sempre de maneira um nadinha diferente em cada história que conto. E ainda não desisti de evoluir no meu ofício ou de trabalhar sempre que possível. Ainda acho bastante fascinante essa atividade de transformar páginas escritas na carne e espírito de uma personagem. Que bom, poder encarnar alguém diferente, alguém que se movimenta com um andar um bocadinho diferente, alguém que tem um padrão moral diferente, alguém que pensa de outra maneira.

Foto: DR
«Aprendo com cada filme que faço» | © DR
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