Entrevista a Robert Downey Jr.

«Este filme tem uma grande sensação de transição»

25 | 04 | 2018   22.51H
Neste “Vingadores: Guerra do Infinito”, que está dividido em duas partes, o Universo da Marvel ultrapassa uma espécie de fronteira onde tudo muda. Como reconhece Robert Downey Jr., o maior protagonista do enredo galático.
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Robert Downey Jr. nasceu no berço de Hollywood mas nem isso nos poderia preparar para o vulcão de talento exibido na sua longa, brilhante carreira. Já metia as cenas todas no bolso quando era jovem, no século passado, nos tempos em que a Molly Ringwald era estrela de cinema. Depois, foi vê-lo abrir em flor.

Quando lhe foi oferecido o papel de Chaplin, com realização de Richard Attenborough, a glória tinha já sido atingida, pois só ele poderia mostrar aquela dor complicada tão metida em cada músculo afinado do seu corpo frenético. Mais recentemente - depois da ravina em que caiu com a ajuda de drogas e bebida às catadupas – o mago do entretenimento tem polido a obra maior: a dominância do império Marvel no cinema de massas.

Foi ele quem, com a ajuda de Jon Favreau, criou o primeiro Homem de Ferro. Muitos heróis mais tarde, continua a dar união à grande composição de várias peças. O mosaico Marvel no cinema? Está vivo e alegre por causa dele. O resto é História. Aparece agora num dos episódios derradeiros da série. Boas novas trazidas por este capítulo Guerra do Infinito: o apocalipse vem aí mas, graças aos deuses da Marvel Comic Universe, as forças mais distintas alinham-se contra a ameaça comum. A união da diferença faz a força.

Na cena que vimos, o Robert parece aperceber-se que o Tom Holland também viaja clandestinamente na nave espacial que os leva pelos céus. Explique-me como vai tudo. O dia de hoje seria descrito como?

O que posso dizer sobre o dia de hoje é o seguinte: temos aqui o Tom Holland, que acabou de carregar um filme de franchise como o Homem Aranha. Estamos na presença de um talento que consegue, na sua imensa verve de mágico do rock’n’roll, fazer filme de plateias. Incansável. Acabou de chegar, vindo de Montreal. No meio de tantos projetos, é o tipo de rapaz que consegue cair de para-quedas neste Vingadores e portar-se como se tivesse vivido connosco a vida inteira. É um pouco como se, juntos, estivéssemos a adaptar aquela luva à nossa mão, conjuntamente.

Importa-se de repetir? Como assim?

Por vezes sou eu que tenho de me ausentar e ir fazer outro filme. Às vezes é ele que vai passar uns dias noutra cidade, fazer umas cenas numa coisa qualquer de grande estrondo. Acho que o Tom é muito natural e instintivo. Mesmo quando só está connosco durante uns dias a fazer o filme, os irmãos Russo, os realizadores, surpreendem-no timidamente com mudanças súbitas no guião, no diálogo, na coreografia, tudo. “Sabes, Tom, não sei se estás a par mas nós só agora ultimámos os pormenores da cena que se segue”. O Tom olha para eles, pensa um bocadinho e só diz “Ah, sim, acho que vai ficar muito melhor dessa maneira!”. Ou é ele quem sugere ideias. Não hesita em mostrar como determinado momento, de grande cinema e divertimento físico, ficaria melhor. Faz-me lembrar o Jon Favreau, no início. Ou o Shane Black, no terceiro Homem de Ferro.

Que achou dos irmãos Russo, os novos realizadores responsáveis por levar a bom porto toda uma narrativa Marvel?

Para mim é como se fossem, cada um deles, o deus Atlas. Carregam uma carga enorme, descomunal, que conseguiram transformar em algo que revela colabora-ção e solidariedade, além de divertimento acessível e de qualidade. Exatamente como o dia de hoje. A nossa manhã, aqui nos estúdios, correu muito bem e divertimo-nos imenso no local de trabalho. O Tom Holland, por exemplo, não era suposto divertir-se tanto, apesar de estar a ser forçado a usar uma peruca. Sim, aquilo é um capachinho! Ninguém o denuncia mas, quando dei de caras com ele para fazer este filme, a primeira coisa que me ocorreu foi berrar “Cum caraças, mas que tipo de lontra morta levas aí na cabeça?”. Ele ainda me disse que a coisa assentava muito confortavelmente. Se calhar foi por isso que fui na piada.

Já foi autorizado a revelar como é que esta série Vingadores irá terminar?

Para já, o terceiro ato é aquilo a que os nativos americanos chamariam o grande mistério.

Percebeu como é que todas as outras personagens cabem e interagem na trama geral?

Só digo que o conjunto parece tão funcional como a assembleia-geral da ONU.

Que achou das cenas feitas com o Benedict Cumberbatch?

O Dr. Strange é muito interessante. Bastante mais tolerante do que estava à espera, como se fosse o único adulto na sala. Em relação ao Benedict, é o tipo de ator que ainda se importa com todos os pormenores, com a alegria que a série traz às plateias, com a coerência da narrativa. Só isso injeta toda uma nova energia nesta colaboração gigantesca. No nosso relacionamento laboral a minha resposta às perguntas dele era quase sempre “Hm, não te preocupes com isso”. Ao que ele respondia “Mas não seria importante decidir este ponto corretamente?”. E eu ripostava “Sim, suponho que seria fantástico fazer tudo corretamente. Mas qual é a maneira correta?”.

Houve a sensação de que este capítulo estava mesmo a fechar após uma década de segredos e revelações?

A sala onde os escritores debatem ideias é sempre muito estranha. Todos eles têm sensibilidades diferentes. Conversamos todos muito sobre a vida interior das personagens e sobre o arco da história. Podemos ver como é que os dez anos anteriores esculpiram cada um dos intervenientes, os segredos que carregam, e por aí adiante. Não é um jogo a ver quem controla mais território. Ainda há mais dois filmes dos Vingadores para mostrar. Os atores mais novos sabem que não faz sentido juntarem-se a esta equipa se ela está a perder. E, por isso, há sempre cenas novas e coisas interessantes para revelar. Acho que esta reta final dos Vingadores tem a vantagem de agregar todas as outras fábulas em que os vários heróis lutavam sozinhos, incluindo figuras vistas na série Guardiões da Galáxia. Há uma grande sensação de transição. Sinto-me todo melancólico quando isso acontece. Tanto faz que as coisas estejam a mudar para bem ou para mal. Mas será que demos as mãos à volta da fogueira a cantar o kumbayá? Não demos, nem cantámos. Mas há, isso sim, uma grande admiração pelas histórias que temos vindo a contar. Até fico com lágrimas nos olhos quando vejo as cenas na companhia do meu filho de 5 anos. Vamos lá ver o Chris Evans a fazer de Capitão América! Emocionamo-nos. Damos todos os dias de caras com momentos de grande fervor.

Foto: DR
«Este filme tem uma grande sensação de transição» | © DR
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