Entrevista a John Cena

«Não me envergonho com aquilo que sou»

10 | 05 | 2018   00.06H
Quem diria que John Cena, “deus” do wrestling, se revelaria um talentoso e hilariante ator?! Em “Os Empatas” – comédia aterradora para quem tem filhas –, a lenda do ringue prova que veio para o mundo da 7ª arte para ficar.
Destak | destak@destak.pt

Veio do universo do wrestling, aquele em que uma boa dose de destreza física se alia a uma dose ainda maior de teatralidade. Junte-se a esse trunfo uma cara bem esculpida, um corpo polido e, zás, fica à nossa frente uma das figuras mais populares do entretenimento de massas e caso raríssimo de ato circense capaz de transitar para o cinema.

Nasceu em 1977, tem sangue a pender para o transalpino, já publicou álbuns de rap e, sem hesitação, apresentou-se ao longo dos anos com os nomes artísticos mais caricatos (Prototype, Dr. of Thuganomics, entre outros).

Em suma, este homem não está aqui para manter a boa aparência, mas para divertir o povo. É isso que faz no novo filme, Blockers, sobre três figuras parentais e patéticas que tentam bloquear o despertar sexual dos filhos adolescentes. A noite do baile de finalistas aproxima-se. Tentem localizar, desde já, as saídas de emergência. Vem aí caos do grosso.

Acha que, enquanto ia fazendo este filme, começou a mudar de ideias em relação ao conceito de constituir família, ter filhos, ser pai?

Não sei se posso dizer que o filme, só por si, influenciou a minha maneira de ver as coisas em tudo aquilo que tem a ver com a ideia de constituir família. Mas lembrou-me, isso sim, dos dias da minha adolescência e de toda a rebeldia que senti nessa altura. Lembro-me que os meus pais tentaram criar limites, traçar determinadas normas de conduta – tudo coisas que eu nunca aceitei. Não tenho dúvida nenhuma que foram essas experiências de vida, face às quais os meus pais queriam proteger-me, que me trouxeram a este ponto da vida onde me encontro agora. O que o filme fez foi dar-me uma grande oportunidade para refletir sobre esses tempos. Portanto, se algum dia eu der comigo a querer ser pai, espero que estas lições me sirvam de guia quando os meus filhos começarem a insistir em viver a vida à maneira deles.

Mas não achou que a cena da cerveja ficou um bocadinho maluca demais?

Qual foi a parte dessa cena que achou totalmente maluca?

Achei que aquilo era tudo impossível de acontecer...

Não impossível. Talvez improvável.

Até que ponto extremo seria capaz de ir quando estamos a falar de filmes de comédia?

Se o exercício está a ser feito para colocar toda a gente a rir… Ou, melhor, deixe-me dizer isto de outra maneira: se o objetivo daquilo a que nos propusemos fazer é o de entreter um determinado público, vai ser sempre preciso traçar limites. Cada pessoa terá que aferir quais as situações que criam desconforto. Pessoalmente, essa foi uma lição que tive de aprender da maneira mais dura. Sou apenas parte de uma relação, de um casal. Uma relação maravilhosa. Não sou apenas eu, sozinho. Devo pensar na outra pessoa. Mas se fosse só eu, não acredito que houvesse grandes limites. Não sou pessoa para me envergonhar com aquilo que faço ou com aquilo que sou. Nunca tenho problemas em olhar-me no espelho. Sim, há momentos em que tenho de levar em conta que a minha companheira, a Nicole, pode sentir-se melindrada com algum comportamento que eu apresento no ecrã – como é o caso de, por exemplo, engolir cerveja pelo rabo. Ou andar totalmente despido nas cenas finais do filme.

Por falar em comportamentos: que tem hoje vestido? E o calçado vem com que marca?

Geralmente ando vestido com aquilo que mando fazer no alfaiate. O que temos aqui é um mero conjunto de calça e casaco desportivo. Se bem me lembro, a gravata é Louis Vuitton. E os sapatos são Berluti.

Sei que anda a aprender mandarim. Já consegue ter conversas sobre temas complicados?

Ando a aprender já há quatro anos, tenho um tutor e, sim, consigo ter certos tipos de conversas. Mas também é difícil manter o que aprendi porque não há disponíveis muitos programas de televisão ou filmes em mandarim, na vida que levo, no sítio em que vivo. Ultimamente tenho levado uma vida cheia a alta velocidade. Se calhar deveria voltar a ver os filmes do Jackie Chan.

Esses são em cantonês… E tenho a certeza que o seu mandarim é melhor que o dele…

Não tenho bem certeza disso. Mas espero vir a descobrir.

Talvez por causa da sua moldura musculada e do seu profissionalismo atlético vindo do wrestling, há todo um halo e arcaboiço macho que o rodeia. Esta comédia, contudo, é dirigida por uma mulher. Como se dá quando é a sensibilidade feminina que se senta na torre de controlo?

Será a primeira vez que sou dirigido por uma mulher? Sim. Não. Talvez. A Tina Fey não realizou o filme Sisters, é verdade, mas teve uma presença muito ativa e constante durante a rodagem. Aconteceu o mesmo no Trainwreck. A Amy Schumer não era a realizadora mas, naturalmente, assumiu uma voz ativa durante a produção. Ou seja, confirmo que esta é a primeira vez que uma mulher se sentou na cadeira da realizadora. Foi a primeira vez que uma voz feminina dizia “Action!”. Mas também é verdade que tenho tido uma sorte imensa. Em três frentes. Estas três mulheres são todas absolutamente hilariantes. São todas inacreditavelmente talentosas. E sabem o que estão a fazer.

Qual é a mensagem que o público deveria levar para casa depois de ver uma comédia destas, apinhada de momentos chocantes?

Espero que as pessoas compreendam que, no meio da comédia e da loucura, há ali um coração a pulsar. Gosto do arco da história, em que os pais são apresentados como educadores para, mais tarde, passarem a ser aqueles que precisavam de ser educados. Pode parecer que há ali muita coisa que depende dos emojis e dos impulsos adolescentes. Até percebermos que a vida de um adolescente é isso mesmo: a vida a ser vivida no seu pleno.

Foto: DR
«Não me envergonho com aquilo que sou» | © DR
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