A bonita homenagem a Zé Pedro

30 | 06 | 2018   00.08H

Os The Killers foram uns excelentes cabeças de cartaz e os James mostraram toda a sua empatia com o público português, desfiando uma lista bem composta de clássicos. Mas é incontornável assumir que os Xutos&Pontapés eram a grande atração deste 3.º dia de Rock in Rio, com a homenagem a Zé Pedro.

A melhor prova é que estiveram na Bela Vista as três maiores figuras de Estado. O primeiro-ministro, que teve dois dias difíceis no Conselho Europeu em Bruxelas, chegou atrasado, mas mais do que a tempo de ser uma das dezenas de pessoas que subiram ao palco para cantar “A Minha Casinha”.

O momento fechou o concerto, mas é inevitável falar da atuação a partir desse fim. O momento de comunhão entre a banda, os seus familiares (com a viúva de Zé Pedro, Cristina Avides, a merecer uma atenção de todos, nomeadamente do Presidente da República) e figuras dos vários quadrantes foi o maior elogio que se poderia ter feito a alguém que, como Zé Pedro, sempre privilegiou o diálogo e as relações humanas como a forma de tornar o mundo num local melhor.

Era o músico dos afetos, e teve o reconhecimento público que merecia muito por ação do Presidente dos afetos. Marcelo Rebelo de Sousa bateu a perna ao ritmo das canções, trauteou muitos refrões, mas no momento da homenagem retraiu-se o mais que pôde. Afinal a estrela não era ele. Mas Tim fez questão de destacar o seu papel no que se estava a passar: perdurar na memória alguém que, além do contributo enorme para a música portuguesa, sempre procurou contribuir para o bem da sociedade.

Um pouco a filosofia que esteve na génese do Rock in Rio, festival que na sua edição lisboeta teve sempre presente os Xutos, daí que este fosse o local perfeito para a justa homenagem. Pena que o dia, uma sexta-feira de trabalho, e a chuva tenham impedido que a Bela Vista estivesse a abarrotar, como certamente se esperaria.

Quanto à música, cada pessoa certamente reagirá de forma diferente a uns Xutos que perderam o fundador. É incontornável dizer que não soa da mesma forma, mas a banda - e achamos nós que acertadamente - também não teve a preocupação de disfarçar a inevitabilidade. Fez novos arranjos - “Homem do Leme” é o melhor exemplo - e deu um cheirinho do que aí vem no novo álbum (“Duro”).

“Mar de Outono”, uma das músicas novas, foi o pretexto para nos ecrãs passarem imagens de Zé Pedro com os colegas de banda ao longo de quase quatro décadas. E outro momento daqueles de arrepiar todos os pelos do corpo foi quando “Para ti Maria” foi tocado em conjunto com Zé Pedro, que surgiu nos ecrãs em imagens gravadas aquando dos míticos concertos no Restelo, em 1988.

Um fim de tarde para não mais esquecer e nem o céu ficou indiferente: sempre que Zé Pedro foi evocado, as nuvens descarregaram a sua mágoa.

João Moniz | jmoniz@destak.pt
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