Rock in Rio

Arraso no feminino para fechar

01 | 07 | 2018   02.50H
Katy Perry e Jessie J deram dois espetáculos em extremos opostos, mas as duas cativaram quem esteve na Bela Vista
João Moniz | jmoniz@destak.pt

Empoderamento: Acto ou efeito de dar ou adquirir poder ou mais poder. É assim que o Priberam define o vocábulo, mas Katy Perry e Jessie J passaram das palavras aos atos e, cada uma ao seu jeito, mostraram como a ideia antiga de que as artistas mulheres são menos cativantes do que os homens é isso mesmo: uma ideia ultrapassada.

Comecemos por Katy Perry, a cabeça de cartaz da última noite de Rock in Rio. A artista norte-americana, perdoem-nos os fãs, nunca se destacou pela superior qualidade da voz. Mas compensa, e muito, com tudo o resto, leia-se uma cenografia de topo.

O espetáculo na Bela Vista, o último na tour e ainda que não um concerto a solo, proporcionou um banquete aos sentidos de quem lá esteve - algo que não é percetível pela tv, uma vez que há um constante videomapping e jogo de luzes que hipnotiza o espetador, numa realidade alternativa que escapa às câmaras.

E depois há tudo o resto: bailarinos com figurinos adaptados a cada tema, figurantes que enchem o palco, e depois uma musicalidade fortemente marcada pelos coros e pelo baixo. A preparação perfeita para que Perry não se faça notar pela voz mas pelo que faz melhor: envolver-se com o público, cativá-lo. Assim o fez quando relembrou que tem o "mesmo sangue" dos portugueses (o bisavô é dos Açores), quando procurou falar corretamente a língua ou quando lamentou a derrota da Seleção Nacional dizendo que "estamos deprimidos" (a conjugação do verbo faz uma enorme diferença).

Para os púdicos, uma atuação como a de Perry não enche as medidas (até pelas constantes interrupções para trocar de roupa), mas não eram esses que estavam na Bela Vista. Ainda assim, e apesar dos problemas técnicos que não deixaram ouvir os primeiros versos de "Chained to the Rhythm", o alinhamento resultou na perfeição.

Uma enxurrada de êxitos (os mais antigos como "Teenage Dream", "Hot n Cold", que ontem foi "Quente e Frio", "Cali Gurls" e "I Kissed a Girl") para começar, algumas músicas de menor sucesso pelo meio e um fim de arrasar com "Swish Swish", "Roar" e a inevitável "Firework".

Jessie J, que atuou antes e foi trocar de roupa a correr para assistir ao espetáculo de Perry, foi outra coisa. Sem corpo de baile, apenas um coração como decoração e um jogo de luzes quase básico. Banda e voz, um assombro de voz. E além de cantar como poucas artistas fazem atualmente, Jessie J também a usa para passar mensagens positivas.

Mais do que apelos à autoestima, a britânica deu o exemplo, quando foi paciente com um fã: em plena passadeira, começou por adaptar uma letra para dizer "não me magoes o braço" a um rapaz que tentava agarrá-la; depois o inesperado: "fica calmo, estou mesmo aqui" e deu-lhe um abraço sentido.

A cena serve para descrever como Jessie J está na música, logo como são os seus concertos, nomeadamente o deste sábado: uma alma enorme constante, sem artifícios, de uma crueza e transparência que é absolutamente tocante. Uma tendência que sai aprimorada com um alinhamento inteligente, com direito a partes acústicas e tudo, mas sem esquecer o power que lhe trouxe fama, com canções como "Domino", "Bang Bang" e "Price Tag".

Pelo que vimos, e apesar do anti-clímax que foi a eliminação da Seleção Nacional, ninguém saiu defraudado da Bela Vista.

PS- a afirmação anterior só não será verdadeira para quem foi ao Rock in Rio ver Karetus - a banda cancelou o espetáculo por não concordar com a mudança de horário por causa de um jogo de futebol.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE