Entrevista a Ethan Hawke

«A minha igreja preferida é o cinema»

12 | 07 | 2018   00.08H
Ícone incontonável dos anos 90 do século XX, Ethan Hawke sempre se centrou no seu ofício, deixando de lado o glamour efémero. Agora surge de forma fulgurante num dos papéis da sua vida em “No Coração da Escuridão”.
Destak | destak@destak.pt

Ethan Hawke poderá estar a passar, neste momento, por uma espécie de renascença. Tem tantos filmes na calha, seja como ator ou como realizador. A carreira dele, como se sabe, nunca subiu aos cumes da fama que vemos nalguns dos seus colegas. Nunca, como Leonardo di Caprio, foi considerado uma grande estrela que já vinha trabalhando desde criança. Nunca, como Ben Affleck, conseguiu triunfar na realização ou nos Óscares. Nunca, como Tom Cruise ou Matt Damon, logrou transitar para a adoração geral que vem naturalmente com os filmes de ação feitos com orçamentos gigantescos.

Parece que Ethan Hawke tem preferido passar debaixo do radar. Depois de ter sido descoberto para o mundo com "O Clube dos Poetas Mortos", apareceu adulto numa série de obras memoráveis. Fez de rebelde patusco no "Reality Bites", namorou a Julie Delpy na série de viagens que começou com o "Before Sunrise", participou com Richard LIinklater na maratona "Boyhood", e fulminou o ecrã ao lado de Denzel Washington em "Training Day". Não quer sobressair. Quer apenas fazer parte de contos que nos digam alguma coisa.

Esta semana, pelas mãos sempre complexas do realizador e argumentista Paul Schrader – o mesmo que escreveu "Taxi Driver" e outros clássicos sagrados – o ator aparece agora a fazer de líder espiritual numa cidadezinha perdida no mapa. Segue-se um percurso dorido que tem tanto de inquietação como de redenção moral. Dá a ideia que gosta de trilhar a linha fina separando o milagre da felicidade e a tragédia que é fazer parte da humanidade.

É uma pessoa religiosa?

A religiosidade acaba por ser um conceito bastante esquisito porque, quando vamos a ver bem que ligação existe entre ele e cada pessoa em particular, as impressões variam. Há gente que olha para as diferentes práticas religiosas no mundo e vê apenas aspetos positivos. Outras pessoas, pelo contrário, darão ao termo uma conotação mais negativa. A minha igreja preferida continua a ser o cinema, a arte, o teatro, o rock n’roll. Por outro lado, se eu disser que não sou religioso as pessoas vão pensar que não estou interessado em saber o porquê do meu nascimento ou o que acontece à totalidade do meu ser quando chegar o meu momento da morte. A verdade _é que temas dessa natureza interessam-me imenso.

Mas, então, que relação tem com o mundo da religião e da espiritualidade? Alguma vez quis ir para padre ou percorrer o globo para anunciar a chamada palavra de deus?

O sonho da minha avó era que eu fosse para um seminário. Aliás, ela sempre achou que esta minha profissão de ator era uma espécie de causa perdida. A seu ver, o meu verdadeiro dom só poderia despontar e ver a luz do dia se eu me tornasse padre. Portanto, quanto a chamamentos vindos do além, nunca passei dessa fase – havia o desejo da minha avó e nada mais. Mas, felizmente, nesta profissão temos a possibilidade de explorar por dentro certos universos que nos são desconhecidas. Neste momento o que sinto é isto: acho muito estranho não ter feitos mais papéis de padre ao longo da minha carreira. Já fiz várias vezes de polícia, o que, só por si, diz imenso sobre o universo em que trabalho e vivo. O facto é que, dos 50 filmes que fiz, só num deles apareço como homem sobretudo espiritual. O cinema não dramatiza suficientemente esta profissão. Fiquei muito contente quando me ofereceram este trabalho. O guião reflete questões que me tenho colocado ao longo da vida.

Um padre será um indivíduo, à partida, que tem de ter sempre uma grande capacidade de entendimento, compreensão. Tem de saber ouvir, essa arte quase extinta. Como viu esse lado do guião?

No cinema, a capacidade de ouvir só com alguma dificuldade passa para o ecrã. Esse registo é difícil de substanciar em imagens. Mas uma das coisas mais maravilhosas deste filme é o texto escrito pelo [realizador] Paul Schrader. Sombrio, sossegado, quase que parte do princípio que o público vai ter essa possibilidade de escutar e estar atento aos subentendidos. O esforço do realizador não parece centrar-se na ideia de entreter o espetador mas, mesmo assim, o espetador sente-se entretido e levado pela história. Acho que esta história deve muito a filmes como Luz de Inverno do Bergman e o Diário de Um Pároco de Aldeia, de Robert Bresson, ambos bastante vagarosos se comparados com o ritmo do cinema atual mas, mesmo assim, cheios de grandes ideias que levam a público a interessar-se pelo que acontece ali.

Gosto daquela igreja do filme. Num país tão novo que tem uma relação tumultuosa com o seu próprio passado, aquele edifício tem histórias para contar. Como viu esse lado da fé?

Aquele edifício tem ligações muito concretas e diretas a momentos fulcrais da nossa História. Por ali passaram os escravos, procurando refúgio quando fugiam para o norte. Por ali passam alguns dos debates mais prementes da nossa atualidade. Por ali passam as crises do passado e do presente. É uma igreja que está fortemente ligada à História do país. Teve não só um papel na abolição da escravatura mas, também, é uma instituição que se vê diante um dos problemas maiores da nossa vida, o da proteção ambiental. Ora aí está um tema – o papel da Igreja na maneira como interagimos com a Terra e natureza – que eu nunca tinha visto no cinema. Deu-me muito que pensar.

É da opinião que a Igreja, uma vez que parece viabilizar certos candidatos políticos, também deveria assumir uma voz mais ativa na proteção ambiental?

Acho, pelo menos, que a Igreja perde uma oportunidade de ouro se não começar a fazer alguma coisa nesse sentido. O que todos nós sabemos é que, neste domínio, há uma grande falta de liderança. O ser humano precisa, a toda a hora e qualquer que seja a circunstância, de líderes. Andamos sempre à procura de alguém ou de alguma coisa que nos mostre a maneira de nos transformarmos numa versão melhorada daquilo que já somos. De facto, é aí que a Igreja tem operado, nessa tentativa de oferecer um sentido, apresentar linhas mestras, parâmetros éticos. Durante muito tempo coube à comunidade religiosa o dever de nos dar contexto neste exercício em que nos tratamos por irmãos e irmãs, quando é preciso olhar para além do mero interesse pessoal. Mas o que noto é que há uma ausência de diálogo dentro da Igreja sobre este assunto, talvez porque o problema ecológico se tornou de tal modo enorme, insustentável. Mas se a comunidade religiosa pegar nas rédeas da mudança e chamar a si a responsabilidade de nos guiar nesta relação que temos com o planeta, isso sim, seria um feito realmente significativo. É um espaço em que a Igreja pode concretizar algo de concreto. O Papa, por exemplo, tem tentado mudar esse estado de coisas.

Foto: DR
«A minha igreja preferida é o cinema» | © DR
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