Entrevista a Denzel Washington

«Continuo a não ter um Van Gogh»

19 | 07 | 2018   00.04H
Autêntica lenda viva da atual 7ª Arte norte-americana e ícone das artes afro-americanas, Denzel Washington volta a encarnar o implacável Robert McCall em “The Equalizer 2 - A Vingança”, a primeira sequela na carreira do ator.
Destak | destak@destak.pt

No início, quando os avanços sociais e tecnológicos fizeram dos EUA coqueluche do universo pós-guerra, o cinema de massas só tinha uma estrela de cinema de raça negra: Sidney Poitier. E depois dele, quem tivemos nós que nos desse perspetiva sobre o outro lado da vida? Denzel Washington.

Nascido num subúrbio de Nova Iorque habitado maioritariamente pela classe desfavorecida afrodescendente, Denzel Washington conseguiu sobreviver às ruas mais perigosas para se tornar num autêntico rochedo do drama americano. Já fez de Malcolm X e, no Filadélfia, de advogado improvável numa era de ódio entre famílias. Já fez de herói urbano, de soldado, de Othello, de polícia, de pai, de condutor de metro e de criminoso ou rei das drogas. Só lhe interessa a verdade da condição diária.

No novo The Equalizer 2 - A Vingança, realizado por Antoine Fuqua – o mesmo que possibilitou ao grande Denzel o Óscar ganho pelo Training Day –, o mestre da transformação enlouquecida mostra a raiva urgente que os nossos tempos exigem.

Que relação tem com o dinheiro, mais concretamente com uma grande quantidade de dinheiro? Há algum presente caro que queira oferecer, ou algum bem que sempre quis para si?

Lembro-me de, por escolha própria, ter frequentado umas aulas de arte quando era miúdo. Eu tinha para aí uns 10 ou 11 anos. Nunca mais me vou esquecer do que vi: os impressionistas, os realistas, os surrealistas, de Dalí a Modigliani, passando por Van Gogh, que sempre foi um dos meus prediletos. Nunca me vou esquecer. Lembro-me de pensar: quando tiver um dinheirinho só meu, uns tostões, vou ter de comprar um Van Gogh. O meu sonho sempre foi esse. Ainda hoje sou colecionador de arte. Claro que não tenho meios para comprar um Van Gogh, mas o sonho continua vivo.

Sei que é pai de filhos crescidos. E sei que as antigas cortesias sociais são agora vistas com suspeita. Parece que as pessoas têm medo de se tocar. Há uma certa afabilidade física que agora é tida como possível assédio ou abuso. Como vê a nova dinâmica social e o novo civismo?

Espero que o civismo de antigamente ainda não tenha acabado. Do ponto de vista dos meus filhos, acho que eles estão a fazer um trabalho tremendo. Usam com frequência as expressões mais formais do tipo “Não, senhor” ou “Sim, senhora”. Quando se referem a estranhos dizem “Senhoras e senhores” ou “Damas e Cavalheiros”.

Mas não acha que, com as novas movimentações mais firmes nos meios feministas, há todo um tipo de comportamentos predatórios que vieram à superfície e que deixaram de ser tolerados?

Sim, é claro que tudo aquilo que antes se mantinha nas trevas irá, mais tarde ou mais cedo, vir à luz. No contexto de algumas relações, sociais ou laborais, é verdade que temos assistido a muita clarificação e transparência onde antes só havia segredo e escuridão. Mas, voltando à nova maneira com que as pessoas se relacionam _no dia-a-dia, aquilo que lhe posso dizer é isto: parece que, recentemente, o mundo foi invadido por um espírito maldoso e mesquinho. Acho que isso também terá a ver com os avanços tecnológicos. De repente, com as novas formas de comunicação social digital, é como se as pessoas pudessem agora ficar escondidas em casa a espalhar todo o tipo de informação falsa e a atirar insultos. Naturalmente, estamos todos a sentir que há cada vez mais divisões, mais posições radicais, mais fúria e intolerância.

Mas estava consciente de _que, tanto em Hollywood como em muitos outros sectores da economia e das artes, os ataques sexuais eram constantes? E como é que reagiu ao escândalo?

É por aí que quero ir. Mais tarde ou mais cedo, a luz desponta nas trevas. No caso daquilo que fala, foi feita luz. Repare numa verdade muito simples: todos nós fomos dotados de livre arbítrio. É isso que nos torna diferentes de todos os outros animais que vivem neste planeta. A nossa cabeça foi dotada de liberdade. O que me parece é que, nos dias acelerados que atravessamos e com a proliferação de pedaços de informação que nos aparecem à frente com uma frequência nunca vista, é como se esse nosso sentido inato da livre vontade tivesse perdido todo o controlo racional e humano. Mas continuamos a ser livres de escolher a direção do nosso próprio comportamento Ainda podemos escolher entre ter um impacto positivo ou negativo. É nisso que devemos colocar toda a nossa atenção. É fundamental decidir para onde vamos, _decidir isso como cidadãos, como _país, como mundo e planeta.

Alguma vez falhou terrivelmente no trabalho ou nos estudos, ao ponto de ver a sua direção mudar para uma área diametralmente oposta ao que tinha em mente?

Chumbaram-me na faculdade. Isso também conta, não conta? Quando digo que me chumbaram, o que aconteceu foi isto: mandaram-me para casa durante um semestre. Quando voltei, quando tive de me matricular outra vez e escolher disciplinas novas, decidi ter aulas de arte dramática. Portanto, sim, fiz aquela escolha e, mais tarde ou mais cedo, a minha vida ficou alterada para sempre. No outono de 1974 as minhas notas na faculdade eram só negativas. No outono de 1975 estava no palco a fazer a peça de Eugene O’Neill, The Emperor Jones. Suponho que sem aquele falhanço inicial não estaria hoje aqui.

Mas, durante as primeiras fases do crescimento, às vezes uma pessoa tem de entrar em compromissos de maneira a poder ter futuro. Alguma vez sentiu que tinha feito escolhas desastrosas, por paixão, por dinheiro...?

Geralmente uma pessoa não se _apercebe disso até muito mais tarde. É na reflexão que nos damos conta desse cruzamentos ou bifurcações. Por isso se diz, quando falamos de _sabedoria: “É uma pessoa de grande experiência”. Não há testemunho sem haver, primeiro, um teste. _A vida está cheia desses momentos de que fala. Às vezes uma pessoa _tem de passar por fase dessas. _Há coisas que uma pessoa quer aos _20 anos mas que detesta aos 30. _Nesta idade que tenho agora só me ocorrem as palavras que a minha mãe me dizia: “Keep it simple, Denzel. Keep it simple”. Demorei 40 anos _a compreender o que ela queria dizer. É preciso deixar para trás, como uma película que se descasca, aquilo que _já não faz parte da nossa vida. Há _um ponto em que um homem começa a simplificar. Já houve um tempo em que queria ser o melhor do mundo, _o melhor ator do mundo. Hoje acho que é minha obrigação ser a melhor pessoa que me é possível ser. _E gosto de ajudar os outros a serem _o melhor que podem ser. Sim, tenho registado algum sucesso na vida. _Mas continuo a não ter um Van Gogh.

Foto: © Destak
«Continuo a não ter um Van Gogh» | © © Destak
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE