Entrevista a Spike Lee

«O código moral desta história é muito sério»

05 | 09 | 2018   22.54H
Lenda viva da 7ª Arte afro-americana e nome maior do cinema “Made in USA”, Spike Lee está de volta e, como sempre, pretende agitar as águas: com o novo e aclamado “BlacKkKlansman” o cineasta regressa à boa forma.
Destak | destak@destak.pt

Nasceu em 1957. Peixes. Mudou para sempre, quando irrompeu em cena nos finais de 1980 com os clássicos She’s Gotta Have It e Do The Right Thing, a maneira como todo o cinema americano passou a retratar a minoria negra, essa parte vital da América e de todos nós. Desde essa altura que, autor, tem insistido num estilo penetrante, de volume no máximo, com as doses necessárias de grito e grafismo, panfleto, protesto e ultraje. A sua nova obra magna aparece numa época em que a Casa Branca tem um ocupante incapaz de se insurgir enquanto os neonazis de Charlottesville vão cortando o país com fachos acesos. Bónus especial: este vibrante e inacreditável conto de terror e comédia chamado BlackkKlansman tem, como é hábito na obra de Spike Lee, apresenta grandes trabalhos dramáticos, guarda--roupa, música, nervo e graça, tudo entregue sem discurso moralista ou martelada ideológica, apesar de a mensagem ser absolutamente pertinente. O mestre está de volta, sem dar tréguas e sem aceitar o cliché do discurso oficial. Bem haja.

Explique: como conseguiu fazer um filme que equilibra tão bem a mensagem política com a necessidade de entreter a plateia?

Ainda bem que o filme, como peça de entretenimento, consegue fazer isso mesmo: divertir uma plateia. Mas note igualmente que nem tudo neste filme é feito para, simplesmente, divertir pessoas que se sentem aborrecidas. O código moral que a história encerra é muito sério. Não é a primeira vez que faço as coisas assim. O mesmo já acontecera com Do The Right Thing – o que temos ali é uma história de grande gravidade e que termina, como se lembrará, com o estrangulamento mortal de Radio Raheem às mãos da polícia de Nova Iorque. Mesmo no caso de alguns dos filmes que são agora considerados clássicos, como é o caso do A Laranja Mecânica, do Stanley Kubrick, tinham uma grande componente cómica apesar de o tema de fundo ser o fim de mundo tal como ele tem existido até agora. Mesmo um dos seus atores prediletos, o Peter Sellers, caminhou sempre ao longo desse precipício que separa a comédia dos temas de grande gravidade social e moral. Este tipo de exercício é realmente uma grande acrobacia.

Se o presidente Trump visse este filme, como acha que reagiria?

Boa pergunta, até porque desde o início do cinema que a Casa Branca tem organizado vários visionamentos de filmes. O grande clássico Birth of a Nation, do realizador D. W. Griffith, foi projetado numa das salas da Casa Branca durante o mandato de Woodrow Wilson – e, como se sabe, a grande citação que saiu desse momento foi quando o presidente disse que aquele filme equivalia a «escrever as linhas da História com a luz de um relâmpago». Mas não sei se o Trump se vai mostrar disponível para ver este filme. Devia ver. Ele e todos os que o rodeiam.

Mas a história é verídica? Parece, de fio a pavio, uma comédia…

Um livro a contar tudo acabou de ser reeditado. Também pode confirmar tudo através das declarações proferidas pelo próprio grão-duque e mestre do Ku Klux Klan, David Duke.

Tudo aquilo foi dito assim? Aquelas coisas sobre a superioridade e inferioridade das raças, sobre a origem e etnia?

Tudo verdade. Fatual.

Acha que ultimamente temos aprendido algumas coisas sobre essa ideia de sermos todos um bocadinho mais sensíveis quando nos movemos na esfera social, mais politicamente corretos, etc?

Sim, mas isso só é verdade na esfera pública. O que se diz em casa, com a porta fechada, aí já não sei se a sua pressuposição se mantém válida.

A equipa de filmagem, incluindo alguns dos atores, são brancos. Ou asiáticos. Ou negros. Seja o que for. Notou que tivesse havido momentos de grande desconforto e tensão durante a produção?

Desconforto? Não. Eu senti-me perfeitamente confortável. Os atores brancos tiveram problemas em dizer a palavra que começa com “N”. Tive de lhes dizer que não eram eles a dizer a palavra. Eram a personagem. Não foi a primeira vez que encontrei essa situação. Ainda me lembro das conversas que tive com o John Turturro durante as filmagens do Do The Right Thing. Um dia – naquela altura ele tinha passe do metro – chegou-se ao pé de mim todo contente a dizer «Spike, eu andei de metro toda a minha vida. Mas, um dia, o filme estreou e agora até os pretos gosta de mim! Os pretos adoram-me!» (risos). Mas é isso mesmo. Este tipo de ambientes e conversas surgem com frequência quando trabalhamos nesta profissão. O Robert de Niro também não teve medo que viesse a ser odiado quando fez de Travis Bickle no Taxi Driver. O papel era isso mesmo que lhe exigia. No meu filme o Topher Grace tem por dever recriar uma pessoa odiosa, David Duke. Não podemos estar aqui preocupados com aquilo que as pessoas poderão, ou não, dizer. Ali, o dever do ator é criar uma personagem desprezível, odiosa, detestável.

Os atores dizem sempre que não estão ali para fazer juízos de valor, que estão ali só para contar a verdade…

Nem todos os atores dizem isso.

Acha que o filme poderá informar e refazer o diálogo corrente?

Informar? O meu filme? Não. De todo. Eu, por exemplo, não precisei deste filme para me informar sobre a quantidade e proliferação de grupos dedicados ao ódio racial, grupos que todos nós sabemos que existem nos Estados Unidos. Não preciso ser informado disso porque cresci nos Estados Unidos. Ou seja, tenho passado toda a minha vida a ver o meu povo a ser retratado como uma raça diferente. Desde que sou criança que convivo com essas imagens, essa representação. A maneira como nós somos vistos. A maneira como os índios são vistos. Os hispânicos. Tenho sido informado sobre tudo isso desde que era apenas um miúdo no bairro de Brooklyn. Estamos agora em 2018.

Quando achou que era necessário voltar ao cinema de mensagem, protesto, confronto?

Nada aqui é novo. Desde o meu primeiro filme que faço isto. O The Answer, que fiz em 1980 quando frequentei a escola de cinema da Universidade de Nova Iorque, era sobre um guionista jovem, negro, a quem é oferecida a quantia de 50 mil dólares para rescrever e realizar uma nova versão do Birth of a Nation. Sim, logo no meu primeiro filme comecei a falar desse assunto. Nesse aspeto, nada aqui é novo.

Foto: DR
«O código moral desta história é muito sério» | © DR
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