Entrevista a Jennifer Garner

«A Riley decide fazer justiça de outra forma»

26 | 09 | 2018   22.54H
Quando a atualidade é regularmente marcada pelo movimento #MeToo e pela luta das mulheres por justiça e respeito, eis “Peppermint”, um filme explosivo protagonizado por Jennifer Garner que põe os pontos no i’s.
Destak | destak@destak.pt

Se pensam que o mundo de Jennifer Garner é assim como ela o apresenta, acreditem. Sim, é verdade que aparece quase sempre impecável e sensata, que a imagem bem polida tem ares plausíveis de vizinha acessível num qualquer subúrbio relvado, que o seu tom de baunilha-americana mostra dela uma faceta prazenteira. Tudo isso é, de caras, inegável. Mas não pensem que, por trás da silhueta dela, é tudo um mar de rosas.

Para começar, não é por acaso que ela se encontra aqui à nossa frente, neste seu palco do estrelato. Não foi meramente descoberta em cafetaria de esquina ou em passagem de moda. Desde criança que faz teatro, que insiste em montar palco em tudo que é festa de anos e em ser ela a fazer rir os outros com a sua boca pintada de palhaço. Quando se tornou famosa, com a série televisiva Alias, o formato televisivo era antigo, quer dizer, havia que fazer 23 episódios por ano, as resmas de guião surgiam às catadupas e as necessárias acrobacias físicas eram intermináveis.

Depois, quando a sua arte e labor foram bastante eclipsados pelo casamento com o oscarizado e garanhão Ben Affleck, o mar de rosas dela adquiriu tendência para murchar. Se a virem nos tabloídes a socorrer o marido de mais uma maratona de uísque quando ele devia era estar na clínica de reabilitação, ficam com uma ideia do que a vida dela também é.

O resto do tempo? Foge com os filhos dos fotógrafos que, rosnando, a rodeiam. Mulher de armas e beleza alada das guerras olímpicas, não se intimida nunca. No novo Peppermint vai outra vez à luta. Um dia vai poder descansar mas, por enquanto, vamos conhecer esta força da natureza feminina.

Os seus filhos estão agora mais crescidos. Ficou mais livre para, por exemplo, dar asas à sua carreira no cinema?

Acaba por não ser tão simples quanto isso. Uma pessoa pensa sempre que, se as crianças já não são bebés, a mãe fica com mais tempo para se dedicar ao trabalho, ao emprego. A realidade é um bocado mais complicada porque, se falamos dos meus filhos, o que vai fazer 12 anos precisa cada vez mais de mim; e o que vai agora 9 anos também sente uma necessidade enorme de companhia. Por outro lado, sinto que eles estão a amadurecer e a ficar um bocadinho mais autónomos. Seja como for, passei os últimos dois ou três anos afastada do público e meio fechada na nossa rotina, em casa a fazer sanduiches e a preparar lanches para a escola. Uma correria que até me agradou. Fiquei feliz por me ter dedicado a essas obrigações. Também foi uma época que me permitiu esticar os músculos, pensar no que é importante, preparar-me para regressar ao trabalho. Agora, voltei. E os meus filhos estão excitadíssimos com os meus projetos, percebem que o meu trabalho é importante para mim, estão a par do que se passa.

Mesmo sem ter acesso aos pormenores da sua vida privada dá para entender que a sua capacidade de organização é sobrenatural. Qual é a chave do sucesso?

Oh meu Deus, acho que só consigo fazer tudo porque tenho montes de informação no meu telemóvel. E no computador. Todas as horas são pré-organizadas. Escrevo tudo num papel. Ou seja, o horário vigente aparece-me no computador e também tenho os pormenores numa folha de papel. Estou atenta em duas frentes. Além disso, tenho assistentes que me lembram o que devo fazer e que me perguntam se já considerei todos os ângulos da minha rotina. Acho que, qualquer que seja o dia, confirmamos e voltamos a confirmar o plano umas 50 vezes. Ou mais. É muito engraçado.

Qual foi a última peça de arte que a sensibilizou e emocionou? Pode ser um texto, música, pintura, cerâmica, o que for. Refiro-me agora a um grande momento em que tenha sentido uma enorme torrente emocional.

Sim, um dos salmos cantados na igreja. Quando é que foi? Que dia é hoje? Segunda-feira? Pois, foi ontem que senti isso. O título era Nas Asas da Águia. A letra era mais ou menos assim: «O Senhor criar-te-á nas asas de uma águia celeste, capaz de irromper da noite e escuridão, a luz será tua para que brilhes no que fizeste, para que Ele te tenha enfim na palma de Sua mão”.

Ir à missa é algo que vê como vital na sua rotina semanal?

Não vou dizer que sou dogmática mas acho que não seria exagero alegar que a minha semana é mais feliz se lhe der início com uma ida à missa. É algo que me liga à infância. Por exemplo, aquela letra que referi é a favorita da minha mãe. Basta ouvir as primeiras notas e desfaço-me em lágrimas. Lembro-me de cantar aquilo tendo a minha irmã ao lado. Cantávamos juntas. Portanto, não se trata uma dessas idas à missa em que tudo se reduz a uma rotina ou a algo preordenado. É um sentimento. É uma ligação. É algo muito importante que estou a tentar deixar aos meus filhos. Além do mais, quando uma pessoa vai à igreja há sempre momentos de interação com a comunidade. Está lá toda a gente. Agora, não pense que sou fanática ou algo assim. Vou porque gosto.

Pareceu-me que este novo filme, Peppermint, parece refletir as manchetes nos jornais sobre o movimento #MeToo e o novo ativismo civil, feminista. Há uma mensagem de poder e afirmação. Pensou nisso durante as filmagens? Não quero atribuir ao filme uma mensagem que não está lá…

Lembro-me de termos comentado sobre isso, exatamente porque os acontecimentos estavam a desenvolver-se à nossa frente, em todo o lado, durante a fase das filmagens. Portanto, sim, concordo que esta história também pode servir de resposta à frustração enorme sentida pelas mulheres. Falo agora de todas as mulheres que se sentem abusadas, exploradas, ignoradas, esquecidas a um canto porque ninguém as ouve. Ora bem, no nosso filme, a minha personagem, Riley North, decide fazer justiça de outra forma.

Foto: DR
«A Riley decide fazer justiça de outra forma» | © DR
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