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António da Silva Oliveira | escritor

"Os pequenos editores têm que ser corruptos"

29 | 08 | 2009   21.53H

“Corrupto é aquilo que o [escritor] José Cardoso Pires quis dizer na sua última entrevista antes de falecer”, completou António da Silva Oliveira que participou num debate sobre o tema “Edições sem editores?”, integrado no ciclo “Cultura no Centro” que tem vindo a decorrer no centro comercial Dolce Vita, no Porto.

“É tudo economia e o capitalismo selvagem está aí”, reforçou, considerando, no entanto, que “hoje é mais possível publicar livros” do que era no passado.

António da Silva Oliveira esteve presente como responsável pela Edições Mortas, ao lado de Maria David Castro, da Fio da Palavra, e Joana Pinto Coelho e Tiago Szabo, da Ahab Edições, todos eles pequenos editores portuenses.

Num debate conduzido pelo jornalista Sérgio Almeida e presenciado por cerca de 20 pessoas, as intervenções giraram entre o discurso panfletário e até subversivo de António da Silva Oliveira, o moderado optimismo de Maria David Castro e a esperança dos responsáveis pela Ahab Edições, recém-chegados ao sector.

António da Silva Oliveira, que o escritor e também editor Valter Hugo Mãe definiu já como o “guru do underground portuga”, defendeu que “não existe indústria do livro em Portugal, o que existe é uma mistificação”.

Maria David Castro afirmou haver já, em Portugal, “edição sem editores, feita apenas por preocupações comerciais”, salientando, por outro lado, que a “edição está completamente condicionada pela distribuição”, sendo que esse condicionamento é tanto maior quanto menor são as editoras.

A responsável pela Fio da Palavra, que aposta nas Ciências Sociais, como a História, não vislumbra “nenhum tipo de ameaça” na concentração que o sector conheceu nos últimos tempos, por via, sobretudo, da entrada em cena de um novo operador, a Leya.

“Continua a haver lugar para as pequenas editoras, mas com muita dificuldade e a única hipótese que temos para sobreviver é com uma contenção de custos e com a tentativa de descobrir estratégias de edição que sejam alternativa ao modelo que existe”, sustenta.

O problema é que “hoje é muito difícil” convencer uma livraria a expôr um novo livro na sua montra. “Convencer não se convence, compra-se essa possibilidade, como se compram os “tops” de vendas”, garante Maria David Castro.

Para tal, continua, “é preciso que o editor tenha capacidade financeira para a pagar e, portanto, as pequenas editoras estão muito menos habilitadas para o fazer do que os grandes grupos”, apontou.

Joana Pinto Coelho e Tiago Szabo já se cruzaram como esse problema, tendo ela dito que ficaram a saber que “as livrarias têm espaços que valem muito dinheiro e que tudo se compra”, sendo que “os preços” disparam” durante o Natal.

Ainda assim, os responsáveis pela Ahab Edições decidiram aventurar-se neste sector, movidos por “uma grande paixão pela literatura e pelo gosto pelos livros”.

A aposta centra-se, para já, na “literatura traduzida e de referência que já passou por muitas críticas positivas”, resume Joana Pinto Coelho com a concordância do seu parceiro, ambos advogados.

Para começar, a Ahab vai lançar três livros a 22 de Outubro: “Pergunta ao pó”, do americano John Fante, “Pudor e dignidade”, do norueguês Dag Solstad, e “A ilha”, do italiano Giani Stuparich.

O sucesso comercial para uma pequena editora passa por “identificar nichos de mercado” e António da Silva Oliveira acrescentou depois que “o facto de haver Leya não prejudica a literatura, pelo contrário, cria mais nichos”.

A Edições Mortas ambiciona lançar uma obra sobre o que foi a Rádio Caos, nome sonante da época das rádios livres, e alguns “opúsculos”, propondo que “contra a selvajaria económica deve opor-se a selvajaria da cultura e da irreverência”.

Destak/Lusa | destak@destak.pt

2 comentários

  • Desculpa lá,eu não sou corrupta não.Sou apenas prostituta escritora
    Creolina Salgado - Lisboa | 30.08.2009 | 00.05Hver comentário denunciado
  • ANTÓNIO DA SILVA OLIVEIRA | ESCRITOR
    "Os pequenos editores têm que ser corruptos"
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    O escritor António da Silva Oliveira afirmou hoje, no Porto, que “os pequenos editores têm que ser selvagens e corruptos”, explicando depois à Agência Lusa, que “têm que acabar com a normalização e a domesticação”.
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    Efectivamente foi bom que a plateia só tivesse 20 pessoas, pois este Senhor Escritor não percebe, como se diz na gíria nada de Livros.
    Dizendo melhor: livros de autor, porque as pequenas editoras cobram-se da sua publicação e não é pouco; livros em que uma pequena editora aposta, mas cobra metade dos custos e recebe metade do lucro das vendas; se o livro for distribuído por uma distribuidora mais umas alcavalas; o livreiro tem uma percentagem elevada para se dar ao luxo de tratá-lo para venda; simula uns dez por cento de desconto, que lhe é oferecido pelos editores e distribuidores; se queremos mais um bom local de destaque paga 12 recebe 13 ou 14.
    Isto seria uma Livraria e um Livreiro.
    Agora há os vendedores que fazem os hipermercados. Aí as regras já são outras!
    Para não ser um "Xato" digo que desde sempre o Mercado Livreiro em Portugal foi bastante difícil para os escritores portugueses, os estrangeiros quando havia feedback as editoras iam dando trabalho aos tradutores e às rotativas e encadernadoras.
    Por isso o melhor para uma editora é o livro escolar e a mudança anual de programas.
    Só houve retórica mas prática nada. Assim não pode ser!
    123456789 | 29.08.2009 | 23.22Hver comentário denunciado
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