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Olivier Rolin

«A literatura é a memória do mundo»

05 | 11 | 2009   11.13H

Olivier Rolin, de 62 anos, actualmente um dos mais prestigiados escritores franceses e conhecido pelo seu passado de activismo político, considera que a literatura é “a memória do mundo, a memória da Humanidade”.

Ana Nunes Cordeiro, da Agência Lusa

“Se não existisse a literatura, esqueceríamos a cada geração o que se passou. Graças à literatura, podemos ser um homem ou uma mulher do século XX, ou do século XIX, eu posso ser Madame Bovary, Anna Karenina, Dom Quixote… – posso ter mil vidas!”, disse o escritor em entrevista à Lusa, a propósito da publicação em Portugal do seu mais recente romance, “Um Caçador de Leões”, que chega esta semana às livrarias numa edição da Sextante.

“Se não fosse a literatura – prosseguiu -, apenas teria a minha pequena vida. É claro que também há o cinema, também há as outras artes, mas aquela que permite multiplicar a vida assim é a literatura”.

E citou uma frase de que gosta muito, do escritor francês Paul Valéry, que dizia que se não pudesse viver mais mil vidas além da sua, não poderia viver a sua vida.

“É isso que eu penso: se não houvesse literatura, seria mais difícil para nós vivermos a nossa vida”, observou.

Além disso, acrescentou, “a literatura é o que mantém o conhecimento e o amor pela língua, e sabemos muito bem que agora as línguas estão cada vez mais esquecidas, são cada vez mais simplificadas, as pessoas utilizam um vocabulário cada vez mais reduzido”.

“Ora, é com a língua que pensamos, que reflectimos. Se temos muitas palavras e formas linguísticas e utilizarmos apenas algumas centenas ou milhares de palavras e de formulações muito simples, teremos também um pensamento muito simplista. A literatura é também aquilo que, no fundo, nos permite, através da língua, pensar. Tem uma importância enorme, mesmo que não sirva para nada. Serve para pensar, simplesmente”, defendeu.

Sobre o papel da literatura na sua vida, Rolin disse que embora não seja toda a sua vida, foi o que fez durante toda a sua vida: “É o que gosto de fazer, é o que tento fazer, é o que sei, mais ou menos, fazer, e é a única coisa. Depois, há a vida pessoal e tal, mas aquilo que me interessa fazer aqui na terra não é política, não é negócios, não é qualquer arte, é literatura. Portanto, a literatura é quase tudo na minha vida”.

E ter leitores – admitiu – é “importante, mas não é forçosamente a melhor recompensa, porque às vezes se tem muitos leitores porque se faz coisas muito más e muito fáceis. Não vou citar exemplos, mas estou a pensar num brasileiro… (Paulo Coelho)”.

Para Olivier Rolin, a maior recompensa que um escritor pode ter “é, talvez, ser reconhecido, ser amado por um outro grande artista.

“Se um grande pintor ou um outro grande escritor me dissessem que tinham achado o meu livro magnífico, creio que seria uma grande recompensa. Creio que o que mais honra um escritor é isso: era se, por exemplo, António Lobo Antunes me dissesse que gosta dos meus livros”, comentou, indicando que é um dos escritores portugueses de que gosta muito, a par de José Saramago, Lídia Jorge e José Cardoso Pires.

O autor destacou ainda outra recompensa: “a tradução, o facto de o livro existir noutra língua e para outros públicos, que não são iguais, têm outro imaginário, fazem parte de outro mundo, para mim é muito importante”.

“Prefiro ser traduzido em cinco, seis, dez línguas, ser bem traduzido, e ser lido nessas línguas, do que ser muito, muito lido em França. Se puder escolher entre as duas coisas, prefiro esta, esse prolongamento da vida do livro que dá o facto de ser traduzido para inglês, português, espanhol…”, apontou.

Falando sobre as coisas importantes da sua vida, Rolin referiu a sua curiosidade em relação ao mundo: “Viajo muito, mas não é para fazer turismo. Não vou tanto aos sítios onde, em geral, as pessoas gostam de ir, vou a sítios como, por exemplo, a Sibéria. Fui lá muitas vezes, conheço bem. Gosto de ver como é o mundo, e como é o mundo onde ele é muito diferente do nosso, daquele que conhecemos”.

“Outra coisa de que gosto – continuou - são as línguas. É um amor infeliz porque, no fundo, não falo bem nenhuma. Mas, em todo o caso, tento. Essa é uma das coisas importantes na minha vida. Acabei de passar um mês no Turquemenistão e no Azerbaijão, porque me interessou”.

Ainda sobre o mesmo tema, o escritor revelou que temia “dizer coisas um pouco tontas” e disparou: “Algumas mulheres tiveram muita importância na minha vida, escrevi mesmo sobre elas, algumas vezes; a política teve muita importância na minha vida, quando era jovem, mas já não tem, porque é uma forma de pensar totalmente oposta ao pensamento artístico, literário, é um pensamento simplista, pobre, isto está bem, isto está mal, eu tenho razão e tu não. Isto encontra-se em todos os discursos políticos. Já não me interessam. E… o que é que há mais de importante na minha vida? A mãe, a mãe”.

OE

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