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Entrevista

Paul Auster: o realizador ocasional

12 | 10 | 2007   18.33H

Tem dado dezenas de entrevistas nos últimos dias a propósito do novo filme, algo pouco habitual para um escritor. Encara-as com naturalidade no negócio? Tenho de confessar que não gosto de o fazer, não sinto que tenha algo a dizer. Gosto que o trabalho fale por si mesmo. Mas, no caso dos filmes, é tão difícil promovê-los que, falar com a imprensa ajuda que as pessoas saibam que o filme vai estrear e podem vê-lo nos cinemas. Se as pessoas não sabem, não podem vê-lo. É um preço que pagamos.

Sobre o filme, era uma ideia para uma curta-metragem que colocou numa parte do seu livro O Livro da Ilusões. Como foi o percurso? Foi difícil?

Escrevi-o como uma curta-metragem, mas logo após ter terminado pensei... esta história deveria de continuar. Isto é um primeiro capítulo, a parte mais interessante é o que acontece a seguir a estes dois, o escritor e a sua musa imaginada. Por isso, quis continuar, apenas demorou-me alguns anos até querer voltar à ideia. Vários anos passaram e depois de ter escrito o romance The Brooklin Foolies, comecei a desenvolver o guião. E felizmente o filme foi feito, é quase um milagre.

Houve muitos imprevistos nesta rodagem? Mais do que em anteriores filmes como Lulu on the Bridge?

Todos os filmes têm problemas. Nada corre de forma totalmente suave. No caso de Martin Frost acho que foi o filme que fiz que teve menos problemas. Porque depois de termos estabelecido o elenco e a equipa, tudo correu muito bem. Os problemas aconteceram antes. Perdi o meu principal actor, perdi o director de fotografia e o meu compositor. Era um filme de baixo orçamento e nem todos conseguem aceitar projectos que pagam muito pouco. Acho que as soluções para estes problemas acabaram por ser positivas e rápidas. Estranhamente, em cada um dos casos recusei-me a entrar em pânico. Pensei sempre que íamos conseguir arranjar uma solução, há uma forma de fazer isto. E, na verdade, estou tão feliz por todos aqueles problemas por ter calhado com as pessoas com que calhei. Cada um, David Thewlis (um actor conceituado), Christophe Beaucarne (director de fotografia) e Laurent Petitgand (compositor), fizeram um trabalho maravilhoso e é difícil imaginar o filme sem eles.

Foi uma espécie de destino tudo ter encaixado bem?

Não sei se é destino, apenas boa sorte. Uma vez por outra as coisas correm bem e ficamos surpreendidos, porque na maior parte das vezes não correm assim. Os únicos problemas que tivemos na rodagem foram problemas de som. Quando filmámos fora da casa, ouvia-se de vez em quando galos, cães, aviões e tivemos de interromper várias vezes a rodagem. Um dia descobri que a Força Aérea Portuguesa tinha uma base ali perto. Estávamos a começar a filmar no exterior, quando os aviões militares começaram a circular pela zona durante duas horas. Mas a Diana Coelho, que era a produtora de linha, muito boa no seu trabalho, ligou mesmo para a Força Aérea a pedir que parassem com a manobra para o filme e eles concordaram, o que é incrível! (risos) Nunca tinha visto uma organização militar mudar os seus horários para um filme. Por isso, obrigada.

Esta produção ocorreu em Portugal, com Paulo Branco, que conheceu há vários anos. Foi novo para si estar num país diferente, com uma equipa de estrangeiros de várias línguas. Como foi a experiência nova?

Foi excelente. Fiquei admirado como conhecedora e trabalhadora era a equipa portuguesa. Todos eles trabalharam já em vários filmes, por isso sentia que estava em boas mãos. Trabalharam com um óptimo espírito. Havia uma atmosfera familiar quando nos começámos a conhecer melhor. Ficámos todos com boas memórias, foi uma boa experiência para todos nós. E queria que fosse assim. Para além de fazer o filme achei que tinha uma responsabilidade para quem trabalhou connosco, de forma a torná-lo uma viagem que valeu a pena, algo que recordassem com felicidade. Porque, quem sabe, pode ser o meu último filme e queria que as pessoas o aproveitassem.

Como realizador ocasional, nunca sabe o que o futuro lhe traz...

Exacto, sou mesmo ocasional.

A personagem principal é um escritor que tem uma musa que acaba perceber que é um produto da sua imaginação. Existem factores autobiográficos na história?

Nem por isso. Mas ele é um escritor e eu sou um escritor. E essa é uma ligação forte. O que é interessante nesta história é que é sobre como alguém se imagina a escrever histórias. Coitado do Martin, é um homem sozinho. Chega a uma casa isolada, sem amor na sua vida, que tem trabalhado bastante e imagina uma espécie de mulher ideal, e ela é cheia de vida, a Claire. Ela está constantemente a fazer piadas, a "picá-lo". Até ao fim do filme ela continua a ser aquela figura positiva que tenta surpreender o Martin. Eu gosto de pessoas assim, que sejam imprevisíveis e cheias de bom espírito. Acho que a Irene [Jabob] fez um trabalho maravilhoso.

Escolheu-a depois de tê-la conhecido em Cannes há vários anos. Porque é que ela foi a primeira escolha?

Em primeiro lugar ela é uma actriz fenomenal e que tem uma grande presença no ecrã. E o facto dela ser tão pequena é importante. Se imaginássemos a Claire como uma mulher grande e voluptuosa não teria o mesmo efeito. Ela tem uma qualidade doce que é importante para a história.

Não imaginou Martin Frost como um inglês. O sotaque inglês de David Thewlis não perturbou a visão que tinha da personagem?

Não, de todo. Isto porque em Nova Iorque, onde vivo, existem pessoas de todo o lado do mundo. Há vários escritores ingleses. Um dos meus amigos mais próximos é o Peter Carey, um romancista australiano, que vive em Nova Iorque há 20 anos, ainda com o seu sotaque australiano muito pronunciado. Mas também faz parte da cena literária de Nova Iorque, por isso, não é fora do normal.

A localização utilizada, Azenhas do Mar [perto de Sintra], com a casa no meio de um pinhal foi pensada por ser parecida com alguma zona norte-americana?

No início não íamos com nenhuma ideia feita. Não tinha de ser igual, mas sim dar a ideia que poderia ser em qualquer lugar do mundo. Mas a zona é muito parecida com a Califórnia do Norte. É um clima parecido e a vegetação também. Aquelas árvores à volta da casa eram pinheiros normais, mas o dono da casa cortou os ramos de baixo para parecerem uma espécie de pinheiros ‘guarda-chuva'. E tem um aspecto estranho, dando um efeito quase de outro mundo, e eu queria isso. Quando vi aquela casa e a zona circundante pensei que era perfeita. Depois era isolada. Não queria quaisquer referências ao mundo exterior.

Porque era a mente de Martin Frost que era retratada...

Exactamente por isso.

Uma das cenas mais curiosas é o jogo de dardos, mas com chaves de fendas. Como surgiu essa ideia para esse jogo?

(risos) É algo que remonta à minha infância. Tinha uns 10 anos e fui a casa de um amigo. E estava uma chave de fendas no quarto dele, e começámos a atirá-la à parede, mas não conseguíamos que ficasse presa, caía sempre. O irmão dele apareceu, tinha uns 14 anos e perguntou o que fazíamos e explicámos que não se conseguia que a chave ficasse presa. E ele disse "claro que se consegue". Então apostámos dinheiro e ele pegou na chave de fendas, atirou com toda a força e aquilo ficou preso. E aquilo impressionou-me. Pensei que poderia ser um desporto. Se muitas pessoas virem o filme, talvez fiquem com vontade de jogar e se torne num novo desporto (...), muito difícil de praticar...

A máquina de escrever, no filme, tem um papel simbólico importante. É o mecanismo para criar Claire. Os jovens escritores já não sabem o que isso é. Que importância tem isso para si?

Continuo a escrever à máquina. Escrevo tudo à mão e depois passo para a máquina. Nem tenho computador. Gosto, estou habituado a fazê-lo e nunca senti a necessidade de mudar. No filme, o facto dos donos da casa terem ido de viagem implica que tenham levado os computadores. E o Martin só tem a máquina velha e usa isso para escrever a história.

Ele acabou um livro e não está ali a pensar que precisa de uma musa. Como surge esta musa?

Na minha mente, a Claire é uma musa especial. Ela não está ali para o inspirar, ela é a história. Dá-lhe amor e conforto e ele consegue escrever o conto, mas quanto mais ele escreve, mais ela vai ficando fraca. E depois chega o momento em que ele termina a história e ela morre. E ele chega finalmente percebe o que se passava, e num acto desesperado, sem saber se resultaria ou não, pensa "se eu destruir a história" talvez ela volta à vida, e funciona.

Nos Estados Unidos a crítica foi muito dura para o filme. Como encara essas criticas?

Foram terríveis. Não posso fazer nada em relação a isso. Mas, para ser sincero, estava à espera delas. É difícil de explicar. Acho que há vários factores. Um é que na América as pessoas não vêem com bons olhos um escritor a fazer um filme. Isto tem acontecido com todos os filmes que faço. O filme Smoke, que foi muito bem sucedido por todo o mundo, foi terrivelmente atacado pela imprensa norte-americana. Mas tínhamos um bom distribuidor que apostou no filme, e foi muito visto e agora as pessoas vêem-no como um clássico. Neste filme temos um pequeno distribuidor nos EUA. Porque o mundo do cinema independente mudou nos últimos anos. Ficou muito mais difícil para filmes pequenos serem mostrados nos EUA.

Ainda a semana passada fui o presidente do Festival de Cinema de San Sebastian, e demos prémios a dois realizadores norte-americanos conhecidos. E nenhum deles tinha distribuidores para os seus filmes na América. Isto são realizadores experientes, que fizeram muitos filmes com sucesso, e até eles estão a lutar. Por isso fiquei feliz por termos um distribuidor. Mas não havia dinheiro, nem publicidade, nem poder. Estávamos muito vulneráveis. A publicidade é importante. Nos filmes norte-americanos aposta-se muito nos press junkets. O que acontece é isto. Um grande estúdio, com muito dinheiro, paga a jornalistas para voarem por um fim-de-semana em Nova Iorque, ou outra capital qualquer. Paga-se o avião, o hotel, a comida para eles entrevistarem os actores e o realizador. Agora, será que eles vão escrever coisas negativas sobre os filmes? Claro que não, foram pagos para serem simpáticos. E não vão criticar muito porque querem ser convidados novamente. Detesto ser cínico sobre isto, mas há uma pressão grande. A publicidade que entra nos jornais, acaba por influenciar o que os críticos fazem. Por lá estávamos vulneráveis. Isso mais o facto de estarem pré-dispostos para criticar torna-se numa história infeliz. Mas o filme mais sobreviver. Estamos a preparar o DVD e a distribuidora tem um programa curioso onde passa o filme em museus, universidades, centros cívicos pelo país, e as pessoas vão vê-lo.

É um filme muito literário, por ser um escritor, na estrutura e na narração que o Paul Auster faz. Era um factor decisivo para si? Poderá ter influenciado nos EUA?

É exactamente isso que queria fazer e não se assemelha a nada que se tenha feito, fala uma linguagem diferente. Depois falo em filósofos no filme, e existe uma cultura tão forte contra a filosofia nos Estados Unidos. Mesmo que os use de uma forma ligeira e as citações sejam curtas e tenham a ver com a história, as pessoas pensam que estou a ser pretensioso, a olhar de cima para o público, quando nada poderia estar mais longe da verdade.

Narrou o filme porquê?

Queria fazê-lo. Acho que fui inspirado por François Truffaut, que fazia isso nos seus próprios filmes. Gostei sempre da forma como isso soava, o autor do filme a fazer parte do filme. E como era o argumentista e o realizador fazia sentido que o fizesse.

Só admite fazer filmes sendo o argumentista e o realizador?

Não sei. É possível que escreva um argumento para outros realizadores, mas tem de ser alguém em quem confie. Actualmente existe um projecto potencial no ar, não sei o que vai acontecer. O meu antigo amigo Wim Wenders, ajudou-me neste filme. Foi ele que me apresentou o Paulo Branco, há vários anos, e foi ele que me salvou quando perdi o meu compositor. Mas o Wim, que gosta muito do trabalho da minha mulher, Siri Hustvedt, quer fazer do segundo romance dela, The Enchantment of Lily Dahl, um filme. Quer que a nossa filha, Sophie, seja a protagonista e eu faça o argumento. Se ele conseguir o dinheiro para o projecto, e isso não é certo, talvez eu faço o filme. Tem um valor pessoal, ficaria feliz por servir as duas mulheres que mais amo no mundo.

Sobre a sua filha Sophie Auster, que demonstra grandes dotes vocais no filme. Pensou nela quando criou a personagem da voz cristalina?

Não pensei em mais ninguém. Porque não há nenhuma jovem que cante e interprete àquele nível. Não houve dobragens, ela cantou mesmo no cenário, sem música, e apenas num take. É fantástica. É um momento bizarro na história. De repente, uma rapariga quase catatónica levanta-se e começa a cantar daquela forma. O filme começa a ficar mais louco nesse ponto e tudo o que acontece é tão inesperado. Ela já fez um álbum, trabalha agora no segundo. É ela que escreve as letras. Acredito que tem muito talento e que vai longe, mas é tão duro hoje em dia. Miguel Martins, o editor de som fez um trabalho excelente a resolver alguns problemas de som que tivemos e filtrou todos os sons da rua na sala. Não pensei que fosse possível.

Na antestreia em Portugal, disse às pessoas para relaxarem a ver o filme, para não se coibirem de rirem e aproveitarem a experiência. Que experiência queria proporcionar?

No fim de contas, isto é uma comédia. Não é uma história muito pesada. Nestes momentos escuros em que vivemos é bom podermos termos alguma diversão. Tem um propósito, nesse sentido. Nada neste filme é normal, por isso não é uma comédia normal. Acho que se pode dizer ao ver o filme, que não sabemos onde a acção nos vai levar. Tudo é imprevisível em Martin Frost. Não foi consciente, só vi isso depois.

A personagem de Michael Imperioli é aquela que mais comédia traz ao filme. É uma personagem muito leve, muito diferente do que ele fez nos Sopranos. Ficou surpreendido?

Conheço o Michael há muito tempo e sempre o admirei. Sei que ele é muito mais talentoso e versátil do que lhe tinham dado para fazer. Com os Sopranos, todos aqueles anos, as pessoas viam-nos sempre como aquela personagem. Ele disse-me que recebe guiões onde é sempre um gangster ou um polícia. E ele recusa-os porque está farto disso. Liguei-lhe a dizer que tinha um papel bem diferente para ele. Ele leu o guião e no dia seguinte ligou-me a dizer que queria fazê-lo.

Já esteve várias vezes em Portugal nos últimos anos. Como encara este pequeno país na ponta da Europa?

Acho que Portugal é como segredo. Tem uma cultura tão bonita e interessante e o país é maravilhoso. Gosto sempre de vir cá e adoro Lisboa e as zonas circundantes. Não conheço mais, mas amanhã vou ao Porto pela primeira vez.

João Tomé | jtome@destak.pt

1 comentário

  • As coisas que Paul Auster ainda nos pode ensinar, hein. Gostei!
    Carlos Gonçalves | 13.10.2007 | 23.08H
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