A artilharia pesada de Rammstein
Passavam apenas dez minutos da hora marcada e já os ânimos estavam em alta para ver a banda que tem a fama de fazer espectáculos inesquecíveis. E os Rammstein não podiam ter escolhido melhor maneira de entrar em palco que a de derrubar paredes com martelos e maçaricos, numa altura em que se comemoram 20 anos da queda do muro de Berlim.
Assim que abandonaram a escuridão, as silhuetas iluminadas por feixes brancos de luz entraram num cenário apocalíptico, com um pano de fundo rígido, rasgado com garras diabólicas. Quem deu mais nas vistas foi inevitavelmente o vocalista Till Lindermann, com penas à volta do pescoço e um luz a sair da boca, o guitarrista Richard Kruspe, muito parecido com um oficial nazi, e o teclista Flake Lorenz, com um fato de lantejoulas prateado bem brilhante.
O arranque quis-se violento, para não desapontar os desejosos do regresso dos alemães, com “Rammlied”, o tema de abertura do novo «Liebe Ist Für Alle Da». Os holofotes e o jogo frenético das luzes ajudaram a compor o teatro de industrial rock característico dos Rammstein.
Chamas, petardos e fogo de artifício
“B********”, “Waidmanns Heil” e “Keine Lust” foram as faixas seguintes, com direito às primeiras chamas a expelir do chão do palco (cujo calor se fazia sentir a umas boas dezenas de metros de distância), ao fumo estilo géiser e a projectores medonhos a pender do tecto. As turbinas gigantes soltavam luzes ao ritmo dos riffs violentos, enquanto o baterista fazia um solo em “Weisses Fleisch”.
Petardos, crowd surf, fogo de artifício e chamas cuspidas pelos guitarristas Kruspe e Landers, que apesar de não constituírem novidades nos shows dos Rammstein, fizeram as delícias dos fãs em “Feuer Frei!”.
Embora o título do novo trabalho seja “O Amor é para todos” (em tradução livre), os alemães do leste não pouparam nas polémicas e apresentaram “Wiener Blut”, um tema inspirado em Josef Fritzl, o monstro austríaco que manteve a própria filha encarcerada numa cave durante 24 anos. Em simultâneo com as frases soturnamente entoadas na primeira pessoa por Lindemann, várias bonecas despidas surgiram penduradas pelo pescoço num estendal.
Caso ainda não estivesse bem vincada a personalidade agressiva do vocalista, este não deixou margem para dúvidas na sua actuação teatral ontem à noite: em “Ich Tu Dir Weh” derrubou o teclista, esmurrou-o no chão e despejou uma cascata de fogo em cima, a partir de uma plataforma elevada; e em “Benzin” incendiou um figurante que serpenteou pelo palco em chamas.
Canhão de espuma, dildos e barco de borracha
Ainda o público espreitava curioso o homem-chama a ser abafado por cobertores, já a marcha “Links 2 3 4” roubava a atenção dos “militantes”. “Du Hast”, uma das mais conhecidas, marcou obrigatoriamente presença com mais fogo, pirotecnia, saltos e letras gritadas ao “chanceler” Till.
As expectativas para o novo single “Pussy” eram altas mas receosas, uma vez que o grupo é especialista em surpreender pelo arrojo na apresentação das músicas. Mas apesar de não ter havido estrelas porno como no videoclip, o vocalista expunha uns quantos dildos no suporte do seu microfone e nos últimos trechos da canção, disparou espuma sobre a plateia de um canhão fálico.
Para os encores ficaram guardados “Sonne”, “Haifisch”, “Ich Will”, “Seemann” e “Engel”, já com todo o recinto de pé para não perder uma cena do último acto do concerto. Uma simulação de curto-circuito, uma viagem de barco de borracha por Doktor Flake (que passou grande parte da noite a caminhar sobre um tapete rolante enquanto tocava) no mar de braços da audiência, uma espécie de formatura militar e um espectador afoito que subiu ao muro do balcão dois fecharam o espectáculo de hora e meia de uma banda que, embora não interaja com o público, faz chegar a sua mensagem – mesmo que em alemão - melhor do que muitas em inglês.







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