Hank Jones quer continuar a gravar e dar concertos "por mais 200 ou 300 anos"
Só mostra a idade que tem quando se movimenta, devido a uma recente operação ao joelho, que o obriga a andar com algum cuidado. Mas não tem problemas ao falar do futuro. Em entrevista à Lusa, revelou que tem em agenda a gravação de vários discos e que conta continuar a fazer concertos ao vivo.
“Tenciono continaur a fazer isto durante o resto da minha vida, ou seja, por mais uns 200 ou 300 anos”, disse, soltando uma gargalhada.
Se o seu discurso é fluido e elegante, ainda mais evidentes são estas características na sua execução ao piano, em que mostrou porque é considerado um dos notáveis do piano de jazz.
Nascido em 1918, no estado sulista do Mississípi, é cinco anos mais velho que seu irmão Thad Jones (1923-1986) – compositor, trompetista exímio e um dos mais importantes chefes de orquestra do jazz – e sete do que Elvin Jones, um dos mais importantes bateristas de todos os tempos, também compositor e líder de várias formações.
“Acho que Nosso Senhor foi bom para a nossa família. A minha mãe tocava piano, o meu pai guitarra. Ele gostava de me ver tocar piano na Igreja. Nenhum de nós teve aprendizagem formal. Eu era o mais velho dos rapazes, tinha duas irmãs mais velhas e três mais novas que também tocavam piano e cantavam. Acho que fui influenciado pela minha mãe”, contou.
O pianista conta que, além do piano, a família tinha uma pianola que tocava rolos (os antecessores dos discos), gravados por pianistas como James P. Johnson e Jelly Roll Morton.
”Mais tarde, já em disco, ouvi muito Fats Waller, Earl Hines, Teddy Wilson, Duke Ellington e o grande Art Tatum foram todos muito importantes para mim”, disse.
Depois de tocar em grupos locais, foi para Nova Iorque no princípio dos anos 40 com o saxofonista Lucky Thompson, que o tinha recomendado para o lugar de pianista na orquestra do trompetista Hot Lips Page.
Aconteceu então a revolução do bebop, iniciada por Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Thelonious Monk, Charlie Mingus, Bud Powell, Max Roach e outros.
“Quando cheguei a Nova Iorque, nunca tinha ouvido falar do bebop, um termo de que aliás não gosto. Quando ouvi aquela música, tão diferente do que andava a tocar, fiquei muito impressionado. Pareceu-me muito diferente e variada, bem mais interessante e excitante. E também muito mais difícil, tecnicamente muito exigente”, contou.
Aderiu à nova corrente porque lhe pareceu “estranha e nova” e também porque “oferecia uma maior capacidade de expressão musical”.
Desde então tocou com os maiores nomes do jazz em vários tipos de formações, desde a big band até ao trio clássico de jazz (piano, contrabaixo e bateria) – em que é um considerado um mestre – e em duetos com geometrias variadas, desde o piano e contrabaixo, dois pianos ou piano e saxofone, entre outros.
Hank Jones considera que, além dos pianistas, as personalidades que mais o influenciaram foram os saxofonistas.
“Coleman Hawkins, Lester Young, Charlie Parker, sobretudo, mas também trompetistas como o meu irmão Thad e Miles Davis. Não era opção deliberada, eram coisas que eu ouvia, gostava e, muitas vezes inconscientemente, ia incorporando na minha música. Funcionava assim”, disse.
Quanto às mudanças ocorridas nos Estados Unidos desde os anos 20 e 30 do século XX até à América de Obama, o pianista, que viveu as vicissitudes da segregação racial durante grande parte da sua vida, afirma que nunca pensou chegar a ver um presidente dos Estados Unidos negro.
“Aconteceu gradualmente e culminou com o Obama, que soube dizer às pessoas aquilo que elas queriam ouvir. Por isso é presidente e o líder do mundo democrático. Acho que está a fazer um bom trabalho, está a tentar conquistar amigos para os Estados Unidos, contrariamente ao que fizeram as administrações anteriores. Isso é bom”, afirmou.



