Aula Magna cede ao charme francês dos Nouvelle Vague
A Aula Magna voltou, dois anos depois, a receber centenas de fãs dos Nouvelle Vague, numa noite menos mágica que o habitual, devido à quase-ausência da vocalista Melanie Pain, a um alinhamento questionável e a uma atitude algo confortável por parte da banda.
O colectivo gaulês já joga praticamente em casa. Mas, apesar de nos últimos dois anos terem dado vários concertos em terras lusas, o público português parece responder sempre à chamada do bossa nova quando se trata de um espectáculo na capital. E ontem à noite, na mítica sala da Aula Magna, não foi excepção.
Para abrir o apetite, subiram ao palco, na primeira parte, dois vocalistas dos Nouvelle Vague agora em aventuras a solo: o peculiar Gerald Toto e a doce Mélanie Pain. Toto entrou tímido com a sua guitarra e o público, que entretanto ainda ia ocupando os seus lugares, parece só ter dado conta da sua presença aquando da sua música “Chocolat Cake”, repetindo o refrão com o senhor dos quadris indisciplinados.
Já Mélanie veio acompanhada do teclista Paul e do rebento que trazia no ventre e pouco precisou para mostrar por que é um dos elementos mais acarinhados dos Nouvelle. “Little Cowboy”, “Cigarrette” e “My Name” foram alguns dos “presentes” que a futura mamã trouxe para Lisboa em vésperas de Natal.
Só por volta das 23 horas é que a principal atracção deu o ar da sua graça com “One Hundred Years”, uma versão da música dos The Cure, interpretada pela sensual Nadeah Miranda. Seguiu-se “Master and Servant”, do novo «3», desta feita já acompanhada da nova voz da banda, a luso-descendente Helena Noguerra, que teve a sua estreia, esta sexta-feira.
A garra de Nadeah
Em “Ever Fall In Love”, Nadeah deu amostras da sua rebeldia e excentridade em palco ao dançar de forma bem espontânea (chegou a apoiar-se na cabela do fotógrafo na primeira fila), contrapondo com Helena, que ainda se encontrava um pouco presa de movimentos algo mecânicos e reflectidos. Todavia, em “Road To Nowhere”, admitiu que não falava muito nas actuações, embora os colegas haviam-lhe pedido para o fazer, isto num português quase perfeito.
Gerald Toto regressou novamente para cantar “Don’t Go” e “Heart Of Glass”, recuperando a empatia que, estranhamente, a audiência sente com a sua voz semi-rouca. Em simultâneo, a endiabrada Nadeah incentivava os presentes a saltarem das cadeiras e a começar a festa.
Se muito ainda faltava para a noite acabar (tocaram cerca de duas horas), mais provas de que a loira sensual e de movimentos provocantes era a engrenagem do motor francês não eram precisas. Miranda brilhou em “Human Fly” e “Guns of Brixton”, amarinhando descontroladamente Aula Magna acima, para gáudio dos fãs.
A falta que Mélanie faz
Não obstante a obstinação de Nadeah, “Too Drunk To Fuck” não teve a mesma pujança de 2007, quando Phoebe Killdeer e Mélanie Pain distribuíram uísque pelas doutorais e transformaram o recinto num antro de libertinagem saudável. A luso-descendente ainda tem de se soltar muito a bem do espectáculo dos Nouvelle Vague.
Pain, que chegou a estar sentada nas primeiras filas após a sua actuação a solo, foi chamada novamente ao palco para interpretar, como só ela sabe, “Dance With Me” e “God Saved The Queen”.
“Just Can’t Get Enough” salientou que as cadeiras ocupavam o espaço que se precisava para dançar e “Sweet Dreams (are made of this)” – novamente com Toto – acelerou o ritmo da sala quase até ao limite do suportável.
Demasiado confortáveis
“Blister in the Sun” e “Friday Night, Saturday Morning” trouxe alguma calmia ao ambiente e “Love Will Tear Us Apart” ficou muito aquém das expectativas de quem já presenciou a energia unificadora que o refrão deste tema provoca em centenas de pessoas num só espaço. Mais uma vez, a falta de experiência de Noguerra a falar mais alto, pois assim que Nadeah se colocou em segundo plano, a morena não soube cativar o público.
Esta canção poderia ter sido a maneira ideal de terminar a noite, não fosse a nota medíocre com que fora classificada. E foi a partir daqui que os Nouvelle Vague pecaram, mostrando-se demasiado confortáveis com o sentimento de familiariedade com o país: Gerald surge uma última vez para entoar o clássico dos Frankie Goes To Hollywood, “Relax, Don’t Do It”, esticando o tema mais do que o aconselhado, e Nadeah e Olivier Libaux, fecham a noite com “In a Manner of Speaking”, com muita suavidade, quando se queria mais clamor.






