O tigre rugiu mais alto na Avenida
Ebony Bones e Legendary Tigerman concentraram em si os holofotes no dia um do segundo Super Bock em Stock (SBES). Vimos músicos de pijama no primeiro caso e promessas de pancada no segundo. Revisto e aumentado, com mais salas e mais espectáculos, o evento de Inverno da Avenida da Liberdade encerra hoje, entre outros, com Patrick Watson.
Se tivesse de ser definido num termo físico, o Super Bock em Stock seria, certamente, movimento. Pessoas em trânsito de uma sala para outra – são sete, eram cinco -, à descoberta da sua nova banda preferida num festival de Inverno, que privilegia a novidade. Aqui, no coração de Lisboa, manda o rock, e o tempo é precioso: banda que aborreça a audiência corre o sério risco de a perder. Um qualquer projecto importante da cena internacional independente pode estar à distância de um cigarro. E porque, na sua essência, o rock deveria ser tudo menos aborrecido, chegamos ao concerto de Legendary Tigerman, cabeça-de-cartaz no primeiro dia.
Num meio em que abundam mais artistas do que arte, Paulo Furtado é uma benção. Nem sempre um concerto é menos comovente porque o músico não está a dar tudo o que pode, e, sabendo disso, o líder dos Wraygunn, que na noite de ontem vestiu a pele do homem-tigre, tratou de tornar memorável um concerto que, a dada altura, parecia ter tudo para desiludir. Começou atrasado; houve falhas técnicas que impediram a passagem de alguns duetos em vídeo, e não foi possível a projecção, em estreia absoluta, do documentário sobre o seu mais recente disco, Femina, que apresentou num Teatro Tivoli repleto.
Depois de percorrer o álbum com as meninas Rita Redshoes, Phoebe Killdeer e Cláudia Efe (Micro Audio Waves) como convidadas, e cantar num dueto em vídeo com Asia Argento e Maria de Medeiros, o ex-Tédio Boys avisou que seguramente iria bater em alguém devido a uma azelhice dos seus técnicos de som.
Catarse: tocou em modo furioso a já de si furiosa 'Bad Luck Rhythm ‘N’ Blues Machine', e deixou o Tivoli em estado de sítio. O encore chegou pouco depois, com Furtado, num tom de voz sereno, a verbalizar pensamentos onde, citamos, entram «chicotes a bater com violência em lombos semi-puros». O rock está vivo.
Ebony Bones à solta
A Música no Coração, promotora do SBES, deixara bem claro: os horários são para se respeitar. Daí que meia hora de atraso no concerto da imparável Ebony Bones tenha feito mossa no de Tigerman, que se lhe seguiu, e desiludido muitos dos presentes. Esse estado de alma durou dez segundos – os mesmos que levaram os espectadores do Teatro Tivoli a levantar-se das suas cadeiras quando a espécie de big band da artista inglesa entrou em palco.
Um deles, o teclista, vinha de pijama; a vocalista de apoio – costumam ser duas – trazia uma garrafa de rum que depois serviu como instrumento de percussão; os outros envergavam vestes tribais – comum a todos era a explosão de cores, muitas, tantas. Um dos hinos do disco de estreia Bone of My Bones, 'We Know All About You', preparava-se para rebentar. Há uma pausa: soltam Ebony Bones. A visão, passe a falta de imaginação, era exactamente a de uma mulher-tigre. Saltou, gritou, cantou, dançou como se não houvesse amanhã. 'W.A.R.R.I.O.R.' e 'In G.O.D. (Gold, Oil, Drugs) We Trust' foram outras das músicas mais celebradas do septeto, herdeiros do pós-punk com influências kuduro. Um carnaval diabólico.
Recuando algumas horas, no outro lado da Avenida, os compatriotas Wild Beasts e os texanos Voxtrot, que jogam no campeonato do indie-rock adocicado, também fizeram das suas no São Jorge, com actuações seguras, competentes. Especialmente eficazes na tentativa de evitar as fugas para outras salas, os Beasts apresentaram o segundo disco, Two Dancers, que enlouqueceu a imprensa britânica especializada.
Federico Aubele, Samuel Úria e Easyway foram outros dos projectos em foco numa noite que acabou num dos novos espaços do evento – o parque de estacionamento do Marquês de Pombal.
Orelha Negra - projecto instrumental com Sam The Kid, Fred Ferreira, Francisco Rebelo e DJ Cruzfader - e Marcelinho da Lua fizeram, madrugada dentro, as delícias dos pés dançáveis e/ou cambaleáveis.
A Avenida da Liberdade continua a dar-lhe música este sábado: Little Joy, Beach House, Patrick Watson e The Juan Maclean (DJ Set) são alguns dos nomes maiores num cartaz mais orelhudo do que o da véspera . A fasquia está elevada.




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