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Zachary Mainen

«Era muito mais fácil se a serotonina se medisse como o sal na sopa»

02 | 02 | 2010   09.29H

Como tomou a decisão de vir para Portugal?

Ah, isso foi um daqueles momentos estranhos que acontecem uma vez na vida. Ai não tive que tomar decisão nenhuma, aconteceu...

Ou seja não contribuiu para o seu estudo da decisão?

(risos) Pois não. Em 2004 conheci aquela que é agora a minha mulher, uma portuguesa. A Susana (Lima) tinha vindo para o laboratório onde eu trabalhava fazer um pós-doc em Neurociências. Casámos pouco depois. Nesse ano morreu António Champalimaud e começamos a ouvir falar que a sua fundação estava a pensar em constituir um departamento de neurociência. E nós dissemos um ao outro, «Não era engraçado...», e depois não pensámos mais nisso .

Até que…

Até que na Primavera seguinte fui contactado pelo António Coutinho, presidente do Instituto Gulbenkian da Ciência (IGC), que me pediu para vir a Portugal ser entrevistado. E o que fui percebendo nas reuniões seguintes com a Fundação Champalimaud, foi a visão de um novo instituto de neurociência, com fundos internacionais que lhe permitiam ser muito competitivo, instalações de ponta, e um enfoque na pesquisa sobre o cérebro e o comportamento, ou seja uma oportunidade e um projecto em que acreditei. As peças encaixavam todas, e há cerca de dois anos vim para Lisboa.

Nas revistas da especialidade, começaram então a perguntar «O que é que o Zachary vai fazer para Portugal, que tem um orçamento para a investigação na área da Ciência tão pequeno». Como reagiu?

Venho de um país com 300 milhões de habitantes por isso pensar a ciência limitada ao contexto de um país pequeno não faz qualquer sentido para mim. Nos EUA nunca me passaria pela cabeça dizer que pertencia à comunidade científica de Nova Iorque... A minha escolha foi a Europa, foi integrar um projecto que me interessava.

O que encontrou em Lisboa esteve à altura das suas expectativas?

Do ponto de vista local fiquei impressionado com a atmosfera intelectual do IGC, e é isso que me importa.

E em que é que esta bolsa do European Research Council vem mudar a sua vida?

É uma bolsa para este projecto concreto, que pretende estudar como é que a serotonina funciona no cérebro, mas em que também foi avaliado o meu trabalho nos últimos dez anos, por isso fico duplamente contente. Além disso é a primeira vez que a UE apoia investigadores individuais em lugar de consórcios, o que acredito pode vir a ser uma forma de promoção da pesquisa europeia.

A opinião pública tem de encontrar um interesse concreto numa investigação, para que os políticos decidam dar verbas do seu orçamento à ciência - é este o circuito?

Sinceramente, gostava que não fosse. Sou um miúdo que cresceu num tempo em que só se falava no Espaço. Nasci uns anos antes de termos ido à Lua. E nessa altura a ideia de que conhecer o Espaço tinha implicações directas nas pessoas era um disparate. A Lua estava à vista, tínhamos que a explorar. Sempre a ciência como uma oportunidade de satisfazer a minha curiosidade. Se a sociedade se esquecer desse lado, do saber pelo saber, o jogo está perdido porque a ciência não pode ter uma utilidade óbvia. Se aquilo que descobre é depois utilizado para fins práticos, óptimo, mas não existe para isso.

Ou seja não existe para dar dinheiro?

Exacto. Pense numa empresa que tem um departamento de pesquisa, onde se estudam novos materiais, novas ideias. O departamento em si não dá lucro, pelo contrário, e o empresário pode ter a tentação de o extinguir. Mas em breve descobre que se o fizer não tem «produto» para desenvolver, que estagnou. As grandes empresas percebem que é assim, e mantém o departamento de pesquisa, mesmo que não seja, só por si, rentável. O público tem que aprender a pensar assim.

E a sua curiosidade, neste momento, é o papel da serotonina. O que é?

É um químico, um neurotransmissor que permite a comunicação entre os neurónios no controlo de comportamentos que vão desde comer, a dormir, passando pela ansiedade ou depressão.

Mas como funciona?

(gargalhada) Se fizer uma pesquisa na internet aparecem-lhe centenas de milhares de referências. Se perguntar um cientista o que faz, como aconteceu agora, ele encolhe os ombros e responde que não sabe bem! É misteriosa. A maioria da informação que temos vem da farmacologia – sabe-se que os anti-depressivos, como o Prozac, estimulam de alguma forma a sua produção, e que a sua presença no cérebro provoca alterações de humor, por exemplo. Mas como? Isso não sabemos.

Quando uma pessoa deprimida vai ao médico, o médico diz «ah isso é a serotonina que está em baixo, vou receitar-lhe um anti-depressivo que vai fazer subir esse nível, e vai sentir-se melhor». E eu pergunto: como é que sabe que o nível de serotonina está baixo? Não pode fazer uma análise e comprovar se é mesmo isso o que se passa?

De facto era mais fácil se a serotonina fosse como o sal na sopa – tem de mais, tem de menos, aumenta-se, diminui-se. E tem razão, na medicina é isso que se faz, é medir o sal a olho. Mas na realidade é muito mais complicado – o que é importante para que tudo funcione como deve é que a serotonina esteja no sítio certo no momento certo. Medir o total não nos diz nada, e de facto um medicamento que age de forma global é ainda uma forma ainda primitiva de lidar com o problema. Só conta uma parte da história.

Dai a importância do seu trabalho - se conseguirmos perceber para que serve em cada momento podemos criar medicamentos ou tratamentos mais específicos, é isso?

Exactamente. Para isso temos que a observar cuidadosamente. Sabemos já que no cérebro, há neurónios específicos que a produzem. São poucos, menos de 1%. Quando disparam, espalham serotonina pelo cérebro. Agora estamos a usar ferramentas novas e poderosas (como genes que são introduzidos no rato através de um vírus), de forma a perceber melhor como tudo acontece.

Isabel Stilwell | editorial@destak.pt
Foto: Luis Pó/Destak
«Era muito mais fácil se a serotonina se medisse como o sal na sopa» | © Luis Pó/Destak

3 comentários

  • MORREU O SENHOR FELIZ E FELIZ
    anonimo | 07.02.2010 | 19.08Hdenunciar comentário
    Tem a certeza que pretende denunciar este comentário? sim não
  • Epá fiquei feliz, para aí com uma bebedeira de serotonina, saber que alguém anda a estudar a felicidade, acho que o principal problema do mundo é mesmo a falta de gente feliz...se houvesse mais gente feliz nao havia tantas guerras nem terrorismo nem tanto odio... seria o paraíso...
    Charles | 02.02.2010 | 13.50Hdenunciar comentário
    Tem a certeza que pretende denunciar este comentário? sim não
  • Tenho mais medo disto que da clonagem humana. Imaginem se daqui a algum tempo obrigam toda a gente a ser feliz?
    Anonimo | 02.02.2010 | 13.48Hdenunciar comentário
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