População teme uma cheia do Jamor "muitíssimo" pior do que a de 1967
Segundo a Liga dos Amigos do Jamor, liderada por Margarida Novo, a construção do campo de golfe naquele local trouxe uma movimentação de terras de "extrema magnitude, na ordem dos 185 mil metros cúbicos de terras" e "31 mil toneladas de areias que serão aplicadas pelo terreno que tem cerca de 23,5 hectares".
Margarida Novo lembrou que aquela é uma zona de leito de cheias, modelada com "uma configuração que permite, em caso de cheias, que as águas se espraiem, diminuindo a sua velocidade e o impacto de uma eventual cheia na zona da Cruz Quebrada".
Segundo a jurista, a instalação de novas terras "significa que, no caso de uma cheia, uma zona que deveria ser um fator de atenuação de risco é um fator grave de agravamento do risco de cheias".
A nova terra está solta, e não tem a segurança de nenhum coberto vegetal, que foi arrancado no seguimento das obras de construção, explicou Margarida Novo.
"Se realmente a ribeira sair do seu leito, virá toda por aí abaixo arrastando com ela pedras, lama, água e vai inundar a Cruz Quebrada, em toda a zona mais baixa junto ao rio", explicou.
Comparando com as cheias de 1967, que inundaram toda aquela zona até Algés, a representante da Liga dos Amigos do Jamor afirmou que "será seguramente muitíssimo pior do que o que aconteceu [naquele ano]".
Aliás, Margarida Novo considerou que a situação "era melhor [em 1967] porque a Serra da Carregueira onde nasce o rio Jamor não tinha sido florestada, não havia a urbanização excessiva em toda a zona de Queluz, Belas, Queijas, Linda-a-Pastora, não havia toda a impermeabilização das encostas que agora se vê e o rio não tinha sido encanado como agora está”.
Também Vítor Santos, morador de Linda-a-Velha e testemunha dessas cheias, considerou que a situação hoje é "muito pior" dado que a zona onde se vai construir o campo de golfe era "mais baixa" permitindo que a água espraiasse muito mais.
Em junho, a Liga dos Amigos do Jamor, um grupo de utilizadores do Estádio Nacional, interpuseram uma providência cautelar contra a construção de um campo de golfe de 22 hectares e com nove buracos naquele espaço, apresentando como principal argumento o aumento da quota de terreno e o difícil escoamento desta ribeira.
Durante o julgamento da providência cautelar, que aguarda o veredito desde outubro, as testemunhas apresentadas pelo Instituto de Desporto de Portugal, responsável pelo Estádio Nacional, negaram o risco de inundação e cheia com a construção do campo, explicando que o "aumento de quota do terreno não é significativo" e que a "modelação do campo e a cobertura vegetal que lá se colocarem permitem drenar as águas excedentes das chuvas".
Em 1967, as chuvas da região de Lisboa inundaram várias ribeiras, incluindo a do Jamor, e provocaram 462 mortos, sobretudo população que morava em habitações precárias e em zonas inundáveis.
A Liga dos Amigos do Estádio Nacional desconhece que exista algum plano de contenção das cheias naquela ribeira.
A agência Lusa contactou o Instituto da Água (INAG) para procurar respostas a estas preocupações, mas não obteve resposta até ao momento.





