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fila da frente

A viagem de Joan Baez em Lisboa

11 | 03 | 2010   16.45H

Horas antes do espectáculo, faziam-se filas à porta, como se de qualquer evento da banda pop do momento se tratasse, mas com uma faixa etária muito diferente, a rondar os 50 e 60 anos, a própria idade da cantora (69). No entanto, viam-se caras novas na multidão, provando haver também pessoas das novas gerações a acompanhar e admirar a carreira de uma das mais importantes autoras folk do mundo. «Espero que alguns me acompanhem há 50 anos, espero que outros não», disse Baez logo de início, referindo-se precisamente ao desejo de ter, entre os fãs, também caras novas, novos seguidores.

Com o arrancar do concerto, a sala foi aquecendo e o espectáculo também. Será justo dizer que ao início, a voz de Baez, que durante todo o espectáculo foi bebendo chá, ainda não estaria bem aquecida e acusava um pouco da idade (como seria natural), sendo também o alinhamento inicial, com temas do novo Day After Tomorrow, de 2008, um pouco menos cativante para alguns espectadores. «Vou tocar músicas novas, outras velhas, outras muito velhas», dizia. A postura de Baez, essa postura, em jeito de ‘storyteller’, explicando o contexto e a história por detrás de cada canção, - e se são canções com história- falando de si, de quando levava o folk e se levava a ela própria demasiado a sério, de noivas e viúvas, de deuses e de esperanças, foi uma das surpresas da noite, trazendo uma sensação de showcase/sala de estar, sem se sentir a imponência de se estar perante uma mulher que actuou em Woodstock, que há menos de um mês cantou para o casal Barack e Michelle Obama.

Se o espectáculo foi um crescendo, com uma hora decorrida ele teve o seu auge. Acompanhada por uma boa banda, que inclui um filho seu, Baez já entrara nas músicas mais antigas e tocara um tema em espanhol e outro em brasileiro. Aqui, iniciou uma sequência quase histórica e emocionante: Joe Hill, cantada em Woodstock e agora dedicada «à opressão e luta, venha ela da direita ou da esquerda»; depois Susanne, de Leonard Cohen; um surpreendente Grândola Vila Morena, de Zeca Afonso, entoado com pronúncia quase perfeita e que além de pôr a sala toda a cantar deu origem à primeira ovação da noite; Forever Young, de Bob Dylan («Joan Baez, You’re Forever Young», gritou um fã no final); Swing Low, Sweet Chariot, cantado à capela; e Diamonds and Rust, um dos seus mais belos temas, escrito para um amante (Dylan?) nos anos 70. Aqui sentia-se a história, aqui a voz de Baez, o seu chilrear característico, parecia surpreendentemente próxima dos registos antigos, funcionando ela própria como uma viagem no tempo.

No encore, houve ainda tempo para Blowing in the Wind e Gracias a La Vida, cantado em festa total, num agradecimento por uma vida de música, partilhado por todos. Faltaram We Shall Overcome e The Battle Hymn of the Republic (Glory, glory, hallelujah), mas, com mais de 30 concertos a decorrer desde Fevereiro, quase 2 horas após o início era a altura para Baez se retirar.

No final, o balanço: A viagem a que Joan Baez levou o Coliseu foi digna, elegante, alegre, sem excessos de saudosismos ou um pingo de decadência. Numa altura em que se valoriza o imediato, o já, a juventude, o efémero, o futuro, foi uma noite de celebração da cultura musical, da história política, de décadas de convulsões e de mudança, de sensações, memórias e maneiras de estar características desses anos, e que muitos hoje só conhecem de ouvir ou ler em livros. As 4 mil pessoas que esgotaram o Coliseu de Lisboa, na sua grande maioria contemporâneos de Joan Baez, certamente gostaram da viagem – e certamente a agradecerão.

Patrícia Naves | pnaves@destak.pt
Foto: dr
A viagem de Joan Baez em Lisboa | © dr

2 comentários

  • Cara Vera Morgado, temos por cá um professorzeco chamado João Cesar das Neves que tentou servir-se da imagem dest grande mulher para se exibir. Coitado, caiu no ridiculo porque todo o mundo conhece esta grande mulher. A prova disso são as belas paloavras que você escreveu!!!
    Bem haja, Vera Morgado!
    MariaL | 11.03.2010 | 23.04Hdenunciar comentário
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  • Eu, brasileira, contemporânea de Baez, que amadureci politicamente ouvindo suas músicas, que tive caçada a única oportunidade de vê-la cantando ao vivo, em São Paulo, pela pérfida ditadura instalada no meu país, fiqueiacompanhando daqui,dessas terras longinquas, sua passagem po Portugal. Fico feliz ao constatar que vocês PORTUGUESES a receberam com carinho, respeito e reverência, comoeu mesma o teria feito. Parabéns PORTUGAL por fazer ecoar essa voz tão linda, tão emblemática. Quanto a mim, espero que algum empresário de bom gosto a traga ao BRASIL, afinal estamos merecendo um concerto com essa QUALIDADE. VERA MORGADO
    VERA LUCIA PINHEIRO MORGADO | 11.03.2010 | 19.10Hdenunciar comentário
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