«Num disco tudo importa, tudo conta uma história»
Cantar em português tem muito que se lhe diga, por vezes parece uma arte de soar bem, a conjugação da letra/poema e da forma de a dizer, como faziam e fazem Zeca Afonso, Sérgio Godinho, Palma, Manel Cruz... Concorda e tenta fazer isso de forma consciente, ao escrever letras e dizê-las?
Tenho a noção que em português é preciso saber dizer as palavras, por a ser uma língua difícil de se dizer, mas também por haver muita gente a cantá-la mal. Acho que há muita gente com bom gosto em Portugal mas há pouca gente a tentar fazer isso e cantar em português- agora já surgem mais, e arranjam novos estilos, e fica giro, com pinta. É difícil cantar em português, mas tem a ver com a vontade das pessoas, há maneiras de cantar em português que ainda não se descobriram, como ainda hoje surgem novas formas de cantar em inglês. Mas eu ao escrever com a guitarra tento não pensar tanto nisso, acabo por confiar que as palavras vão ficar bem.
Costuma começar pela música ou letra?
É um bocado indiferente. Sei que estou muito mais exigente em termos de letras, por isso escrevo imensa coisa que não uso, ou ponho no blogue, e acabo por aproveitar muito poucas letras para ser musicadas.
E encontra referências nesses nomes, Godinho, Manel Cruz?
Claro que sim. Sou grande fã e tenho muita pena que o Manel Cruz não faça mais coisas, às vezes parece que é de 10 em 10 anos, acho o Sérgio Godinho um dos mais competentes da música nacional. Não pára, está sempre a evoluir, toca agora com gente nova, renova a coisa e tem letras geniais, tenho uma inveja... mas sim, desses e outros, poetas do fado tudo o que me toque.
Cantar em inglês nunca foi uma opção?
Cá em Portugal não. Já no último disco, o Howard, o meu produtor, queria fazer umas músicas em inglês, e desta vez apresentou-me uma compositora e começámos a criar um reportório, sim. O problema do inglês é que mesmo falando e escrevendo bem não estamos lá, a gíria e as metáforas não são iguais, não dá para escrever uma coisa aqui que os toque lá. Se escrever em inglês, como em francês que gostava, seria sempre com ajuda. Mas sim, estamos a experimentar e estou a adorar mas nunca para editar cá, não faria sentido.
Como conseguiu trabalhar com o Howard Bilerman (Arcade Fire)?
O meu manager ligou-me, e sugeriu-me trabalhar com ele, e não tanto pelos Arcade Fire mas por outras coisas que ele fez achei que era certo para o que eu queria, puxar para o lado mais orgânico e humano da coisa gravar um álbum que não soasse a de estúdio, intuitivo. E ele consegue tirar de nós o que temos de mais verdadeiro, é genial na parte técnica, mas sobretudo criar um ambiente de partilha, ficámos muito amigos.
Porque gravar em Montreal, pelo estúdio dele ou também ambiente?
É lá que ele tem o estúdio, e fizemos a primeira parte cá e o resto lá. Mas é uma cidade mito inspiradora, jovem. Nota-se na forma de vestir, cultiva-se a singularidade, estilismos novos de tocar guitarra e cantar e há uma partilha musical muito grande.
A Inês Castel-branco a cantar consigo um tema, como surgiu?
Eu ouvi-a cantar com a Jacinta num programa da TVI e achei a voz dela bonita, com uma sensualidade e inocência que eu tinha de aproveitar. E convidei-a a cantar para uma coisa que fiz em casa, chamado "Tiago na Toca" onde musiquei vários poetas. Neste álbum foi um bocado por acaso, porque precisávamos de uma voz fininha para um refrão. E foi tudo muito improvisado, veio ao estúdio, fomos para a casa de banho por causa da acústica, com um microfone, e ficou assim mesmo. Não está perfeito e por isso o Howard não me deixou trocar.
Com tudo o que tem acontecido na música nos últimos anos, quedas nas vendas de discos, downloads, consegue não se fartar deste mundo?
É obvio que me entristece. O shuffle, como dizia o Paul Simon, o tudo à pressa, o teres de provar tudo numa música, eu não consigo fazer isso. E ainda existe uma corrente de pessoas que ainda ouvem musica com calma, que gostam de álbuns inteiros, mas muitas ouvem à pressa, uma música e carimbam, não vêem a historia. Mas eu gosto de pensar nisso, não é muito comercial da minha parte mas quero que a minha musica funcione como banda sonora, mude de significado com o tempo. A minha intenção é essa, agora se resulta não sei (risos). Mas sim revolta-me isso, e as cópias, porque não comprar discos, eu tenho um carinho gigantesco a fazer o disco, a capa - deste álbum é de um pintor genial que é o Marc Seguin, e num disco a textura o livro tudo conta uma historia. Mas acredito em correntes, que isto ainda vai tudo ao sítio.. e depois volta
Fale-me do dvd que vai sair com o disco.
Vai sair numa edição limitada. Tivemos a ideia de gravar um DVd com base na digressão anterior, mas eu queria algo diferente, não só um concerto normal mas uma coisa mais encenada. Surgiu este dvd que é uma historia, um bocado estranha, passado num sitio misterioso, com pessoas estranhas, um apresentador, tem uma curta no meio, imagens da gravação e Montreal e tem o concerto do Jardim mas também as músicas novas do «Em Fuga», tudo encenado e com um pouco humor negro.
Sobre concertos, já há datas mas a digressão vai ser extensa? E alem do Rock In Rio, gostava de actuar em mais festivais?
Sim, vamos tocar em festivais. Adoro tocar ao vivo, adoro aquela altura em que paramos de pensar no que estamos a tocar, no que as pessoas pensam, aquele momento em que já nos divertimos. O ano passado só acertámos em cheio no exterior num concerto no Sudoeste - adoramos a tenda do SW.
Está ‘Em Fuga’ de alguma coisa?
Em Fuga do tal mundo em que ninguém ouve música, e porque às vezes me sinto um pouco sozinho no que estou a fazer. Em fuga de certos estilos, e também um pouco do que se passa neste país. É bom, largar coisas que nos travam, para evoluirmos.






