"Perdidamente" na SPA para homenagear Florbela Espanca
Em declarações à agência Lusa, o administrador delegado da SPA, José Jorge Letria, disse que esta homenagem a Florbela Espanca permite também à Sociedade Portuguesa de Autores celebrar um dos grandes nomes da literatura portuguesa do século XX, no ano em que se comemoram 80 anos da morte da autora.
A mostra é composta por painéis com fotografias, poemas, manuscritos, correspondência e obras da poetisa nascida a 8 de Dezembro de 1894 em Vila Viçosa e que se suicidou a 8 de Dezembro de 1930 em Matosinhos.
Evocar a mulher que "viveu sempre no limite e mesmo à beira do abismo" é outro dos objetivos de "Perdidamente", que utiliza o título num dos versos mais cantados da poeta.
Florbela Espanca "era uma mulher que queria amar e ser amada perdidamente, era uma mulher que tinha uma visão da criação poética como algo vivido para além do próprio limite e normalmente quem vive assim não vive muito ou não vive muito tempo", lembrou, a propósito, José Jorge Letria.
Daí que esta exposição seja também um "sublinhar da intensidade, da paixão pelo excesso e também da angústia e do sofrimento que marcaram a vida da poeta", frisou.
O responsável da SPA disse ainda à agência Lusa que o espólio da exposição vem, em grande parte, de Matosinhos, cidade onde a poeta tem uma biblioteca que lhe é dedicada.
Homenagear também todos os homens e mulheres que ao longo de décadas cantaram e declamaram Florbela Espanca, um aspeto "menos conhecido" da sua obra, é outro dos motivos da mostra.
"Quando falamos de Florbela Espanca falamos da pessoa que viveu no limite e morreu jovem mas não temos presente que ela é cantada por praticamente todos os grandes nomes da música portuguesa", disse.
A título de exemplo, José Jorge Letria citou os nomes de Mariza, Kátia Gurreiro, Trovante e, ao nível dos declamadores, o de João Villarett e o de Victor de Sousa.
Razão por que, para o dirigente da SPA, esta exposição é também "uma forma de celebrar toda a obra que Florbela Espanca originou na área da música".
A mostra está patente até 21 de Maio, altura em que será substituída pró uma outra que coincidirá com o Dia do Autor que se intitulará Clave de Memória e cujo subtítulo é A música e os músicos na história da SPA, concluiu José Jorge Letria.





2 comentários
Grande poetisa ...
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor! É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor! É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito! E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente! ~~~~~~~~~~~~ Charneca em Flor Enche o meu peito, num encanto mago,
O frémito das coisas dolorosas...
Sob as urzes queimadas nascem rosas...
Nos meus olhos as lágrimas apago... Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago! E, nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu bruel,
E já não sou, Amor, Soror Saudade... Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor! Florbela Espanca