Música

José Cid em entrevista ao Destak

23 | 11 | 2007   09.35H

Está a atravessar uma fase dinâmica e criativa?
Dinâmica sim, criativa nem por isso. Infelizmente nem tenho escrito.

Por falta de tempo?
Não, por falta de inspiração. Estou a gerir a minha carreira, as minhas músicas, a tentar ser criativo naquilo que fiz e não repetir a forma de expressão que tinha, mas não estou efectivamente a escrever muita coisa. Isso é muito chato para mim que escrevia uma canção por dia e agora, há dois ou três anos a esta parte não escrevo.

Se calhar precisa de viajar...
Não, acho que a criatividade é como a ‘tesão', quando a perdes não tens tanta (risos).

O que é que está a ser preparado para o Campo Pequeno? Na reunião do Quarteto 1111, desta vez o Tozé Brito está confirmado?
Sim, está confirmado. Da última vez, no MusicBox, ele estava nos EUA. Vamos tocar 4 temas, se nos pedirem mais um, um encore, nós fazemos. Vamos tocar A Lenda De El-Rei D. Sebastião, João Nada, Domingo Em Bidonville, Doce E Fácil Reino Do Blá, Blá, Blá e talvez mais um ou outro. Nós dominamos o nosso pequeno e curto, mas ‘grande' reportório.

E outros convidados?
Apesar de me dar com muitos músicos, convidei aqueles com quem falo mais, o André Sardet e o Luís Represas. Claro que também falo muito com o Paulo de Carvalho e com o Paco Bandeira. Há várias pessoas com quem falo, mas desta geração mais recente é mesmo o André e o Luís.

Com quem partilha a paixão pelos cavalos...
Pois, faço concursos hípicos com o Luís, dou aulas da bateria ao filho dele, estou a compilar um álbum com o título José Cid E Os Poetas que vai ser entregue à Casa do Gil de Margarida Pinto Correia. É um álbum muito acústico e que vai surpreender por que mostra um lado meu que as pessoas não conhecem tanto, mas que está feito e que está gravado. Por isso estou muito ligado à família Represas. O André Sardet é sobrinho da minha vizinha mais crescida em Coimbra. Houve um tempo em que ele andava ‘desanimadote' e fui-lhe encaminhando algum trabalho que não podia aceitar e fui dizendo-lhe: «Espera que vais lá». E depois, de dois anos a esta parte, aconteceu.

Vai também tocar comigo, apesar de não estar no cartaz, o Amadeu Magalhães, digno representante da música popular portuguesa (gaita de foles e flauta).

Não é um paradoxo ser monárquico e anarquista?
É um certo paradoxo por que foram os anarquistas que efectuaram a maior parte dos regicídios. Mas estamos a falar de uma época em que era mais possível um anarquismo e um monarquismo pela negativa. Entretanto as monarquias evoluíram e são muito mais actuais do que as repúblicas, são muito mais culturais, mais nacionalistas e, portanto, acho que uma opção monárquica é sempre uma opção melhor do que uma opção republicana.

De que lado está, rei de Espanha ou Hugo Chavez?
O Chavez insultou o primeiro-ministro espanhol e o rei de Espanha levantou-se em defesa. Se calhar um presidente da república teria sido mais diplomático, mas não teria sido tão humano.

Lembra-se da primeira música que escutou?
Foi certamente fado. Toda a minha família era muito musical e muito fadista. No entanto o meu avô, não Cid, do lado Tavares, era músico, chegando a tocar guitarra com o célebre fadista Hilário de Coimbra. E também tocava piano, foi ele que me ensinou a tocar com a mão esquerda. Foi com ele que percebi que se podia tocar com as duas mãos. A meio dos anos 50 fui vocalista de uma banda jazz e cantava os ‘standards'. Por sorte, o fado e o jazz têm muitas coincidências. O fado é mais poético, o jazz é mais musical. Ambos têm muitas formas de expressão. No fado tens de cantar com sentimento, no jazz com ‘feeling'. No fado, se souberes cantar, cantas com balanço cujo exemplo maior é a Hermínia Silva, e quase todos os bons intérpretes de jazz têm swing. Podes improvisar, cantar de forma diferente, mas há muitas coincidências.

E outras influências iniciais?
No final dos anos 50 aparece uma forma de expressão que me ensina a cantar em português, a bossa nova. Ainda hoje, se for preciso, canto uma hora ou duas de bossa nova, voz e piano. A minha aprendizagem não vem só do João Gilberto, mas mesmo antes. De Marisa Matarazzo, Walter Wanderley e outros nomes do samba bossa que já existia nessa altura. Quando chega esta forma de linguagem, percebo que se pode cantar em português e isso influencia muito a minha forma de expressão e composição.

Como é que tinha acesso ao jazz, rock'n'roll e outros géneros musicais?
Havia muitas discotecas em Coimbra com vinil. No final dos anos 60, início dos anos 70, ouvia muito com os meus amigos a Caroline, a histórica rádio pirata inglesa. Tínhamos gravadores para guardar rigorosamente aquilo que se ouvia. Lembro-me de uma festa em que o Quarteto 1111 ia tocar no Colégio Militar e nessa semana ouvi pela primeira vez o Bridge Over Troubled Water, do Simon & Garfunkel, ensaiei na Sexta e cantei logo no dia seguinte.

É difícil para si cantar em inglês?
Não, nunca foi. E se lhe disser que desde então só surgiram um ou dois cantores fora do limite das minhas capacidades, ou do Paulo de Carvalho, meu contemporâneo? Freddie Mercury e pouco mais. Michael Jackson canto ‘igualinho', não tenho problema nenhum. Canto Aerosmith nos karaokes a brincar. Canto mesmo, com as notas lá para cima, sem problema nenhum. Em Vilar de Mouros, o Quarteto abriu com o Move Over da Janis Joplin. Os músicos do Elton John, que iam tocar a seguir, estavam ali sentados a olhar para mim com ar de espanto. Por que cantar Janis Joplin no mesmo tom em que ela cantava é um acto circense. Neste meu último disco, Pop Rock & Vice Versa, tenho a minha participação no Budokan em Tóquio em 1976, onde como representante de Portugal ganho o grande prémio com uma versão em inglês do Ontem, Hoje E Amanhã. Ainda hoje me arrepia como é que não dei uma balda, aquilo está tudo certo, é impressionante como é que vou lá para cima, digamos que a minha capacidade vocal mantêm-se hoje, não tão exuberante, mas continuo a cantar bem.

Se tivesse nascido 20 ou 30 anos mais tarde, como seria o seu percurso?
Não seria certamente o mesmo, por que a vida é muito dificultada às novas gerações. Primeiro por que é tudo muito mais competitivo, depois por que já está muita coisa feita. O próprio sistema não os ajuda... Ainda agora me apareceu um rapaz de Salvaterra de Magos a escrever e a tocar lindamente, com um nível que nós não tínhamos na nossa geração, por que eles são mais profissionais. E isso a mim custa-me, por que tenho a minha carreira feita, tudo bem, gosto de lutar por ela, mas custa-me que haja novas gerações a caminharem para uma parede que se afasta cada vez mais delas. Por portas fechadas e por dificuldades económicas.

Filipe Pedro | fpedro@destak.pt

3 comentários

  • José Cid é para mim uma referência musical portuguesa importantíssima. Uma menina de tranças, abria a janela, cantava sons de José Cid com os olhos postos em lameiros verdes e sonhando alcançar o que estaria por detrás dos montes.
    PARABÉNS José Cid por me ajudares a construir um munod melhor.
    Cristina magalhães | 05.03.2008 | 14.51H
  • ACRÓPOLE DE ATENAS

    Da Acrópole de Atenas sopra o doce odor da democracia,
    perfume inebriante que dissimula um governo de tirania!
    Ao Filósofo Ateniense
    Sócrates

    Republica versus Monarquia,
    entendo as duas, mas sem Tirania .
    Anarquismo continua a ser uma Utopia.
    No fundo uma grande voz e amante do animal criado pelo Deus Marte.

    Zé Ernesto – Gaia
    Zé Ernesto -V. N. de Gaia | 25.11.2007 | 19.49H
  • JOSÉ CID, ONTEM HOJE AMANHÃ E SEMPRE

    O novo álbum "Pop Rock & Vice-Versa" está de facto muito bom. É com prazer redobrado que se escutam novas versões de temas antigos que surgem com uma vitalidade surpreendente !.

    Há muito muito tempo (1977), tinha eu um vinil do José Cid, comprado nas tradicionais feiras da minha terra, que sempre que tocava sentia um arrepio de emoção!.

    Hoje 30 anos volvidos, recuperei alguns temas no "Pop Rock & Vice-Versa", que me fizeram viajar longe até esses tempos mágicos em que "era eu uma criança" !.

    Parabéns José Cid.
    Miguel189@yahoo.com | 24.11.2007 | 18.33H
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