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Entrevista

Ricardo Araújo Pereira vs Mr. Terry Jones

07 | 12 | 2007   16.53H

RICARDO ARAÚJO PEREIRA

Desconfio que lhe vou fazer perguntas que já lhe foram feitas um milhão de vezes... desculpe...
Isso até torna tudo mais fácil (risos).

Como começou o seu interesse pela comédia?
Sempre me interessou. A maior parte dos miúdos gostam... Adoram ser tontos e fazer coisas divertidas. Lembro-me da minha piada mais antiga. Acho que foi antes de saber falar. Estávamos em Gales, tínhamos acabado de comer e a minha avó perguntou se alguém queria sobremesa. E eu, esperto, passei-lhe o guardanapo, em vez do prato, e a minha avó pousou-lhe em cima a sobremesa. Lembro-me de ter pensado «é pá, a piada resultou», e fiquei à espera das palmas. Mas, em lugar disso, viraram-se todos para mim e perguntaram: «Ó meu tonto, porque é que fizeste uma coisa tão estúpida?» Foi aí que percebi que a comédia também era complicada, perigosa mesmo. Só alguns sobrevivem à pressão para matar este gosto pelo cómico com que todos nascemos.

Li muito sobre os Monty Python. Todos escreveram para outros programas antes dos Python. E estiveram em Oxford juntos...
O Mike [Michael] Palin e eu fomos para Oxford, o John Cleese, Eric Idle e Graham Chapman estavam em Cambridge. O Terry Gilliam, numa universidade chamada Occidental, nos Estados Unidos.

Há uma rivalidade entre Oxford e Cambridge?Sim! E é curioso porque chegámos à conclusão de que, sempre que não estávamos de acordo sobre se umas coisa tinha ou não piada, a cisão era sempre entre os que tinham andado em Cambridge e os de Oxford. Terry Gilliam alinhava sempre pelos de Oxford, e acabávamos empatados.

Alguns de vocês já se conheciam antes dos Python. Conhecia o Michael Palin. Na altura estudava Literatura Inglesa. Tem um livro sobre o Chaucer [considerado o pai da literatura inglesa], não é?
Tenho dois sobre ele. Porque há 4 anos escrevi um chamado Who Murdered Chaucer. É mais sobre a situação política no século XV, sobre o facto de não sabermos o que aconteceu ao Chaucer. Desapareceu sem rasto. Como Richard II era o seu patrono, e foi assassinado por Henry IV, tendo Chaucer desaparecido dois meses depois, explorei a relação que poderá ter existido entre todos estes factos.

Ok, irei comprá-lo então (risos).
A tradução portuguesa irá demorar a sair.

Mas eu compro-o no Amazon, o meu inglês não é muito bom, mas leio bem... Mas agora o que me intriga é como é que seis pessoas que não se conhecem se juntam e criam algo com uma identidade tão forte?
O engraçado é que sempre achámos que íamos fazer algo de diferente e que o programa não tinha nenhuma identidade. Tentámos surpreender sempre as pessoas, para nunca saberem sobre o que é que o programa ia ser. Python ou Pythonic faz agora parte do dicionário inglês. Isso demonstra o quanto falhámos no que tentámos fazer (risos). Tentámos fazer sempre tudo totalmente novo, algo a que não fosse possível dar um nome. Mas obviamente falhámos (risos).

Completamente! Então não havia nenhum conceito pré-estabelecido. Não havia uma espécie de carta de princípios...
Nem por isso... a história é que a BBC ofereceu ao John Cleese uma série de televisão. E acho que ele queria trabalhar com o Mike Palin. E o Mike, eu e o Eric Idle tínhamos feito um programa de crianças, chamado Do Not Adjust Your Set...

Está agora em DVD...
Pois é, é incrível, disseram-nos que tinham sido destruídos... Mas, continuando, fomos à BBC e aqueles homens de fato, sentados à volta da mesa, perguntavam 'Sobre o que é que será o programa?'. E nós dissemos: 'não sabemos propriamente'. E eles: 'a quem é que será dirigido?'. Nós dissemos: 'não sabemos'. E eles insistem: 'terá música?'. E nós... 'não sabemos' (risos). 'E como se chamará?', dizem eles, e nós... 'não sabemos'. Ao que eles responderam, com o ar mais sério deste mundo: 'sendo assim, então só vos podemos dar 13 episódios'. (Risos). Hoje isto era impossível, mas na BBC, em 68/69, acontecia.

Aconteceu alguns de vocês trazerem um sketch e os outros dizerem que não dava, por não ser Python?
Não, porque não tínhamos um conceito sobre o que era Python. Todos achámos que íamos escrever o material mais divertido jamais visto. Antes de nos juntarmos, já achámos que o material do John Cleese e do Graham Chapman, que tínhamos visto noutros programas, era o mais cómico da altura. E suponho que eles achassem o mesmo sobre mim e o Mike. Estávamos bastante confiantes, mas não tinhamos um conceito. O embate aconteceu quando fui ver o Spike Milligan, que fazia um programa chamado Q4. Lembro de pensar 'Merda, ele conseguiu! Quebrou as fronteiras da comédia'. Até ali fazíamos sketches de três minutos com princípio, meio e fim. Ou então de 30 segundos. Mas o Spike começou a fazer sketches que começavam de uma forma e depois, de repente, tornavam-se noutra coisa... Provou-nos que nós só escrevíamos clichés. Lembrei-me, então, que o Terry Gilliam tinha feito uma animação para o Do Not Adjust Your Set muito diferente, que pretendia mudar consciências. Achei que, se casássemos o que o Milligan tinha feito e os sketches do Gilliam, teríamos a estrutura para um programa completo. Liguei ao Terry e ao Mike Palin e eles gostaram logo da ideia. Quando nos encontrámos todos, os outros não estavam de acordo e na primeira temporada houve uma espécie de luta, para conseguir sintonizar ideias.

Ao ler o livro Monty Python Speaks, percebemos que Mr. Jones era o mais preocupado com o aspecto e a forma do programa Flying Circus...
Sim... preocupava-me com a forma do que fazíamos.

Recordo-me de dizer que gostava do Buster Keaton, porque era comédia, mas era...
Lindo! Exactamente. E ele mexia de uma maneira especial com a estrutura. O Charlie Chaplin também o faz, mas eu não gosto do Chaplin...

Não?
Quer dizer, gosto de coisas que ele fez... mas não gosto dele como pessoa. Queria tudo. Que as pessoas se rissem dele, que o admirassem, que o achassem maravilhoso. Acho que não era tão generoso quanto o Buster Keaton. O Keaton oferece gargalhadas aos outros. Nos filmes do Chaplin só o Chaplin é que pode dar gargalhadas.

Nunca tinha reparado nisso. Mr. Jones tem muitos talentos e interesses. De entre todas essas coisas que fez, acaba por se considerar um actor?
Nem por isso. Acho que a escrita é o que vem primeiro, foi o que sempre quis fazer. Tenho um Ensaio que escrevi aos sete anos e a minha avó guardou-o. Lá dizia 'Espero vir ser actor'. Mas pus um "p" a mais à palavra hope, e ficou hopping, que quer dizer aos saltinhos. E sendo assim, cumpriu-se o desejo, e ainda estou para aqui hopping... (risos). A sério, nunca me vi como um actor. Nunca fiz nenhuma interpretação, fiz papéis de coisas que escrevi.

Recorda-se (claro que se recorda), qual foi o impacto da série tanto na altura como mais tarde?
Não notámos nenhum impacto na altura. Fizemos quatro programas e perguntávamo-nos se alguém via aquelas coisas. Foi só por volta do quinto ou sexto programa que os produtores disseram que tinham chegado muitas cartas de miúdos, de escolas (isto de um programa que passava por volta das 22h30). Esse foi o primeiro feedback. No final da primeira temporada, saíram umas primeiras críticas na imprensa. Mas, na verdade, no final da primeira temporada duvidávamos muito que a BBC quisesse mais uma temporada. Acabaram por querer. Quando fizemos a segunda, as pessoas dizam que era divertido, mas não tão bom quanto a primeira. Na terceira série, diziam que não era tão bom quanto a segunda. E quando fizemos O Sagrado Graal foi um desastre inacreditável. Fizemos uma primeira mostra para investidores e empresários, nos primeiros cinco minutos houve risos, mas depois... nada. Silêncio absoluto, até ao fim. Entrámos em pânico. Uma vez, nos sketches para a série E Agora Algo Completamente Diferente, percebi que a música estava a estragar o timing, tirámos e resultou. Então fiz a mesma coisa, suprimi a música quando começavam as falas e os risos voltaram.

Isso é incrível! Quando é que começou a ser uma superstar?
Só muito recentemente! É como uma bo-lha, que cresceu. Parece muito maior nos últimos 10/15 anos do que na altura em que «estávamos no ar».

A sério?! Falou do Spike Milligan. Mas o trabalho dele marcou-vos?
Todos o tínhamos ouvido enquanto miúdos e marcou-nos. De tal maneira que eu às vezes tinha pena de estarmos na televisão e não na rádio.Tentámos fazer, em parte, o seu programa em versão TV.

Sempre me perguntei se alguém como Edward Lear [autor inglês especialista em nonsense] vos influenciou...
Acho que talvez o seu nonsense. Mas nunca gostei muito do Edward Lear, sempre quis gostar... (risos) mas nunca conseguia passar do 'não está mal'.

Como escolhia os temas dos filmes? O Sagrado Graal veio à baila porque o Mike escrevera um texto sobre o Rei Artur que achámos muito cómico. Parecia um início divertido. Depois dissemos, 'vamos fazer os contos do Rei Artur'. O primeiro guião fazia uma divisão entre tempos modernos e medievais. Com o meu interesse por Chaucer, achei que era preferível que tudo fosse medieval. Na primeira versão eles encontram o Santo Graal nos Harrods, por ser uma loja que tem tudo (risos). Para minha surpresa, todos concordaram. Depois, em A Vida de Brian eu não estava lá. Ainda estava a editar o Graal, enquanto os outros andavam a promovê-lo. Estavam em Amesterdão e o Eric [Idle] disse por que não fazer algo do tipo: 'Jesus Cristo, a luxúria pela glória'. Todos acharam boa ideia. Quando me disseram que a ideia era um filme bíblico, fiquei desapontado. Pensei que o guarda-roupa ia ser tão secante. Depois filmámos em Barbados e foi divertido.

O processo de escrita nos filmes foi diferente do programa de sketches, não?Bem, nem por isso. Ainda fazíamos cena a cena. Até na Vida de Brian. Apenas tentámos escrever cenas divertidas.

Você e o Michael Palin...
Sim, mas em O Sentido da Vida acho que o John estava tão farto de trabalhar com o Graham [Chapman], que houve trocas.

Esteve envolvido em Spamalot?
Nem por isso. Foi mesmo o Eric Idle. Vi-o umas duas vezes. Acho que tem coisas muito cómicas, mas não acho que seja Python.

Ah não?! Isso é interessante.
É muito mais Eric do que Python. É para um público mais alargado. A verdade é que os Monty Python tiveram sempre um público muito fiel, mas minoritário. O máximo de espectadores foram 6 milhões, num tempo em que havia só três canais e 20 milhões de pessoas a verem comédias. Felizmente, nos Estados Unidos, uma minoria é algo enorme (risos)! A maior parte das pessoas não gosta de Python (risos).

Bem, não é bem a minha percepção...
Se olharmos para a demografia de quem gosta dos Python é sempre uma minoria.

Ainda há uma série chamada Big Train...
Nunca vejo televisão.

Um bom hábito!
Mas acho que já vi um dos Big Train e achei muito cómico.

Eles seguiram claramente a vossa herança e trabalharam a partir daí. Mesmo nos EUA, há uma animação chamada South Park. E os criadores dizem que os pais nunca os deixavam ir para a cama sem que vissem os Monty Python. Era obrigatório. Tem consciência dessa herança?
Nem por isso. Quando vejo estes programas parecem-me ter pouco a ver com Python, só se for porque os Python perceberam que tudo é possível em comédia. Já conheci o Trey Parker e o Matt Stone. Fizeram uma cena muito divertida com a mãe do Terry Gilliam. Amarraram no programa a mãe dele para o obrigarem a trabalhar com eles (risos).

João Tomé | jtome@destak.pt

4 comentários

  • Mas... O RAP conseguiu fazer uma entrevista, inteirinha, sem falar de futebol e do seu benfiquinha de estimação? Ele deve ter roido unhas, falangetas e falanginhas para se conter! Provavelmente sabia que o Terry Jones jogou rugby (em Inglaterra, desporto nobre, e não em Portugal, desporto de merda e de embusteiros) e que não suporta futebol, sim, porque o Terry Jones tem espírito crítico, jamais se prostituindo por meia dúzia de gargalhadas vertidas à custa de discursos laudatoriamente nauseantes, dedicados ao seu mediocre clubezinho de futebol!
    Atenciosamente,
    A Verdadeira boca do inferno
    www.verdadeirabocadoinferno.wordpress.com
    verdadeira boca do inferno | 19.02.2010 | 00.04Hver comentário denunciado
  • Vim parar sem querer a esta entrevista que nunca tinha lido, de facto foi o Terry Jones que falou do Chaplin e é uma opinião pessoal, tem todo o direito. Têm de começar a aprender a respeitar a opinião dos outros mesmo quando tocam em pessoas que para vocês são vacas sagradas, falo no geral mesmo porquê é algo que vejo e me faz imensa confusão. Até porque ele fundamentou porque não gostava dele, não disse que não gostava só porque sim. Quanto à entrevista, achei o entrevistado algo snob mas pode ter passado a imagem errada mas no geral até gostei, Cumprimentos
    justo | 23.08.2009 | 10.59Hver comentário denunciado
  • Quem referiu o Chaplin foi o Sr.Terry Jones...o RAP nunca o referiu...Nem ler sabem!
    Alguém que sabe ler! | 04.10.2008 | 05.49H
  • O Ricardo que pense duas vezes antes de abrir a boca e falar do Charlie Chaplin...!
    R.F. | 18.12.2007 | 17.56H
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