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Música

Lena d'Água regressa 15 anos depois

21 | 05 | 2007   14.09H
Lena d'Água Há 15 anos sem gravar, mas sempre sem desistir, a artista lança hoje, no Hot Clube, Sempre, um álbum gravado ao vivo nesse mesmo espaço, que recorda com alegria. O disco, com selo da Blue Note, obedece a um registo que sempre apaixonou a cantora de Sempre Que o Amor me Quiser: o jazz.
Filipa Estrela | festrela@destak.pt
Este álbum está mais ligado ao jazz. Deixou de vez o rock?
O rock já está de lado há muitos anos, na minha abordagem como cantora e nos músicos que escolho para tocar comigo. No último disco em que participei, em 1993, As Canções do Século, o rock já era só e apenas mais uma das componentes.

Deixou-se conquistar pelo jazz?
O jazz conquistou-me quando tinha 15 anos e fui ver o primeiro Festival de Jazz, em Cascais, em 71/72. Era a única forma que tínhamos de ver grandes músicos ao vivo. Estava sempre lá, ano após ano, quando nem sonhava que ia cantar. O jazz, na minha vida, é um gosto muito grande.

Foi especial gravar no Hot Clube?
Depois disso, em 77, comecei a espreitar o Hot Clube, em Lisboa, para ver a cave mítica da Praça da Alegria e os músicos americanos e europeus. Foi no Hot Clube que me refugiei. Nos tempos de digressões com as minhas bandas, quando queria sair à noite e espairecer a cabeça, nunca ia para uma discoteca. Ia até ao Hot Clube, um sítio com muito boa música e gente com muito bom gosto.

Como foi o percurso até gravar este álbum?
Quando acabámos a digressão das Canções do Século - que durou de 93 a 99 -, tinha de voltar ao meu caminho pessoal na música. Em 99, a vontade que tive foi de partir para outra aventura e escolhi um repertório da Bil-lie Holiday. Estreámos essa aventura, em que encarno a Billie como se as canções tivessem sido escritas para mim! Foi óptimo entrar naquele mundo do jazz americano dos anos 30/40/50 e pôr-me à vontade com os músicos desta área.

Como foi gravar o disco?
Foi um privilégio ter chegado a este ponto de gravar um disco de canções portuguesas. Um privilégio e uma grande luta, que tenho vindo a travar nestes 7 a 8 anos. Este álbum tem o que eu mais quero, que é cantar os grandes poetas portugueses com músicos magníficos.

Deu um toque jazz a estas grandes músicas?
São os arranjos do Bernardo Moreira. Convidei-o em 2001 para fazer arranjos de autores portugueses. Escolhi 30 temas e o Bernardo seleccionou 14 ou 15, fez os arranjos e começámos a experimentar. Cantámos estes temas ao vivo, no Hot Clube, algumas vezes, mas eu estava sem editora e o projecto nunca mais arrancava. Até que finalmente fizemos uma produção independente e conseguimos fazer a gravação de som e imagem.

Há mais responsabilidade ou há mais descontracção quando se grava ao vivo?
Descontraída era coisa que não estava! Depois de tantos anos sem ter um disco, tantos anos a acreditar que faço falta no panorama da música e da cultura portuguesa - eu própria faço-me falta como cantora - chegou uma altura em que queria gravar. Nessa noite, estava bastante contida, como se estivesse a fazer um exame muito importante, que tinha mesmo de sair bem. Sabia que estava com os melhores músicos do mundo, os melhores temas do mundo, os melhores poetas do mundo. Precisava de estar à altura e quis portar-me bem!

E o resultado saiu bem!
Sim e estou muito feliz. Se já andava nas nuvens por voltar a uma casa que eu já conheço, quando me dão a notícia de que podia ter o selo da Blue Note, quase não dormi. Só pensava: «eles são tão bons e está tudo tão bonito!»

Porquê Sempre?
Chamo ao álbum Sempre porque são canções eternas, todas elas. Sempre ao Vivo, porque ao vivo é que é a sério e eu não tinha nenhum CD ao vivo. Sempre Lena d'Água, porque não morri, porque não desisti! Nestes últimos anos, as pessoas encontravam-me na rua e perguntavam-me porque é que tinha deixado de cantar. Dizia sempre o mesmo, que não tinha deixado de cantar, tinha deixado de ir à televisão.

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