Cova da Moura: pouca obra e muita esperança
Neste bairro, os fios de eletricidade perdem-se num novelo emaranhado, a falta de grelhas entope as sarjetas de lixo, a ausência de asfalto e de passeios lembra tempos antigos, mas aos fins de semana há sempre festas africanas, animadas por moradores que ambicionam pela entrada em vigor do Plano de Pormenor para arrancar com a requalificação de casas e ruas.
Cinco anos após o anúncio do projecto “Bairros Críticos”, as obras de requalificação na Cova da Moura mal saíram do papel, e os moradores criticam o atraso da entrada em vigor do tão esperado Plano de Pormenor.
“Falta o Plano de Pormenor para dar outra dignidade ao bairro e às pessoas que têm esperança de legalizar as suas casas há mais de trinta anos. Os moradores podem votar, pagam impostos e construíram aqui uma casa, que muito dificilmente um dia há de ser deles”, disse à Lusa Domingos Pereira, da Associação de Moradores do Bairro Cova da Moura.
O responsável diz que, para já, o projeto Bairros Críticos “apenas trouxe esperança” aos moradores de um bairro onde muitas das ruas não são alcatroadas, os becos escondem muitas vezes rostos escondidos e onde muitas habitações são degradadas e sem pintura.
O concurso para a elaboração do Plano de Pormenor encontra-se na fase final, estimando-se que a adjudicação aconteça entre setembro e outubro, e só depois poderão arrancar as obras de requalificação da Cova da Moura, que prometem abrir o bairro ao exterior e trazer ao seu interior alguma qualidade de vida.
A obra física perspectivada pelo projecto Bairros Críticos é ainda diminuta, embora a escola primária esteja a ser alvo de uma intervenção e já hajam ruas, poucas, alcatroadas e recolha de lixo no bairro.
Ao longo dos anos várias associações têm trabalhado em conjunto para criar respostas sociais neste bairro habitado maioritariamente por africanos, e que convive diariamente com o problema dos baixos rendimentos e do desemprego.
Há 25 anos no terreno, a associação Moinho da Juventude assume-se como um projecto comunitário e tem trabalhado diversos projectos a nível social, cultural e económico, envolvendo os moradores e sobretudo os mais jovens do bairro.
Segundo Godelieve Mersshaert, responsável da associação, a nível social o programa Bairros Críticos trouxe alguns projectos ao bairro, embora considere que muito desse trabalho já esteja a ser desenvolvido pelas associações há vários anos.
A responsável entende assim que, importante será a resolução das questões da propriedade do terreno onde está inserido o bairro, e a requalificação que depende do desenvolvimento do Plano de Pormenor.
Enquanto a requalificação do bairro não arranca, moradores como Jacinto Ferreira, que perdeu as duas pernas há 27 anos, continua a não poder sair de casa, uma vez que a degradação das ruas não permite a circulação em segurança de cadeiras de rodas.
Com a tão esperada requalificação, moradores como Emílio Teixeira, presidente da Comissão de Moradores da Cova da Moura, aguardam por melhores condições das ruas, arruamentos mais limpos e melhores condições de saneamento, água, luz e gás canalizado.
O estigma vai diminuindo, os moradores garantem que já não se houve falar das “grandes operações policiais” que aconteciam há alguns anos.
Neste bairro começam a prosperar negócios como a venda do grogue (aguardente de cana) Santo Antão, que João Rocha importa de Cabo Verde e que exporta para a Holanda e o Luxemburgo, e que é alvo de procura de muitos visitantes que se deslocam à Cova da Moura para o comprar.




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