Manoel de Oliveira revê filme que o levou à prisão
O episódio ocorreu durante uma conversa que Manoel de Oliveira teve durante a apresentação, no Porto, do filme que reproduz a representação popular da Paixão de Cristo, na aldeia da Curalha, em Chaves.
“Tive problemas com a PIDE porque a PIDE não era propriamente religiosa. Fazia parte da defesa de uma ditadura feroz e eu era contra essa ditadura e manifestei-o numa conversa”, contou à Lusa.
Foi o suficiente para ser preso e levado pela polícia política do regime de Salazar para a prisão, em Lisboa.
“Passei lá uns dez dias, ou coisa parecida, mas depois houve um movimento forte cá fora e eu vim para fora ao fim desse tempo. Mas foi uma experiência”, recordou.
Quase meio século depois, o realizador, prestes a completar 102 anos, aceitou o convite de António Preto, um jovem transmontano estudioso de cinema, que está a trabalhar numa tese de doutoramento sobre a literatura no cinema de Oliveira.
Manoel de Oliveira considera o jovem “um amigo” e “uma pessoa que entende bem” o seu cinema e, por isso, acedeu imediatamente ao convite.
António Preto é o responsável pelo ciclo de cinema “As Vozes do Silêncio- Trás-os-Montes no Cinema e no Museu”, que arrancou na quarta feira e mostra, até sábado, oito filmes de alguns dos mais importantes realizadores portugueses, no museu Abade de Baçal.
O Ato de Primavera de Manoel de Oliveira preencheu a sessão de quinta feira à noite e o realizador falou com o público, que esgotou os lugares sentados nos jardins do museu, sobre o filme que demorou dois anos a concluir.
Como explicou, não teve de “escrever coisa nenhuma, pois já estava tudo escrito” e os atores foram gente que por tradição representa todos os anos, na Páscoa, a Paixão de Cristo, um auto da Idade Média conservado em algumas aldeias remotas transmontanas”.
Meio século passado, dificilmente conseguira encontrar “tanta gente para tão elevado número de personagens” nas desertificadas aldeias transmontanas.
A observação é feita por António Tiza, um estudioso das tradições transmontanas que voltou a ver o filme que já tinha visto, assim como já assistiu à representação deste teatro popular ao vivo.
Mesmo que a tradição se perca, António Tiza considera que o filme de Manoel Oliveira “é um registo que fica, um documento histórico”.
O responsável pelo ciclo de cinema lamenta a falta de apoio, nomeadamente da Câmara de Bragança, que, com uma verba “irrisória” teria permito projetar os filmes em 35 milímetros, ou seja em película e não na solução alternativa de DVD que teve de ser adotada.
Ainda assim, está satisfeito coma adesão do público a esta iniciativa que desafia a ver “os diferentes Trás-os-Montes no cinema e no museu”, com um acervo dedicado à identidade transmontana.
Em Bragança, Manoel de Oliveira não quis falar de projectos para o futuro, dos quais disse que falará em Veneza (Itália) para onde parte dentro de dois para apresentar, no festival de cinema, “Painéis de São Vicente de Fora - visão poética”.






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