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Entrevista

Filipe Carvalho e as 'Gotas de Alma'

01 | 02 | 2008   12.58H

É difícil conciliar o curso de Gestão com a profissão de actor?
Neste momento estou um bocado desligado da Gestão. Estou a acabar o curso de actores da Act. Já tinha feito mais ou menos um ano e meio de formação com o Rui Luís Brás, João Cayatte e João Brites. Inscrevi-me no curso profissional, fui aceite e neste momento já estou a finalizá-lo.

Em relação à pergunta, fui obrigado a tomar uma decisão e acabei por deixar um bocado de parte o curso de Gestão, embora me faltem poucas cadeiras para terminar, mas o que realmente quero seguir é representação. Não é complicado conciliar. Mas se fizesse as duas coisas ao mesmo tempo, sim, seria muito complicado. Mesmo relativamente aos trabalhos que aparecem enquanto actor. Nunca sabemos a que horas vamos acordar, a que horas nos vamos deitar, é muito complicado.

Como actor, das diversas formações, qual sentiu ser a mais relevante?
Essa pergunta é muito complicada. A formação de um actor está, acima de tudo, na vida. Naquilo que nos rodeia... costumo dizer que se os actores pudessem escolher como é que esta profissão seria para eles, aconteceria algo do género: «agora vamos viajar durante um ano para aprendermos muito porque tem de se contactar com pessoas, com coisas e relacionar tudo». Em termos concretos, todas as formações foram importantes.

Ao fim de um ano, o Rui Luís Brás foi um professor que me fez tirar a alma cá para fora. Já tinha feito alguns trabalhos como actor, mas ele é um óptimo professor e conseguiu pegar na minha alma e pô-la cá para fora. E também foi das primeiras pessoas que apostou em mim, em peças de teatro e noutros projectos em que me envolveu mais tarde.

Mais ao nível de cinema, o João Cayatte foi bastante importante, porque isto não é só ter talento e representar, é preciso técnica. Só para ter uma ideia, em Hollywood existem formações de como pestanejar, como mover as sobrancelhas, como mexer a boca... mesmo sem diálogo. Adoptei muito as técnicas do João Cayatte e aquilo que ele me ensinou para cinema. Por exemplo no Gotas de Alma.

Quanto ao João Brites, vamos tocar num nome de um grande guru. Toda a gente sabe quem é ou pelo menos deveriam saber uma vez que ele vai ficar na história do teatro. O João Brites foi muito importante - e continua a ser, neste momento estou num projecto dele no Bando - na questão da interioridade e corporalidade, da alma, do actor e de tudo o que isso envolve. Muito importante.

Também tem habilidade vocal. Gostava de enveredar pela música mais a sério?
Gosto muito de cantar e gosto muito de música. Já tive alguns professores ao nível vocal, mesmo por opção. Aliás, representar também envolve um bocado cantar. Imagine que um dia me metem num musical. Tenho de saber como colocar a voz, tenho de ter algumas noções básicas de como ler pautas, etc. Mas sim, gostava muito de cantar.

Portugal não tem tradição em filmes biográficos de artistas musicais, mas quem sabe se um dia far-se-á um que conte a história dos Xutos & Pontapés.
Por exemplo. Só o futuro o dirá, mas era muito interessante. Até porque gosto de cantar.

Como actor, qual é o seu universo predilecto: televisão, teatro, cinema ou publicidade?
Muito sinceramente? É o cinema.

É também aquele que em Portugal está mais desfalcado.
Exacto, infelizmente. Mas isso era uma conversa para durar horas. Desses, o cinema é o mais complicado. Está em cima de um palco a fazer teatro e tem, forçosamente, contacto com o público. Consegue passar-lhe a energia directamente e receber a energia dele. Já dizia uma grande senhora que o actor tem de ser côncavo e convexo. Côncavo para receber e convexo para emitir. A televisão também é muito interessante, mas cinema é, sem dúvida, aquilo que mais me agrada fazer.

É tudo muito cuidado...
E muito complicado. Temos de ir buscar a emoção que fizemos num take há uma semana. É muito interessante. Gosto muito de cinema e fazer cinema agrada-me imenso.

Fale-me da longa metragem A Escritora Italiana.
Está previsto estrear este ano, não sei ainda quando. Já existe um blog e o site. O filme retrata a história de um rapaz que é padre (envolve um bocado a Opus Dei) e que encontra numa estação de comboios uma rapariga que vem a Portugal à procura do grande amor da vida (Simone de Oliveira) do pai. A rapariga é a Julia (Lúcia Moniz) e o rapaz é o Joseph (Diogo Morgado). Entretanto a história do Joseph é muito ambígua. Porque nunca se chega a perceber porque é que ele é da Opus Day. Porque é que ele tem aqueles sentimentos todos contraditórios. Isso é explicado pela infância dele. O Joseph tem imensos flashbacks da infância dele. Ele tem imensos sentimentos recalcados porque o pai dele o violava. Tinha aqueles rituais do antigamente de se chicotear, o silício na perna...

Parece algo emotivo e forte.
Sim, A Escritora Italiana foi muito importante para mim, porque foi o primeiro trabalho em cinema que fiz. As filmagens decorreram em 2004. A participação tem uma carga emotiva muito grande e deu para perceber algumas coisas. O que é isto de estar em cinema, será que é este o caminho que tenho de escolher? Foi muito importante em nas decisões que tomei... nada acontece por acaso. Deu-me muito prazer fazer este filme.

Fale-me da curta Gotas de Alma.
É um filme muito interessante que foi muito importante para mim... até me estou a arrepiar... porque a construção do personagem foi muito interior. Tudo o que é clichés não há, porque construo o personagem, já disse isto ao realizador, com base numa cena que li logo no guião. Uma cena muito parecida com outra do filme Alice em que o Nuno Lopes rasga as fotografia todas da parede.

Neste filme existe uma coisa parecida que tem uma carga muito grande. Gotas de Alma conta a história de um rapaz que descobre, a determinada altura da sua vida, que não é heterossexual, que é homossexual. Agora, este não é um filme gay. É um filme que trata a atracção entre o ser humano. Não é entre homem-homem ou mulher-mulher, não tem nada a ver com isso. É muito mais interior do que «agora gosto daquela mulher, porque é bonita...» não tem nada a ver com isso. Tinha de ter uma carga muito grande. Todas as cenas deste têm uma intensidade muito grande. Aliás, o filme, deixa as pessoas sempre agarradas à cadeira porque nunca tem uma fase... está sempre no clímax, quase. Nunca chega bem lá. É muito interessante.

Trabalhei com actores muito interessantes, no sentido de contracena, etc. Porque isto de representar também depende muito da contracena, como o Eduardo Frazão, o Ruben Garcia, a Leonor Seixas e o Marco Costa. Gostei muito de fazer o filme, até pelo personagem. Normalmente o tipo de papéis que aceito fazer e o tipo de trabalhos que aceito e que procuro são trabalhos que têm muito a ver com o interior, com a alma, personagens mais densos que arrepiem o espectador. Quando estou a representar faço-o para um miúdo de 4 anos e para uma senhora de 80. Tenho de lhes tocar e de conseguir arrepiá-los... ter essa responsabilidade é muito motivante, mas exige muito trabalho e técnica. Muito estudo, leitura e pesquisa. É um bocado por aí.

Que futuro se antevê para a curta?
Antes de estar concluída, vários produtores londrinos quiseram ir buscar a curta metragem para passar no cinema. Há inclusive um teaser com legendas em inglês. A curta já roda pelos festivais, recebendo críticas muito boas. Em Portugal nunca foi feito um filme assim. Foi muito complicado fazer este filme. Portugal ainda está fechado em determinado tipo de coisas.

O filme teve apoios ou foi feito à base de carolice e faça-você-mesmo?
Passando um bocado pelas leis do cinema em Portugal, infelizmente, o filme não teve apoios rigorosamente nenhuns ou quase nenhuns. Por duas vezes o filme esteve quase a ser cancelado. No projecto, houve muita força de vontade minha e de algumas pessoas que trabalharam comigo e que acreditavam no projecto, e queriam levá-lo para a frente. Infelizmente o cinema em Portugal está pouco desenvolvido e os portugueses também não têm propensão para ver um filme no cinema. É mais fácil ligar a televisão.

O filme contou com poucos apoios. As pessoas quando querem uma coisa realmente e quando querem trabalhar num projecto e quando amam aquilo que fazem e quando se dedicam sem dormir e muitas vezes sem comer, as coisas conseguem-se. Agora é preciso trabalhar muito, dedicar-se muito. Felizmente isso aconteceu. E mesmo na minha carreira de actor as coisas têm funcionado assim.

Projectos para o futuro.
Este ano entrarei na peça Os Vivos como personagem António, no teatro O Bando. Haverá uma espécie de digressão com a peça, em que vou estar envolvido. Farei outra peça de teatro que se chama Eu, eu apenas eu, em que faço um personagem que é um toxicodependente que o pai morreu com sida. Um personagem com uma carga assim bem pesada. Há também um monólogo em que em princípio virá para o CCB. Fui convidado para integrar uma companhia de teatro com algumas pessoas conhecidas da praça. Existem outros projectos em cinema, mas que ainda não se podem revelar.

Filipe Pedro | fpedro@destak.pt
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