A batalha do Rio de Janeiro
por Fábio Santos | Director do Destak Brasil
Na semana passada, o governo do Rio de Janeiro desferiu seu mais duro golpe contra o tráfico de drogas que domina cerca de 450 das 1020 favelas da capital do Estado. Na quinta-feira, com o apoio de blindados cedidos pela Marinha, 150 homens da Polícia Militar, mais 200 da Polícia Civil e 30 fuzileiros navais tomaram a Vila Cruzeiro, que faz parte do chamado complexo de favelas da Penha, onde vivem cerca de 400 mil pessoas. As cenas de guerra urbana foram mostradas ao vivo pelos canais de TV.
Com o avanço das forças de segurança, cerca de 200 traficantes fugiram da Vila Cruzeiro e se refugiaram no Complexo do Alemão, um conjunto de favelas com também perto de 400 mil habitantes. Na sexta, com o reforço de mais 900 homens do Exército, a polícia cercou a área e convocou os criminosos a se renderem. A maioria depôs as armas, mas não se entregou. Foram feitas apenas 20 prisões e houve três mortos. Os demais simplesmente voltaram a ser "civil". Alguns escaparam por tubulações de esgoto.
O uso de tropas militares experientes em operações no Haiti, onde o Brasil compõe o principal efetivo das forças de paz da ONU, e blindados foi o que permitiu o sucesso da ação. Com eles, foi possível levar policiais a pontos estratégicos da rede de vielas e becos que formam as favelas. O Exército já havia sido usado em ações de segurança pública no Rio, mas pela primeira vez houve um trabalho tão coordenado com a polícia.
Estopim
A batalha pela Vila Cruzeiro, onde há um ano um helicóptero da polícia foi abatido pelos bandidos, e pelo Complexo do Alemão foi deflagrada por um erro estratégico dos próprios traficantes. Há pouco menos de duas semanas, grupos de criminosos deflagraram uma onda de terror na cidade. Mais de 100 veículos foram queimados e houve pelo menos sete arrastões - ações em que ruas são fechadas e motoristas são assaltados em série.
A onda de ataques, segundo afirmou o governador do Rio, Sérgio Cabral, seria uma reação à política de segurança inaugurada há um ano, a instalação das chamadas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) em favelas antes dominadas por traficantes. Até agora, foram criadas 13 delas.
O problema, apontam analistas de segurança, como o ex--secretário nacional de Segurança Pública e antropólogo Luiz Eduardo Soares, é que a criação das UPPs não significou a desarticulação do tráfico e prisão dos criminosos.
A venda de drogas continuou, apenas de forma menos explícita e talvez menos lucrativa. Muitos dos traficantes apenas fugiram para outras favelas, principalmente para o Complexo do Alemão. De acordo com fontes da polícia ouvidas pelo Destak, no último ano o número de traficantes por lá teria triplicado.
Mesmo assim, os bandidos resolveram reagir. O Comando Vermelho e a Amigo dos Amigos (ADA), duas das três facções criminosas que dominam o tráfico no Rio (a outra é o Terceiro Comando), uniram-se e lançaram a onda de ataques. Ao fazê-lo, forçaram o governo do Estado a antecipar um confronto que vinha sendo adiado. As UPPs até agora vinham sendo instaladas nas favelas mais fáceis de serem ocupadas.
Próximos alvos
A classe média, amedrontada pelos ataques, e os moradores das favelas, cansados do domínio violento do tráfico, aplaudiram a ação das forças de segurança. No domingo, carros da polícia eram aplaudidos nas praias da zona sul carioca. Até mesmo pais de traficantes apoiaram a ofensiva e denunciaram seus filhos, entregando-os à polícia.
Diante da reação popular e da necessidade de manter a pressão sobre os grupos criminosos, o governo do Estado já anunciou que os próximos alvos são a Rocinha e o Vidigal. «Não tem volta», declarou o secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame. O fato é que, apesar do espetáculo das cenas de guerra, da apreensão de mais de 40 toneladas de drogas e da tomada de fortalezas do tráfico, até agora houve 118 prisões, e o exército dos criminosos é bem maior que isso.







2 comentários
Lá se vai o "nosso negócio" à vida . . . !