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Margarida Gaspar de Matos

Adolescentes portugueses estão (muito) bem, obrigada!

15 | 12 | 2010   11.00H

Em que consiste, exactamente, este estudo?

É um estudo internacional que tem como objectivo estudar os comportamentos dos jovens em idade escolar (6º, 8º e 10º anos), associados ao risco e à protecção (ex. consumo de tabaco, álcool e drogas; violência, mas também alimentação, prática desportiva, lazer, relação com a escola, com os pais, sexualidade). Inclui também a percepção de bem-estar físico e psicológico e as expectativas de futuro. Investiga, ainda, os contextos onde as coisas se passam, escola, família, rua, comunidade.

Realizado de quatro em quatro anos, permite ir percebendo a evolução dos problemas?

Exactamente, e permite ter indicadores para avaliar medidas de intervenção política de carácter educativo e da saúde. Com base nestes dados podemos dar indicações a pais, professores, técnicos de saúde e políticos sobre a situação do País e comparar Portugal com os outros 44 países estudados, e também aí perceber a evolução.

Os dados de 2010 indicam que a maioria dos jovens portugueses, pelo menos até aos 14 anos, em média, estão bem e recomendam-se?

Sim. Há dados muito positivos e alguns ainda não tão positivos, mas não há nenhum indicador que esteja claramente pior do que em 2006. O consumo de tabaco continua a baixar, há uma ligeira diminuição do número de jovens que iniciam a sua vida sexual até ao 10º ano, e os que o fazem cada vez mais usam preservativo; há uma estabilização de outros consumos. Percebe-se uma diminuição dos alunos envolvidos em lutas na escola, uma grande diminuição dos alunos que reportam ser vítimas de bullying.

Se tivesse de apontar um dado que a espantou, que destacava?

A subida incrível no nível de escolarização dos pais destes alunos nos últimos quatro anos. E o facto de, apesar de quase todos os alunos terem computador, não acontecer uma subida desastrosa do número de horas por dia em que este é usado, como poderíamos temer…

Não há o risco de respostas politicamente correctas?

Sim, há, mas por um lado quando falamos de amostras com mais de cinco mil jovens, sorteadas de escolas de todo o País, não podemos acreditar que possam combinar entre si 'viciar' as respostas na mesma direcção. Por outro lado temos modo de detectar inconsistências, respostas com padrão sistemático (questionários só com 'Sim' ou só com 'Não'), ou com muitas respostas em branco. Esses são excluídos, mas são menos de uma centena. Para além disso a evolução dos dados é plausível, segue um padrão que não nos parece "errático" e evolui num paralelo em todos os países. Temos confiança nos nossos resultados.

E os resultados levam-na a concluir que os problemas que se inventam para os adolescentes não são realmente os deles. Projectamos os problemas dos adultos nos mais novos?

Parece que sim, e a questão da violência, por exemplo, parece-me paradigmática. O fenómeno da violência nas suas várias formas e enquanto regulador do convívio entre as pessoas deixou de ser aceitável e as pessoas não valorizam esta prática (ainda que algumas a usem). Daí que todos os incidentes tenham passado a ser notícia, o que dá a ideia de um aumento que na realidade tem mais a ver com um aumento da nossa preocupação e rejeição da prática do que do fenómeno em si.

Os alunos dizem que a escola não é um lugar violento. Os professores confirmam?

Fizemos questionários paralelos a quase 500 professores e a mais de uma centena de directores e todos dizem que a maior parte das escolas portuguesas não têm problemas no âmbito da violência. Podia fazer-lhe um descritivo seme-lhante para a questão da sexualidade.

Diminuíram os fumadores. Deixou de estar na moda?

Foi feito muito trabalho neste sentido, não só a nível do comportamento em si, como do produto, e da legislação, e os resultados começam a estar à vista. Mas é preciso cuidado, porque quando as coisas estão a resultar devem tornar-se «cultura», se não um dia destes temos uma «recaída». Os (poucos) alunos que fumam ainda fumam há pouco tempo e, nesta fase de 'namoro' com o cigarro, não estão nada motivados para deixar, por isso têm a (falsa) ideia de que só não deixam porque não querem. A questão é que se quiserem, têm mesmo de ser ajudados e urge uma implementação massiva de consultas e outras acções de apoio.

A grande maioria destes adolescentes não bebe, não consome drogas, mas tudo muda à medida que crescem. Porque deixam de estar protegidos?

Estamos a tentar perceber. Verificámos na nossa amostra que quanto mais velhos mais consumos e foi por isso que este ano incluímos também os universitários para ver em que idade os consumos estabilizam ou começam a diminuir. Vamos ter esses dados em Abril de 2011. Como intervenção e associada a estes estudos temos um grande projecto «UTL saudável», desenvolvido com o apoio da reitoria da Universidade Técnica de Lisboa, com medidas de prevenção e consulta nos serviços da Acção Social da UTL.

Apresentaram, também, o estudo à Saúde Sexual dos universitários. A maioria já teve relações sexuais (a partir dos 16 anos). Correm muitos riscos?

A grande maioria usa preservativo. Preocupante são os (poucos) jovens do 6º ano que já tiveram relações sexuais, porque são justamente esses que menos usam o preservativo, o que remete para o perigo e complexidade dos antagonistas à educação sexual em casa e na família. São justamente os mais novos os que correm mais risco e os que piores consequências terão de uma sexualidade desinformada e desprotegida.

Os rapazes indicam que se iniciaram muito mais cedo do que elas. Como? Com raparigas mais velhas?

Faço muitas vezes essa pergunta aos alunos quando falo com eles nas escolas, porque este facto já ocorre desde 2002, o primeiro ano em que temos dados sobre sexualidade, na sequência da parceria com a Coordenação Nacional do VIH/sida. O que eles/elas dizem é que talvez os rapazes sejam demasiado generosos em relação ao que consideram ter tido relações e com as meninas acontece o inverso. Outros dizem que os rapazes podem iniciar as relações sexuais com meninas um pouco mais velhas, outros referem que algumas jovens sexualmente activas têm vários parceiros sexuais. E há os que falam de relações sexuais entre rapazes, ou que considerem a masturbação uma relação sexual. Penso que deve ser o conjunto destas explicações.

A maioria dos universitários sexualmente activos são-no no contexto de uma relação estável, muitas com mais de dois anos. Desmente a ideia de que saltam de relação em relação?

Provavelmente os adultos, mais uma vez, projectam os seus próprios problemas e angústias nos «problemas da juventude». Há hoje, como penso que sempre houve, um número reduzido de jovens com vários parceiros sexuais. Ainda hoje, a nossa cultura faz-nos olhar para estes jovens de modo diferente consoante são mulheres ou homens, mas a verdade é que é um grupo em risco, não pela multiplicidade de parceiros em si, mas pelo aumento de probabilidade da prática de sexo não protegido.

Mas os rapazes têm comportamento de maior risco?

É mesmo assim, embora fique sempre perplexa com este facto recorrente em várias das suas vertentes. Estamos a tentar estudar a diferença de géneros, e neste estudo vamos incluir uma vertente biológica, usando técnicas de avaliação neurofuncionais e hormonais, e pondo em conjunto um grupo de psicólogos, médicos, educadores, engenheiros e webdesigners. Assim haja financiamento e terá resultados em 2012.

As raparigas têm o "risco" acrescido de uma gravidez, o que as torna mais conscientes?

Uma gravidez não planeada aconteceu em 4% das nossas universitárias, levando a uma interrupção em 3%.

Defende que a educação sexual nas escolas tem sido importante. O que lhe permite conclui-lo?

Por um lado eles próprios o dizem, depois protegem-se mais, não só usando o preservativo como referindo que se sentem capazes de negociar «ter relações» ou recusá-las, se não quiserem ou se o preservativo não for usado. É importante salientar que a maior parte das relações sexuais aconteceu por escolha e não por coacção. Mas os jovens continuam a preferir os amigos para falar destas questões. Os pais têm, segundo os próprios filhos, um papel reduzido, bem como os professores e os técnicos de saúde. Na população universitária, quando já se dirigem a um serviço de saúde, preferem o médico. Precisávamos de reflectir sobre estes dados em vez de entrar numa disputa estéril sobre a necessidade da educação sexual.

Isabel Stilwell | editorial@destak.pt
Foto: Rowan Seddon-Harvey
Adolescentes portugueses estão (muito) bem, obrigada! | © Rowan Seddon-Harvey

10 comentários

  • é claro que os filhos desta senhora não estudam na escola da apelação , se isto fosse só nas escolas de barreiro , almada , baixa da banheira , loures , amadora , o resultado seria diferente , porque será ?
    1143 | 10.01.2011 | 11.41Hdenunciar comentário
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  • cara Grácia Nunes, achas q nos cursos de cozinha também se aprende a plantar árvores? ganhe juizo. o computador não é um bicho, é uma ferramenta. e cria relações, não destrói. apenas o faz de outra maneira, com menos bebedeiras.
    ana borges | 03.01.2011 | 12.13Hdenunciar comentário
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  • Já agora aproveito para dizer que principalmente nos cursos tecnico-profissionais de informática seria importante não se limitarem a ensinar a usar um computador, mas também a usá-lo com moderação e equilibrio com outras actividades saudáveis... Em casa, nem sempre os pais o conseguem.
    Grácia Nunes | 27.12.2010 | 01.49Hdenunciar comentário
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  • Não sei como chegaram à conclusão de que os adolescentes não abusam do tempo on line... Por acaso instalaram sistemas de videovigilância em casa de cada um? É que se lhes perguntarem apenas, eles mentem com todos os dentes... Sei do que falo!!!
    Grácia Nunes | 27.12.2010 | 01.41Hdenunciar comentário
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  • finalmente alguém que lhes foi perguntar em vez de andar a inventar. destaco o facto de já haver alunos sexualmente activos aos 11 anos (6º ano) e serem esses que menos usam o preservativo. isso só prova que é necessário que sejam bem informados desde novos, para não correr riscos. já no meu tempo havia alunos sexualmente activos com 11 anos e por vezes também com 10. mas muito menos informados.
    nuria santos | 16.12.2010 | 11.08Hdenunciar comentário
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  • Isto é tudo muito giro. Mas vamos ser realistas, os adolescentes em Portugal, não têm futuro.
    Gonçalo | 15.12.2010 | 16.21Hver comentário denunciado
  • Cada vez mais bêbedos, mal educados e drogados, e estão bem? Estas madames entachadas não se mancam, mesmo.
    Joel Ferreira | 15.12.2010 | 14.45Hver comentário denunciado
  • É a lei da vida . . . !
    - Dos 10 aos 15, só descasca banana . . . !
    - Dos 16 aos 20, só come porcaria e ainda ri . . . !
    - Dos 21 aos 30, só come tudo o que aparece . . . !
    - Dos 31 aos 50, escolhe bem o que quer comer . . . !
    - Dos 50 aos 60, fala mais do que come . . . !
    - Dos 61 aos 70, canta, canta, mas não come nada . . . !
    - Dos 71 em diante, Condor . . . !
    Condor aqui, Condor ali . . . !
    alexandre barreira | 15.12.2010 | 14.18Hver comentário denunciado
  • Santa paciência!... então vêm falar do problema dos adolescente até aos 14 anos, a grande maioria deles ainda esta debaixo das sais da mãe! Vão brincar às estatísticas e estudas para vossa casa e vão dizer que "adolescentes protugueses estão (muito) bem, obrigada!" para vossa casa também, não num jornal a quem tem acesso imensa gente de muito mais categoria do que esses sobre os quais aqui fazem estas notícias.
    COMENTÁRIO REPROVADO? | 15.12.2010 | 13.35Hver comentário denunciado
  • 15.12.2010 | 11.26Hcomentário reprovado
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