Fila da Frente

O estranho mundo de Sr Watson

26 | 04 | 2011   17.20H

Aula Magna cheia em fim de dia feriado, para a despedida de Patrick Watson de Portugal, após uma mini-digressão de 4 concertos no nosso país. Aula Magna cheia para novo concerto cúmplice, mágico, como sempre único num registo ‘tinha de lá se estar’, como sempre um pouco estranho, de uma banda que é também um mundo de fantasia musical, cénica e emotiva.

Patrícia Naves | pnaves@destak.pt

O regresso do grupo canadiano a Portugal está agora oficialmente adiado por tempo indeterminado, tendo os próprios anunciado no facebook ser este o ‘último espectáculo por uns tempos’ no nosso país, ao estar em vias de gravar o quarto disco. Talvez não só, talvez Patrick Watson, que veio quatro vezes a Portugal com os Wooden Arms em três anos, queira evitar qualquer tipo de saturação com o público português, o que aliás se revela num cuidado específico de trazer sempre um espectáculo diferente, com novos arranjos cénicos e musicais.

Desta vez, a novidade esteve um palco muito escuro e minimalista, com apenas esporádicas luzes fortes, a apostar nas sombras, acompanhado de um quarteto de cordas com três instrumentistas portugueses (os mesmos do SBSR) e uma parafenália de músicas novas, algumas nunca tocadas ao vivo, contámos cinco.

Logo o primeiro tema foi novo, uma música com uma enérgica parte rock quase a soar Pink Floyd, seguida da primeira incursão no disco Wooden Arms com Beijing, não sem antes Patrick explicar ser a tour por Portugal um desvio na gravação do novo disco (e uma paragem antes de um concerto com orquestra em Amsterdão). Havendo um lote de músicas novas, tempo também para pedir, com o sentido de humor habitual, para o público «ser simpático com a banda», caso delas não gostasse.

Não pareceu de todo o caso, como se provou por outro tema novo, «acerca de passar bons tempos», Patrick e a banda a parecerem divertir-se mais ainda do que habitual com as novas músicas, seguida de outra nova, desta feita «escrita num acampamento à volta da fogueira» com um bando de miúdos no Canadá.

Já longe do piano, onde Watson mais brilha a tocar com uma destreza quase poética, iluminado apenas por pequenos focos, o concerto entrou num momento descrito como ‘anos 40’, aposta em apenas voz e guitarra, com a banda toda e uma vocalista (uma das violinistas) literalmente em cima de um microfone semi-desligado, e Big Bird in a Small Cage. Jus perfeita ao refrão ‘You put a big bird in a Small Cage and he will sing you a song’, tanta musicalidade num espaço tão contíguo. Só aqui, e fora os expansivos aplausos no intervalo das músicas, o público perdeu a ‘vergonha’ de cantar e aplaudir a meio - já que foi uma constante no concerto, tão delicada e limpa que é cada interpretação, haver um silencio fortíssimo durante as canções, respeitoso, atento, retido.

O concerto prosseguiu com o habitual intercalar de momentos mais emotivos e intimistas com goles de cerveja, piadas e gargalhadas - às vezes a meio das músicas, risos de Patrick pelos seus próprios e mínimos erros -, a cumplicidade entre banda e público a crescer com uma rapariga a gritar «Faz-me um filho» e Watson a responder ‘ok!’, para logo explicar que não fazia ideia do que tinha sido dito mas esperava ser bom, ou teria anuído a uma ofensa.

Traveling Salesman, Drifters e outro tema novo, desta feita «sobre a banda e a estrada», chamado Anywhere, e uma das melhores sequências do concerto, com o arrepiante To Build a Home com Patrick a solo no piano, seguido de Luscious Life e Where the Wild Things Are, música baseada num livro de fantasia que às vezes parece fundir-se com o mundo da banda.

No encore, Great Escape e novos agradecimentos ao público português, que faz sentir o grupo «tão em casa tão longe de casa», uma brincadeira com tentativas falhadas de encores inéditos como Girls just want to have fun, seguida da promessa de um «encore especial» para a próxima vinda a Portugal; e ainda agradecimentos de Patrick à promotora habitual no nosso país, que serve também de cicerone à banda.

Quer com o público durante os concertos, como fora deles- sendo constantes fotos do grupo, conversas ou até saídas com fãs- a relação de Patrick Watson com os portugueses raia já a espécie de amizade e empatia cúmplice e quase visceral e cultural como já sucedeu no passado com outros grupos, cumprimentando o canadiano a sua audiência com carinho e com referências constantes a espectáculos ou encontros anteriores, no estimular da relação.

Após mais um tema novo, o último, e ainda Tracy’s Waters, seguiu-se o segundo encore, onde todos esperavam a habitual performance de Man Under the Sea no meio do público. Não chegou a acontecer, de novo talvez a necessidade estética de variar, mas deu lugar uma bela substituição: uma versão de Patrick a solo de "Between the bars" de Elliott Smith com dedicatória a Lhasa de Sela, (amiga e artista falecida há mais de um ano), com quem «cantava sempre esta música mas nunca aconteceu em Portugal, pelo que quis voltar para vos tocar». 'Drink up baby, look at the stars. I’ll kiss you again between the bars'. Uma prenda para Lhasa e a soar a especial para o nosso país, a voz do cantor mais apurada que nunca, mais misto de Jeff Buckley com Antony e ao mesmo tempo única; o último e talvez melhor momento da noite, numa emotiva e perfeita despedida.

O concerto foi antecedido por uma boa actuação do músico português Tiago Bettencourt, que experimentou canções novas do projecto intitulado "Tiago na Toca".

Foto: miguel meneses
O estranho mundo de Sr Watson | © miguel meneses
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