"Filha Rebelde"

«Os familiares do último director da PIDE deviam estar calados»

07 | 06 | 2011   12.39H

O histórico resistente antifascista Edmundo Pedro disse à Lusa compreender que os familiares do último diretor da PIDE/DGS queiram “limpar o nome da família” mas que não o deviam fazer “em tribunal” .

Destak/Lusa | destak@destak.pt

“Eles tinham era que estar calados com desgosto de terem na família uma pessoa com aquelas características, ser um assassino”, sublinhou Edmundo Pedro à Lusa quando questionado a comentar o processo judicial "Filha Rebelde" em que são arguidos dois ex-diretores do Teatro Nacional D. Maria II – Carlos Fragateiro e José Manuel Castanheira – e Margarida Fonseca Santos, autora da adaptação do livro de José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz para teatro e que conta a história da filha de Silva Pais que acabou por aderir à revolução cubana.

Eu “compreendo porque carregam com um fantasma que é o tio, de cujo procedimento não têm responsabilidade, isso é verdade. E querem limpar o nome da família que está terrivelmente manchado com a existência daquele malandro”, disse.

Para o histórico antifascista, preso e espancado e torturado várias vezes pela polícia política, os familiares de Silva Pais “não têm nada que se sentir assim tão ofendidos” com a imagem do tio.

“Porque é uma imagem sinistra e é pública”, observou, considerando que "era muito melhor ficarem calados, não dava tanto nas vistas”.

Edmundo Pedro é uma das testemunhas de defesa dos arguidos e deverá ser ouvido no dia 28 de Junho.

“Estou sempre disposto a dar testemunhos, eu fui realmente um dos muitos sacrificados pela PIDE (…) e sinto-me na obrigação de não me furtar a isso”, indicou.

“E se for preciso digo isto em Tribunal, porque lá [PIDE/DGS] os dirigentes e a maior parte daquela gente eram todos torcionários; era gente disposta a fazer os maiores crimes, sem dúvida nenhuma”, afirmou.

O processo - a decorrer no 2.º Juízo Criminal do Tribunal de Lisboa - foi interposto por familiares de Silva Pais por “ofensa à honra, à memória e ao bom nome” do último diretor da PIDE/DGS e da filha.

Em causa está a peça de teatro “A Filha Rebelde” - que estreou no D. Maria II em 2007, baseada na obra homónima dos jornalistas José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz – na qual algumas cenas atribuem ao último diretor da PIDE/DGS responsabilidades na “Operação Outono”, que culminou com o assassínio do general Humberto Delgado e a secretária em fevereiro de 1965, perto de Badajoz, Espanha.

Para Edmundo Pedro – militante do PCP deportado, juntamente com o pai, para o Tarrafal (Cabo Verde) aos 17 anos, onde permaneceu 10 anos em prisão preventiva, e mais tarde militante do PS - é inevitável que a peça atribua a Silva Pais a responsabilidade do assassínio do “General sem Medo” ainda que não pretenda julgá-lo.

Tal como não duvida do significado de uma das expressões que deu origem à queixa: um alegado diálogo entre duas personagens que simbolizam Silva Pais e o inspetor Rosa Casaco em que o diretor da PIDE diz : “Abafem-me esse general”.

Já sobre o facto de a defesa dos sobrinhos de Silva Pais alegar que o útlimo diretor da PIDE não foi julgado nem condenado pelo assassínio do “General sem Medo”, Edmundo Pedro não hesita:

“Ele morreu antes de ter sido julgado, ele e outros; aliás os 'pides' foram tratados com muita benevolência”, lamentou.

“Eu sou contra o espírito de vingança, nunca fui movido pelo espírito de vingança, o que me moveu foi sempre o espírito de justiça, e acho que não foi feita justiça em relação àqueles que foram vítimas da PIDE”, argumentou.

E mostra-se convicto de que Silva Pais "tinha conhecimento" de todas as práticas daquela polícia política assim como da “Operação Outono”.

A próxima sessão do julgamento está marcada para hoje com as audição das testemunhas, Valdemar Cruz, um dos autores do livro "Filha Rebelde" e Berta Silva Pais Ribeiro, sobrinha do último diretor da PIDE DGS.

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6 comentários

  • «Os familiares do último director da PIDE deviam estar calados», Concordo plenamente. Sei k em todos os regimes há repressão, ou mais ou menos,Sou do tempo de Salazar, nunca fui preso, lembro-me que desconfiava de todos, desde a cama, jantares, convivios, igrejas, confissões, em tudo, era uma desconfiança completa. Não sou de esquerda nem de direita, não gosto dos políticos. Há pessoas bons em todos os quadrantes. Bem hoje posso falar assim, antigamente, NÃO, por enquanto... Admirei todos aqueles que lutaram pela LIBERDADE. Pena é que viessem os ABUTRES... FDias
    F. Dias | 11.06.2011 | 16.38Hdenunciar comentário
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  • Por este andar, ainda havemos de ver, o Hitler canonizado, e Silva Pais, beatificado, porque pelos vistos a familia, deve pensar que foi um bemfeitor que as gerações de então, conheceram á face da terra. Ou então o cinismo é tão grande, como a ganancia.
    Os que sofreram as seviçias, que ele e outros como ele mandaram executar, só desejam que esses individuos apodreçam no inferno.
    Alberto Sousa | 08.06.2011 | 04.40Hdenunciar comentário
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  • Eu já disse antes, e por mais que uma vez, que até desconheço a peça e que para a construir se calhar até se podia evitar a citação de nomes concretos (que como já disse, nem sequer sei se é o caso).
    Que o sr., Silva Pais enquanto director da extinta PIDE/DGS teve responsabilidades nos métodos e fins daquela instituição, isso não haja dúvidas porque senão o próprio regime de então não o manteria lá. Agora o que os familiares querem, é branquear o nome de um responsável do fascismo, e primeiro que tudo querem é dinheiro. Isso sim, é como eles acham que vão "limpar o nome da família". Como se o Povo Português tivesse que aturar eternamente os princípios e métodos próprios de um regime que só durou o que durou pela força. Devim preocupar-se era em limpar a família do nome, ou, pelos vistos, de limpar o País dessa família. Mas o que eles querem é dinheiro. Tão boa família, tão honrada, nunca lhes terá ensinado que o dinheiro se ganha a trabalhar?
    Tchica | 07.06.2011 | 14.45Hver comentário denunciado
  • Quem decide se alguém é assassino ou não, num sistema democrático, são os tribunais. Pelo que ao que parece há por aí muitos anti-democráticos disfarçados de grandes-democratas.
    DEMO-CRACIA NÃO OBRIGADOS! | 07.06.2011 | 14.06Hdenunciar comentário
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  • Os familiares do Silva Pais, gostavam era de ser familiares do Hitler.
    Um Portugues | 07.06.2011 | 13.52Hver comentário denunciado
  • Portugal era forte e grande. Não havia a criminalidade nem a libernitagem juvenil , nem os gangs, nem os pol+iticos que só roubabam, como os que há hoje. Portugal tinha muito que evolír, sim, tal como os EUA ou a África do Sul, ou a República Popular da China, tinham muito que evoluir (e evoluiram ou não?) tinham muito que avançar socialmente, civicamente, políticamente e economicamente, e todos o fizeram sem ter de perder a sua essência, a sua força, o seu futuro. Só portugal perdeu estas coisas todas e não havia necessidade nenhuma, porqu os nossos filhos, netos e bisnetos, têm tamto direito à felicidade e à prosperidade como os deles.
    joão miguel | 07.06.2011 | 13.24H
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