«A falta de memória pode ser um sintoma de depressão»
Na semana em que se celebra o Dia Mundial da Saúde, a psicóloga Sandra Ginó explica-lhe o que é a memória e aquilo que a pode prejudicar. E convida-o a ir até à Expo Saúde 2008 saber em que estado está a sua. Para poder lutar por ela a tempo.
Isabel Stilwell / istilwell@destak.pt
O que é a memória - uma caixa cheia de gavetas, onde vamos arrumando o que vivemos?A memória traduz a capacidade de reter informação de uma determinada situação. Sem ela não teríamos passado, apenas o presente.
Porque lembramos algumas coisas e esquecemos outras?
A memória regista a informação de modo a ocupar o menor espaço possível, e o esquecimento faz parte dessa arrumação. Do ponto de vista emocional, seria complicado se o tempo não esbatesse algumas memórias que vivemos há 10 anos, porque seria como se as continuássemos a viver agora.
O que acontece no nosso cérebro quando temos «um nome mesmo debaixo da língua» que não sai nem por nada?
Este fenómeno revela a dificuldade na recordação de palavras que a pessoa conhece. O cérebro tem uma conceptualização ou imagem, mas que por uma qualquer alteração nas redes neuronais, não está a fazer ligação com a linguagem (léxico). Aí convém desviar a atenção para outra situação, porque a palavra acabará por surgir. Por vezes, esta situação ocorre com palavras que não são usadas com frequência, ou com os nomes de pessoas, um processo ainda mais complexo do que atribuir o nome a um objecto.
Em que consiste um «rastreio à memória», e o que pode revelar?
Com a idade surgem queixas de memória, sendo importante saber se fazem parte de um processo normal associado ao envelhecimento ou se traduzem um processo de deterioração cognitiva. Sabe-se hoje, por exemplo, que a depressão também afecta a memória, o que torna mais difícil o diagnóstico diferencial entre depressão, demência e envelhecimento.
Este rastreio consiste na aplicação de alguns testes breves que ajudam a chegar a uma conclu-são. Aplicamos uma escala de Queixas Subjectivas de Memória, que foca alguns aspectos relacionados com o funcionamento da memória no dia-a-dia, um teste breve de avaliação de estado mental, nomeadamente à memória, uma escala de depressão, que nos dá a ideia da presença, ou não, de sintomas deste tipo. Se houver indicação para tal, sugere-se à pessoa que faça um estudo exaustivo de todas as funções cognitivas.
À parte de doenças específicas, o que prejudica a nossa capacidade de memorizar, ou de ir buscar as memórias que armazenamos?
Existem vários factores que influenciam o desempenho da memória, como é o caso de alguns medicamentos ou certos estilos de vida que, provocando muito stress ou preocupações, tornam difícil registar informação nova. A ansiedade também é importante, porque interfere com os mecanismos de atenção, dificultando a codificação da informação. Da depressão já falamos.
O que podemos fazer para a mantermos em forma o mais tempo possível?Quando se fala da importância do exercício físico, não devemos esquecer que também é necessário "exercitar o cérebro". Estes exercícios de estimulação cognitiva passam por criar hábitos de leitura e escrita, motivar a capacidade de atenção, usar uma agenda ou bloco de notas, recorrer a mnemónicas, entre outros. O importante é encontrar estratégias para compensar áreas que possam estar diminuídas.
Porque é que os mais velhos recordam o que aconteceu na sua infância com mais facilidade, do que aquilo que comeram ontem ao almoço - porque lhes dá mais prazer? As memórias antigas (memória remota) estão consolidados e armazenadas em áreas diferentes em relação às memórias recentes. O que acontece é que o que fizemos hoje está em córtex cerebral e depois passa para o hipocampo (estrutura que permite a consolidação da informação), mas com o envelhecimento o cérebro vai sofrendo algumas alterações que dificultam este processo. No caso das demências, existe lesão do hipocampo e as memórias não ficam consolidadas.
Os suplementos para a memória servem para alguma coisa?
Julgo que a sua eficácia não está provada cientificamente, no entanto, em muitos casos têm efeito a nível emocional/psicológico.
Como está a memória dos portugueses? A memória dos portugueses provavelmente estará igual à dos outros países de idêntico desenvolvimento sociocultural. Os portugueses apresentam algumas queixas de memória que na sua grande maioria não correspondem a défices reais, mas estão antes relacionadas com os estilos de vida actuais e com as exi-gências que se nos colocam no dia-a-dia.




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