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A grande ilusão

31 | 05 | 2007   08.59H
João César das Neves | naohaalmocosgratis@ucp.pt

O Governo congratulou-se com a anunciada aceleração do crescimento, mas engasgou-se logo depois com a subida do desemprego. Se os ministros melhoraram a economia, porque esqueceram os postos de trabalho? Toda esta atribuição política de méritos e culpas é tolice. Não é o Governo quem gera crescimento ou empregos.

O Estado tem inegavelmente grande influência económica, mais que qualquer outra entidade individual. Mas tem muito menos efeito que todas as outras entidades juntas.

A dinâmica produtiva nasce de tantos agentes, factores, pressões e perturbações, que a acção do sector público se dissolve na economia, sobretudo a curto prazo.

Além disso, influência do Estado não significa vontade dos ministros. O orçamento, a lei e regulamentos dependem, também eles, de tantos agentes, factores, pressões e perturbações que a acção do Governo se dissolve na grande máquina administrativa.

A política ampara a grande evolução nacional, mas as autoridades estão inocentes das flutuações cíclicas. No entanto, serão castigadas ou louvadas por elas, porque assim o exigem os eleitores e o anuncia a sua própria retórica activista.

Esta é a grande ilusão da vida pública. Discursos e programas eleitorais prometem recuperação e anunciam empregos. Depois, o que se passa na reestruturação sectorial e no clima internacional é que dita a sorte económica.

Por isso tantos ministros, elogiados como mestres, caem quando mudou o vento económico, na vigência da mesma estratégia. Mas, mesmo quando punidos, nunca os políticos admitirão a verdade da sua impotência. A ilusão sustenta a função.

© Destak

2 comentários

  • Admiro a simplicidade com que nos expõe assuntos de tão grande complexidade. Parabéns por essa sua capacidade.
    Com certeza que o governo, sendo um dos muitos factores da economia, m influência no fluir desta. Mas a ilusão é uma realidade quando se espera que o emprego, ou as exportações, ou o PIB dependem das promessas eleitoralistas dos políticos. Este governo prometeu arranjar milhares de empregos, mas veio a verificar-se o contrário, aumentando o desemprego. É que estavam em cena os outros múltiplos factores que puxavam em sentido diferente. É realmente uma ilusão, embora o comentador anterior não queira crer.
    A. João Soares (Do Miradouro) | 31.05.2007 | 17.56H
  • Se a ilusão sustenta a função, não precisamos de governo. Venha a anarquia. Ora, Dr João, tenha paciência! É claro que o governo tem influência na economia. Os altos impostos, o preço da energia e dos combustíveis, as benesses fiscais, etc. tudo isto condiciona a economia e a vontade ou vontades de quem cria empregos. isto para não falar do investimento do Estado que directa ou indiractamente "puxa" as empresas.
    FB | 31.05.2007 | 15.22H
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