As couves do quintal
Acontece que sou médico. A clínica médica baseia-se na privacidade da relação interpessoal. Existe um gabinete, instrumentos simples, um processo e uma receita que se preenchem, discretamente, à mão. Ah, e também existiam recibos em papel. Um pouco artesanal, mas eficaz e humano. Foi sempre assim.Agora obrigaram-nos a passar tudo pelo computador. Dizem os administradores que se economiza não sei o quê. Não é em papel, pois nunca vi estragar tantos prints que vão para o lixo. Mas eles é que sabem, controlam-nos melhor e dão trabalho às indústrias de software e de reciclagem.
Lá aderimos aos computadores. É certo que os doentes queixavam-se de nos dedicarmos mais às máquinas do que a eles próprios, que a privacidade das informações pessoais passava para a internet, que a escolha dos medicamentos era cada vez mais formatada, mas que fazer? É o progresso! Mas as redes informáticas estão a funcionar mal, certamente congestionadas com este entusiasmo pelo progresso. O que vale são os velhos processos artesanais que, por precaução, ainda existem. Mas os recibos em papel já acabaram, e o portal das finanças tem estado inacessível. Muito bem, que falhem os recibos, ninguém morre por isso.Parece-me que o problema é geral. A excessiva adesão ao progresso está a congestionar o caminho. O melhor, então, é manter os velhos processos artesanais. E uma boa ideia é ir plantando nos quintais. Com tanto progresso, ainda vamos ter de recor-rer às couves do nosso quintal.






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