Em nome do filho
“Ema acreditava nos desígnios de Deus.
Não que fosse especialmente crente, ou sequer cumprisse com os mandamentos da Santa Madre Igreja.
Bem pelo contrário.
De igrejas, guardava apenas na memória as recordações da infância, a mãe que teimosamente continuava a usar o véu na missa de Domingo, a subir o adro de pedra, a empurrar as portas pesadas de madeira escura, qual comandante de um exército bem disciplinado.
Na sua cauda seguiam os cinco filhos. Impecavelmente vestidos, que a boa da senhora sempre tivera umas mãos de fada, e do pouco fazia muito.
Todos vestidos de igual, os calções e as saias de xadrez vermelho e azul, as camisas brancas, e quando o frio apertava, os casacos de malha que ela própria os fazia, as agulhas gigantes sempre a rodopiarem nas suas mãos secas.
Efectivamente, Ema abandonara a religião tão logo saíra a porta de casa de seus pais, ou mais exactamente, quando ela própria com o seu belo vestido de noiva com um enorme véu que cobria todos os degraus e parte do adro da igreja, os mesmos degraus e o mesmo adro que ela e os irmãos, em fila, dois passos atrás da mãe tinham em tempos percorrido todos os Domingos sem qualquer omissão.
Mas continuava a acreditar nos desígnios de Deus.
Mas continuava a acreditar nos desígnios de Deus.
A sua fé, se assim se poderia chamar, era perigosamente pagã.
Ema sabia desde criança ler as vozes do vento como se de uma partitura se tratasse.
De igual forma, olhava as nuvens e adivinhava-lhes as voltas, o desenrolar do desenho daquela espécie de linho branco, tão suave, tão puro”
In Em Nome do Filho, Editora Clube do Autor





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