Lixo e mais coisas
A história conta-se em duas penadas. Uma curta viagem de carro na companhia de uma criança, filha de um casal amigo, minutos antes de chegar à escola. Fumar ou não fumar, foi desde logo a questão. Tabagista incorrigível, optei por fazê-lo, mas não deixei de constatar o semblante reprovador da menina, por mais que não ousasse expressar verbalmente a sua censura. Pior foi quando atirei o invólucro dos cigarros pela janela do carro, depositando-o na via pública.
“Por que é que atiraste o maço para a estrada?”, foi a pergunta, carregada de reprovação. Expliquei-lhe que, em tese, toda a razão lhe assistia. O meu acto havia sido pouco civilizado, pouco ou nada urbano. “Estou a defender postos de trabalho”, expliquei. A miúda não entendeu. “Já pensaste que se tratássemos a rua como a casa de cada um de nós, os trabalhadores do lixo não tinham nada para fazer e, decerto, iriam para o desemprego, sobretudo no momento que atravessamos?”. Tratou-se da saída possível. Claro que com um pedaço de verdade, mas claro também que a minha atitude teve tudo de imperdoável, mais a mais sob o olhar atento de uma garota.
A Maria reagiu de pronto. E fez perguntas, muitas perguntas. Até deixou que lhe falasse na geração à rasca, nas desigualdades, nas injustiças, em Duarte Lima, em Dias Loureiro, noutras figuras controversas da actualidade. “Tu não entendes só de futebol?”, questionou na inocência dos seus 12 anos incompletos. “Percebo um bocadinho de outras coisas”, repliquei. “E não gosto nada do que tenho visto nos últimos tempos”.
Terei sido tão persuasivo assim? A Maria, à despedida, fez-me uma declaração, com ar severo, em jeito de promessa. “Vou começar a mandar coisas para o chão”. Disse-lhe que não, que tinha estado a brincar com ela, ainda que lhe falasse de coisas sérias, muito sérias. Achei-a convencida. Entretanto, no meio de tanto lixo, que ganhem os homens e as mulheres do ofício. Revoltado com o sistema, eu vou continuar a contribuir e penso que a Maria também. Mesmo sem atirar maços de tabaco para o chão. Mas sempre atirando firme contra as chagas de um regime desumanizado.




