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VENENO

Poupar no ensino é tragédia certa

16 | 05 | 2008   15.16H
Isabel Stilwell | editorial@destak.pt

As escolas tendem a cortar nos orçamentos dedicados ao ensino da arte, e o resultado vai ser desastroso em termos de sucesso académico. É esta a conclusão de um encontro internacional de neurologistas, acontecido na Universidade da Califórnia, e noticiado pela newsletter Brain Work, da Dana Foundation. Pelos vistos, não é só por cá que «fazer desenhos» é, muitas vezes, considerada uma actividade menor, que alguns professores «dispensam» como represália pelo mau comportamento dos alunos, porque ainda há muita «matéria» para dar, ou porque a matéria-prima é cara. Nem somos certamente os únicos pais que tantas vezes, muitas por compreensível exaustão, concluímos que os nossos filhos não têm sombra de talento e nos agarramos rapidamente a esta desculpa para não os levar e trazer do piano ou do ballet.

As conclusões dos investigadores, no entanto, garantem-nos que fazemos mal, porque «a prática da arte» é uma forma de alargar horizontes, e de ajudar o nosso cérebro, neste caso o deles, a desenvolver-se, tornando-se mais apto para todo o tipo de aprendizagem. Daí que o tempo aparentemente «perdido» nos desenhos, na dança ou no teatro, se «ganha» rapidamente em todas as outras matérias académicas, porque a massa cinzenta se torna, como um todo, mais capaz de digerir e assimilar informação. Os cientistas reunidos neste encontro, segundo dá conta a Brain Work, acreditam que este incentivo acontece porque a arte provoca mudanças nas conexões da atenção. Segundo explicam, as crianças interessadas por uma forma de arte querem invariavelmente praticá-la de forma intensa, e essa motivação estimula uma «atenção sustentada», que introduz mais eficácia nos circuitos cerebrais. Por outras palavras, o cérebro torna-se mais rápido e eficiente.

Michael Posner, da Universidade de Oregon, especialista internacional nas redes de atenção do cérebro, criou um jogo de vídeo destinado a estimular os mesmos circuitos que os exercícios artísticos, e deu-o a jogar a um grupo de crianças dos 4 aos 7 anos. Depois encheu-lhes a cabeça de eléctrodos e registou a actividade cerebral e as áreas activadas pelo novo estímulo. Tudo para concluir que depois de apenas cinco dias de treino, os seus «alunos» tinham melhorado consideravalmente a sua capacidade de atenção, e por isso mesmo de aprendizagem. O artigo não diz, mas apetecia perguntar, se os jogos da playstation, que tanto se ouve condenar, não terão o mesmo efeito... Lá concentrados horas a fio estão, e a intensa coordenação necessária entre os gestos e o pensamento é tão intensa, que desconfio que os neurónios acabam, de certezinha, mais afinados.

De todas as formas de arte, no entanto, a música parece ser aquela que mais efeitos tem sobre o cérebro, sobretudo melhorando a capacidade para a matemática, a geometria e a leitura. Uma criança que estuda música a sério (20 ou mais horas por semana), habitualmente brilha academicamente, sobretudo naquilo que implique uma visualização espacial e um pensamento abstacto. Embora os cientistas reconheçam que há um pequeno empurrão dos genes - os mais dotados parecem ter ligeiras variações nos genes que «doseiam» químicos como a serotonina e a dopamina -, quem não tem qualquer vocação para a música, e olha para uma pauta, ou vê alguém interpretar uma música de ouvido, não pode estranhar o diagnóstico. Se é verdade que o talento artístico se aprende e cultiva, acho que, mesmo o comum dos mortais, sem recorrer a imagiologia nenhuma, entende que a capacidade necessária para se ser um génio matemático, um arquitecto ou um filósofo, implica qualquer capacidade inata, que uns têm e outros não.

Quanto ao teatro, estimula, como se esperava, a memória verbal, mas a melhoria dessa «habilidade» estende-se e prolonga-se a outras áreas da aprendizagem. Da mesma forma que a dança torna mais fácil adquirir saber, através de uma experiência que correlaciona o corpo e a mente, como nenhuma outra. Observar, copiar, sentir e fisicamente experienciar, parece ser uma fórmula imbatível, e que, dizem os cientistas, a escola tradicional estupidamente põe de lado. Segundo a Brain Work, todas as semanas há notícia de mais uma escola ou liceu que deixou de ter uma área de artes, para a substituir por uma matéria que consideram mais «académica». O que revela, insistem, que o enfoque de quem define políticas educativas e orçamentos para a educação está a falhar o alvo. Sem arte, os nossos filhos não vão desenvolver todo o seu potencial, e o que é a educação senão uma tentativa de tornar possível que tal aconteça? Não se trata, no entanto, de tornar as crianças em macaquinhos amestrados, ou de utilizar a arte como um meio para atingir um fim - por alguma razão os mais dotados parecem segregar dopamina, a «droga» do prazer. Sem prazer associado, não há esforço, e a aprendizagem requer uma imensa persistência, que resista. Por isso premiamos com chocolate!

PS - Se estes temas o interessam, terá curiosidade em saber que se realiza no dia 31 de Maio, no Museu Soares dos Reis, no Porto, um Simpósio sobre Reflexões sobre Ciência e Arte (Hybrid - Reflection on Science and Arte), promovido pelo IBMC.INEP, através do projecto Ectopia. Para saber mais clique aqui.

© Destak

5 comentários

  • "Dêam"?!?! Incrivel ter a "lata" de fazer um comentário e escrever desta forma!
    A | 19.05.2008 | 09.02H
  • Gosto sempre dos seus artigos
    anónimo | 17.05.2008 | 14.18H
  • Se calhar, o melhor seria começar por aqueles que vêm para cima de nós falar da América e de estudos sobre a América como se isto por aqui até já fosse a América.
    anónimo | 16.05.2008 | 18.57H
  • Não é metade dos professores que deviam ser postos no olho da rua, é metade de portugal. O problema não é intrínseco dos professores. É intrínseco de portugal. Metade dos que cá estão andam a enganar outra metade. Ponha-os você na rua, ó Fernando da Costa!
    anónimo | 16.05.2008 | 18.55H
  • Todos os mais brilhantes conceitos sobre Educação do Mundo e arredores esbarram, em Portugal, com um problema dificilmente contornável: e professores para isso??? Eles mal sabem escrever - alguns nem isso! Querem fazer omeletes sem ovos? Não ponham metade dos professores no olho da rua e não dêam formação aos restantes e vão ver as brilhantes teorias da Educação.
    Fernando da Costa - Lisboa | 16.05.2008 | 15.28H
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