É tarde demais
É tarde demais para alterar todos os erros que fiz e que hoje vejo tão clara e nitidamente.
É tarde demais para te dizer o quanto te amei e ao fim de quase trinta anos a saudade morde-me o corpo todos os dias.
O cheiro ao teu perfume de lavanda aparece do nada e imagens de nós dois aparecem-me de repente como flashes e em quase todos eu estou a chorar, por fora ou só por dentro.
É isto o amor? Esta culpabilização do que ficou por dizer e fazer, dos abraços e beijos molhados que nunca te dei? Das palavras que não disse, sim porque nunca tive coragem para te dizer: amo-te Pai.
Não, não era coisa que se dissesse como não era próprio demonstrar o quanto te amava.
E depois partis-te assim, aos 51 anos. Como pudeste fazer tal coisa? Tenho frio, foram as últimas palavras que disseste e eu não estava lá. Porque me assolam estas imagens e esta dor antiga hoje e agora? Não sei. Talvez nestes momentos mais difíceis da vida, em que tudo parece desmoronar-se ao nosso redor, quando o futuro é pouco mais que um buraco na alma e o medo nos dias, talvez seja quando este amor que nunca morre mais falta nos faz.
Só sei que nunca morrerás enquanto eu estiver viva, e que se aqui estivesses me olharias com um ar crítico, de quem tantas dificuldades passou e não compreenderia sequer porque duvido o que fazer. Basta estarmos vivos para lutar. É isso não é Pai?







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