Há por ai alguém que não use avental?
De um momento para o outro todos os portugueses parecem pertencer à maçonaria. Não, desculpem, explico-me mal, o que quero dizer é que todos os portugueses parecem pertencer a uma loja da maçonaria. Bolas, não é bem isso. O que quero realmente dizer é que a cada português parece ser ele próprio uma loja da maçonaria, dando ideia de que Portugal é um gigantesco outlet.
Ele há a loja Mozart, a Simbólica, a Tradicional, a loja do Oriente e do Ocidente, do D e do E, e até a Loja Legal, sugerindo que todas as outras são ilegais. Embora consciente de que as ideias feitas são sempre redutoras, e correm o risco de ser redutoras, a verdade é que para o comum e ignorante mortal, como eu, o que sabemos destes estabelecimentos é que a farda obrigatória consiste num avental e que o produto transaccionado é poder e troca de influências. Sabemos, também, que não chegaram agora a Portugal, e que pelo menos desde o liberalismo, são ponto de passagem obrigatória para os políticos, dando-se então pelo nome de “clubs”, ainda não os de futebol, isso viria mais tarde, que se digladiavam entre si, fazendo eleger e cair governos à velocidade da luz.
Nesses tempos, os irmãos ajudavam os irmãos a conquistar lugares de poder, que por sua vez ajudavam outros irmãos, até que a grande irmandade estivesse toda confortavelmente instalada e os objectivos atingidos. No campo contrário, ou seja no mais conservador, existiam organizações similares, que em nome de Deus, usavam estratégias semelhantes para ter direito à sua parte do centro comercial. E odiavam-se uns aos outros, porque tinham ideais diferentes, mas também porque os lugares de poder são necessariamente limitados. Ou seja, nada parece ter mudado assim tanto, à excepção do secretismo. Adoptavam nomes secretos, vestiam o avental por baixo da roupa, cumprimentavam-se com sinais misteriosos, o que fascinava o nosso lado infantil. Agora usam o avental por fora e dão entrevistas. Serão certamente igualmente poderosos, mas têm muito menos graça.





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