A Experiência de Zimbardo e os presos afegãos
Há muito que deixámos de dividir o mundo em bons e maus, como nos filmes de cowboys. Desde aí entendemos que a vida tem muitos cinzentos, e o branco e o preto vivem dentro de nós, e não é assim tão impossível que um tome conta do outro. Quando é o lado mau que vence choca--nos o horror daquilo que os seres humanos são capazes de fazer uns aos outros, e perguntamo-nos como é possível que o Mal tome conta de gente que, provavelmente, será dada nos próximos dias como perfeitamente afável pela família, amigos e colegas.
Em 1971, o psicólogo Philipe Zimbardo foi autor de uma experiência que ficou para a História com o nome de Standford Experiment. Contratado pela Marinha dos EUA, o objectivo do ensaio era perceber as causas dos abusos de autoridade dos guardas militares contra os prisioneiros. As cobaias consistiam em estudantes universitários, escolhidos ao acaso, 12 para o papel de guardas e 12 para prisioneiros, ficando Zimbardo como director da “prisão”, instalada na cave do edifício da própria universidade. Seis dias depois, uma jovem psicóloga no estabelecimento não queria acreditar no que via. Os “guardas” tinham assumido o seu papel com tal convicção que torturavam os “prisioneiros”, que por sua vez agiam como indefesos, aceitando passivamente os maus tratos.
Até Zimbardo se esquecera de que tudo não passava de uma experiência. Alertado para o horror, a experiência terminou ali, constatando--se depois que a psicóloga que denunciou o caso era a cinquentésima pessoa a ali entrar e a primeira a protestar. A conclusão, envolta ainda em grande polémica, é que quando há uma ideologia e um enquadramento social que legitime o abuso, é fácil que o comum dos mortais se transforme no que esperam dele.
Anos depois, Zimbardo fundou o Heroic Project, que pretende fortalecer o espírito heróico dos mais novos, e se rege por uma citação de Einstein que diz: «O mundo é um lugar perigoso, não por causa dos que praticam o mal, mas por causa daqueles que vêem e não fazem nada».




