A fada do lar, os homens e a culpa
Ontem os mercados, sejam lá quem forem esses tipos, acordaram bem dispostos e dispuseram-se a comprar as nossas dívidas como se fossem presentes de Natal. É claro que o comum dos mortais, como eu, demora algum tempo a perceber porque é que alguém está tão interessado em comprar as dívidas de outros, e muito francamente fica cheio de pena de que não haja ninguém que lhe bata à porta desejoso de lhe dar alguma coisa pelas suas, mas enfim se dizem que é bom sinal, a gente congratula-se.
Congratulamo-nos e aproveitamos o tempo para pensar noutra coisa que não seja a crise, o que também me parece uma coisa boa, porque temo que os nossos neurónios estejam tão formatados ao discurso da tragédia que já não dêem para outros peditórios. Os meus aproveitaram a folga, para constatar que os estereótipos são mais difíceis de combater do que as agências de ratting.
Sobretudo os estereótipos que definem o que deve ser um homem e uma mulher. Aparentemente as mudanças que ocorreram nas últimas décadas, com uma forte representação feminina na escola, na universidade e no mercado de trabalho seriam suficientes para que desaparecesse de vez o modelo da mulher fada do lar. Mas a verdade é que as estatísticas portuguesas continuam a revelar que são elas que desempenham a maior parte das tarefas domésticas e que prestam a maioria dos cuidados aos filhos, que acumulam com um emprego fora de casa.
E o pior é que mesmo quem até já conseguiu dividir as tarefas com a sua cara metade, se sente culpada por não ser capaz de desempenhar na perfeição o papel de esposa dedicada, mãe extremosa e profissional irrepreensível. Da mesma forma, nada garante que o homem que racionalmente aceita essa partilha, e que até descobriu o prazer de ficar com os filhos ou de fazer o jantar, não resista a gabar-se aos amigos de que lá em casa não veste o avental (pelo menos o da cozinha), e que nem sabe mudar uma fralda. Suspeito que, uns e outros, continuaremos presos nesta triste armadilha.




