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EDITORIAL

Piegas, talvez, mas iletrados certamente

08 | 02 | 2012   15.20H
Isabel Stilwell | editorial@destak.pt

Fui ouvir o discurso que Pedro Passos Coelhos fez na escola que visitou. Ouvir o original, em lugar de acreditar nas mil semi- transcrições que apareceram por todo o lado. Já andamos todos neste mundo há muitos anos para nos fiarmos em discursos parlamentares indignados, ou declarações de políticos que parecem virgens ofendidas, citando afirmações fora do contexto porque percebem que o “soundbite” funciona. Da esquerda, à direita, bem entendido, todos os fazem.

Somem-se-lhe depois alguns comentadores, bloguistas e redes sociais e o Carnaval está instalado. Faço-o por uma questão de ética: para me indignar quando acho que há razões de indignação, e para não seguir a carneirada de forma acéfala, se se trata de um aproveitamento.

Por isso, quando todas as conversas passaram a conter a palavra “piegas” fui ouvir as palavras do próprio na TSF. Dias depois, rios de tinta corridos, intervenções na Assembleia da República e manchetes de jornais publicadas, fiquei de boca aberta, pela desonestidade intelectual, na pior das hipóteses, e na melhor, pelo grau de analfabetismo funcional, que permite que se tenha “treslido/resouvido” desta maneira.

O senhor falava numa escola. E disse, a propósito do ensino: “Devemos persistir, ser exigentes, e não sermos piegas, nem ter pena dos alunos, coitadinhos, que sofrem tanto para aprender. Nunca conheci um aluno que anos mais tarde, louvasse os professores que facilitavam ou não tivessem cumprido devidamente”. Ora, no contexto da relação pais e filhos, nós os pais somos piegas, sem dúvida nenhuma.

Dói-nos a alma pensar que têm de acordar tão cedo, fazer tantos TPC, ir a tantas aulas e reagimos contra os professores sempre que os castigam. Levamo-los à escola, financiamos os seus caprichos, e regra geral somos muito pouco exigentes. Se os pais dos que afirmam que chamou piegas aos portugueses o tivessem sido menos, quem sabe se a esta hora não saberiam ler.

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