Proteja-se do síndrome do mundo mau
Nunca fui a favor de jornais que dêem só as boas notícias, escondendo a realidade como ela é. Nem tão pouco de que se escamoteiem os problemas, fingindo não os ver. Se há crimes, violência, tragédias, cumpre-nos noticiá-las e ajudar o nosso leitor a entender o que esteve na sua origem, como podiam ter sido evitados, e o que é possível fazer pelas vítimas.
Mas se não defendo uma comunicação social asséptica, também me indigna os jornais e televisões que vivem da desgraça, cobrindo o seu espaço de homicídios e violações, de assaltos e raptos, transformando uma pequeníssima parcela da realidade no todo, deixando crer que o País se transformou numa reserva de porcos, feios e maus.
Quantas vezes já leu reportagens que o deixam com a ideia de que uma larga maioria das crianças são vítimas de abuso sexual por adultos, ou postas em perigo pela Internet, ou em contraponto todas drogadas, viciadas em sexo e por aí adiante? E depois, quando vai ler com mais cuidado, descobre que obviamente não são 15% do total, mas sim 15% dos 3% que de facto têm esse comportamento?
Sujeitos a uma representação da realidade falseada, tornamo-nos vítimas daquilo a que a psicologia chama de “Síndrome do Mundo Mau”, e que afecta sobretudo as crianças e os mais velhos, porque fechados em casa, não têm a possibilidade de confirmar, pela sua própria vivência, que as cidades não estão sitiadas e os massacres não acontecem em todas as esquinas.
Se temos de proteger os nossos pais e os nossos filhos de um crime, cabe-nos igualmente impedir que fiquem convencidos de que o mundo é um lugar perigoso, roubados da sua autonomia, impedidos de viver e gozar a vida.




