Lusa e brasileira, só não sabia o quanto
Maria Bebiana, minha avó paterna, emigrou ao Brasil na adolescência e viveu no Rio até perto de completar os 80 anos. “Quero morrer em Gouvinhas”, disse-nos, referindo-se à aldeia no Alto Douro, onde hoje vive. Era lisboeta, mas nunca se esqueceu dos sobreiros das terras em que cresceu. Era brasileira também, mas ainda não tinha percebido o quanto.
Dona Bibi apresentou-me a Lisboa em 2001 e, depois que perdera a bolsa num táxi, tivemos que ir ao banco para cancelar seus cheques. Chegamos à agência na avenida da Liberdade antes que abrisse; havia umas quatro pessoas à frente de nós, todas mais jovens que ela. Ao abrir das portas, Bibi correu o suficiente para ultrapassar os enfileirados e chegar em primeiro ao atendente.
O líder da fila, um homem indignado de uns 40 anos, deu-lhe um sermão: “Respeitinho é bom, e eu gosto”. “E eu sou uma idosa!” – retrucou. Ela estava acostumada às filas preferenciais de bancos e supermercados brasileiros para maiores de 65 anos, que gozam de outros direitos.
Aqui, os transportes urbanos coletivos são gratuitos para eles; além disso, pagam metade do preço de entrada em espetáculos. Em Portugal, onde a população idosa é proporcionalmente maior, não faz sentido tantos privilégios. Difícil foi convencê-la, através de dados demográficos, da perda dos direitos adquiridos...





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