Xico-Espertos
Que Portugal era um país de Xico-Espertos, já o sabemos desde há muito. Os buracos propositados da lei, somados à ambiguidade de uma língua muito mais poética do que lógica, e à preocupação em proteger alguns “desgraçadinhos” que apareceram depois do 25 de Abril, criaram um conjunto de esquemas que poucos hesitavam em usar.
Havia especialistas na elaboração de pedidos, programas e projectos para ir buscar mais algum, ou na congeminação de buracos contratuais em obras para implicar maior despesa (por exemplo, numa piscina onde fossem retiradas do contrato as necessárias luzes).
À esperteza de uns, respondiam os outros com uma esperteza maior e, de degrau em degrau, lá se iam driblando uns aos outros com mútua admiração. As autarquias e o Estado acabavam por pagar tudo.Com os esforços do Tribunal de Contas e as restrições orçamentais, os Xico-Espertos foram perdendo as suas oportunidades. Mas a cultura ficou.
As recentes propostas de mexida na TSU cheiram a Xico-esperteza para driblar as resoluções do Tribunal Constitucional: “Ah, fizeste-me isto? Já vais ver o que te espera”. Depois era só esperar o que fariam os outros Xico-Espertos, talvez uma deriva para a economia paralela. Mas não. O povo saiu à rua em protesto pacífico e voltou para casa. Ninguém se aproveitou. Aparentemente não houve Xico-esperteza, pelo menos fora dos partidos da maioria. Não sei o que se passa. Mas admito que os Xico-Es-pertos já só existam nas elites do poder.




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