A verdade a troco de dinheiro é prostituição
Quando liguei a televisão já tinha começado. Demorei tempo a perceber o que se passava, estava a leste do pesadelo felizmente, mas aos poucos fui mergulhando na história. Era um Especial SIC em que o primeiro concorrente do Momento da Verdade tinha direito ao que parecia ser um momento de reabilitação da sua imagem.
Uma segunda oportunidade para que o Cabo explicasse melhor o contexto das respostas que tinham chocado o País, dizia a moderadora. O que eu não entendia é porque é que o País não estava paralisado de terror com as perguntas, com a obscenidade do programa, com a prostituição que ali se faz, trocando a intimidade das pessoas por dinheiro.
A Verdade não é uma obrigação pública, era o que faltava. Mais, na forma que aqui assume, com as consequências desastrosas para todos (neste caso, inclusivamente para uma criança de sete anos que via em casa o programa em que o pai era a estrela), é apenas uma forma requintada de crueldade. Esta verdade não tem mérito algum. A intimidade de cada pessoa, os seus erros e falhas são conversa para ter com o grilo da consciência, ou com quem pelos seus laços de genuíno afecto mereça que com ela a partilhemos.
Mesmo este Especial era doentio. A moderadora tentava pôr pensos nas feridas, e até mostrava sensibilidade nalgumas questões colocadas, mas se a conversa poderia ser louvável entre as paredes de um consultório, a partir do momento em que tinha por objectivo a transmissão televisiva, passava a lamentável. Uma pseudopsicoterapia, em que alguém se arrogava o direito de dar palpites sobre a forma como o senhor vivia, se dava com a mulher, ou até beijava a filha. É triste ver justificar o injustificável. Tentar convencer-nos de que aquela desgraça era afinal um serviço público. Tinha servido, comentava para trazer «verdade» aquele casamento, para fazer dele uma pessoa melhor, e até lhe pediu para, ali mesmo, prometer que se regeneraria e a pedir perdão à esposa! Pornografia pura, este explorar de imaturidades e fragilidades. Como se pode hipocritamente fazer dinheiro à custa de imbecis?





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